Dunas de Fogo

Dunas de Fogo

 

Banhava-se em jade líquida

remansa

Luz alva esmeralda

Que lhe ofertava pérolas espumantes

Cama de fina areia

de mãos elegantes

Era feroz errante

Caravana seu corpo de dunas

Desenhado de sombras morenas

Percorria jazidas de sol

Devorava sua luz para alimentar

escorpiões dourados

Seu andar guardava o ataque do leão

O atracar do acasalamento

Engalfinhar de lobos famintos

Seu farejar tácito

Rastejar de naja

A sedução do bico da águia

O tremular de sua pele de areia

era flamejar da chama

O calor irradiado derretia sua loucura

Olhar que derramava em ânforas

Seu sumidouro clamava

o devorar de um ser inteiro

Em um oásis de prata

banhado de poeira de lua

Saciava sua nua

Aflorava garras afiadas

mutuamente enterradas

presa em mandíbula

rolando pelos mapas de mistérios

dos desertos

 

Paixão tórrida

Selvagem

Sedenta de ares

Sedenta de mares

Faminta de amores

Mordida de jaguares

 

Mara Romaro

03/05/2017 20:30H

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Folha de rosto

Folha de rosto

Um rosto deitado

repousado de mornas

_ mãos frias

Rosto silenciado em sonhos

Um rosto de cores cintilantes

nariz adormecido

boca que comeu

tudo que nunca disse

Por sua garganta

cresceram trepadeiras

_ de rosas

Em seu estômago

emaranharam esses perfumes

Rosto adormecido

com paz

sedimentada

de tentativas

Rosto de gosto

Esquecido de gaivota

Trêmulo e ululante sorriso

de promessas de risos juntos

Rosto de profetisa

Rosto de olhos de madeira

Olhos de boca

de som de chuva

falando um nada de névoa

ou de reticente neve

Um rosto que poderia ser

seda pura

que com dedos de criança

galopo deslizo

montanhas

narinas

lóbulos de orelha

o acordar vazio

que desperta na boca

que abre os olhos

_ de brilhos

Um rosto

de paz que trago

comigo

no fundo do bolso

por baixo do meu travesseiro

no meu sonho

febril esmorecido

Mara Romaro

9/9/17 1:03 h quarto

Aviso aos navegantes

Aviso aos navegantes

 

Nuvem negra me mandou um aviso, que vejo com esta luneta.

No entanto, sobre a mesa, disponho os rolos das rotas traçadas, em desejos circum-navegantes.

Adentrei por esta porta, da vigia meus olhos fogem, vão ao infinito no balanço das horas.

Se na minha travessia, quebra-mar por ora ensandecido, o dia me acorda lúcido, pela balestilha eu escalono tempo.

Percebo agora, as correntes se lançam e não definem.

No ano passado, os dias foram difíceis, como se provisões não tivesse, a mão firme desaparecesse. Angústia era eriçada em “Palo Mayor”, com a gávea embarrigada do vento das quatro luas. Por estes estreitos passei, fiz de meu rosto carranca. Lancei meus dedos nas águas revoltas, vesti as luvas dos granizos inertes nem nascidos.

E depois, meu eu, ficou derivando equações inesgotavelmente, com a quilha exposta aos corais, que durante a manhã fria ou tarde, esmigalhadas subiam degraus do céu.

Esqueci meu tempo em amuradas, só pelo prazer de apanhar dos meus cabelos.

O oceano profundo era vermelho, e com ele, os médicos me avisaram, não ia ser nada fácil. De fato, mas por um golpe do derradeiro, o sangrar desapareceu nas tempestades que adentrei, me forcei passar, com olho vidrado no último sextante, no mesmo ritmo, no ponto mais alto do mastro resistente morar, e segurar firme na antemão.

Os dias neste ano, me ofertaram brilhos nas palavras que esqueço, e neste ano, nunca como antes percorri tanto, mesmo no perigo, no frio, melancolicamente, as notícias me chegaram fracas, minha dor atrapalhou, e tudo que pude fazer foi lançar confidências ao Imediato.

Que de pronto me respondeu: – lembra-te do dia, que saíste do mar de serpentes, tudo que podias era tomar um barco lotado de anões mal-humorados. Dentre eles, um, bêbado, esbravejava desconexas coisas, causos e assombrações. Seu beiço se deitava quase ao chão, que se podia tropeçar nele. E ele falava das trapaças, dos cinismos, das hipocrisias de toda essa gente emprumada nas vestes de abotoaduras. E acrescentou – o que é isso que se fartam de fazer todo dia, a mandar inesgotáveis pedidos a Deus, ao bom Deus, como se ele fosse um balcão, que se encosta e se pede um e mais um copo de whisky?

Era tempo de buscar outros mapas, de sentir de deus, sua contemplação, esplendor do sol, e transpirar emoção, amor, sentimento, sem o luto das roupas, sem o escárnio das horas. A visão me abastava outro quadrante, escrevi na luz da vela, no pranto da lua, no momento intercalado do meu dia, e as distâncias foram percorridas.

Entendo que acreditei. Por um momento, soube que deveria me apressar, e para escapar do frio, projetei inúmeros lugares.

Não encontro o caminho para eu ir de onde eu vim. Não retorno adentro nas novas ideias que recolhi. Mas sigo, orientada pela luz e uma energia invisível que me arrebate e não sei explicar. Enfim, cada dia, coisas novas independem de espaço, mas de condição interna e senso, como o de localização, mas que permitisse sair e voltar entre mundos, sem perder nada.

Mas o fato, é que nem sempre posso largar a direção, descuidar de meu físico, que surpreendido nesses meses últimos, a mais estes problemas.

Eu tenho que lançar âncora, preciso seguir devagar, meu tempo será permeado de cocô dos pássaros, e nem sempre será momento no meu lugar predileto. Também, faz parte de tudo, ser este ser teimoso, manter a cabeça erguida ainda que enrugue o olho.

Eu pretendia escrever um livro, escrevi, escrevi outro, queria fazer o seu antônimo, fiz um pouco, criei outra ideias e frases, não queria perder nenhuma.

Não fui longe. Nem saí do lugar. Meus problemas continuam ali me olhando, com olhos feios.

Eu sorrio meus dentes de sabre e eles não me enfrentam.

Mas eu pretendia, colocar um livro meu em estante, e não vai ser possível ainda, por mais que eu tenha escrito.

Enfim, sejamos pacientes, mas nem tanto.

Vou me dividir, como sempre.

Um braço a bombordo, outro a estibordo.

Quem sabe desenho carta dos quatro ventos e outra editora me encontre neste oceano, que estou exatamente sob a estrela Polar.

E é claro, é preciso saber que um dado momento, é esticado um dedo a ti, um dedo ossudo, esguio, entrecortado de rugas, unha comprida e negra. Dedo que te busca e retira daqui.

Portanto, eu apenas quero receber do sol, em suas chamas apagadas, ar de mescla de fumaça, frutos da terra nesta desertificação dos pântanos.

Não estou pensando no porto.

Estou pensando no meu canto, cheio das pessoas boas que vi, dos filhos que me cobrem de amor, do amor que vivi.

Enquanto não enrolar todos os meus mapas escritos e desenhados, não quero ver que este dedo pense que possa ter meu lugar de fim.

Não.

Quero continuar, subindo e descendo, virando, cortando e pingando esse mar manuscrito cursivo e de próprio punho.

 

Mara

31/08/2017

 

 

Sobre ano de criatividade, doenças, sofrimentos, enganos. E de mar em mar, de pranto em pranto, de sol a sol, deus é a essência do meu plano. Para trás ficam todos os pedidos rasgados. Enfrentamento de infecção e problema nefrológico.

Música: Embers, Close, Cantata nro 16 e outras clássicas.