Dunas de Fogo

Dunas de Fogo

 

Banhava-se em jade líquida

remansa

Luz alva esmeralda

Que lhe ofertava pérolas espumantes

Cama de fina areia

de mãos elegantes

Era feroz errante

Caravana seu corpo de dunas

Desenhado de sombras morenas

Percorria jazidas de sol

Devorava sua luz para alimentar

escorpiões dourados

Seu andar guardava o ataque do leão

O atracar do acasalamento

Engalfinhar de lobos famintos

Seu farejar tácido

Rastejar de naja

A sedução do bico da águia

O tremular de sua pele de areia

era flamejar da chama

O calor irradiado derretia sua loucura

Olhar que derramava em ânforas

Seu sumidouro clamava

o devorar de um ser inteiro

Em um oásis de prata

banhado de poeira de lua

Saciava sua nua

Aflorava garras afiadas

mutuamente enterradas

presa em mandíbula

rolando pelos mapas de mistérios

dos desertos

 

Paixão tórrida

Selvagem

Sedenta de ares

Sedenta de mares

Faminta de amores

Mordida de jaguares

 

Mara Romaro

03/05/2017 20:30H

Leia-me

Leia-me

 

 

Teia-me a aranha

Contém-me em suas mordaças

Folheiam-me bolores

Devoram-me traças

 

Leia-me cada letra

Perca-se nas folhas decapitadas

Palavre-se além de cinco

Cílios que se fossilizam em páginas

 

Leia-me Tateia-me

 

Letras em cardumes

Pensamentos em negrumes

Incompreenda-me mal

Saboreie deste sal

Frases varridas do quintal

Salivas gotejadas deste animal

 

Pagine-se no fulgor de imagens

Formule-se mensagens

Dobre-as em aviões de papel

Lance-as nos seus céus

 

Incendeia-me de livros velhos esquecidos

Longos romances interrompidos

Beijos estáticos nas folhas amareladas

Cheira-me papel

Vire pátina

Esqueça-me

Palavras borboleteiam

Desvencilham-se teias

Vagam ideias em veias

Nos olhos que folheiam

 

Leia-me por inteiro

em pedacinhos picados de papel

Leia-me nas folhas amassadas

Leia-me no lixo, no nicho

tocando com seu ouvido

Leia-me em cinzas que espalhe do alto

_                                       da torre Eiffel

 

Leia-me decompondo palavras

em letras por sua saliva

Destila-me venenos em suas salinas

Rasgue-me em páginas passadas

Que o esquecimento vesti-la-á de lembranças

Que as palavras brotarão da cabeça em tranças

 

Mara Romaro

23/02/2017 12:05H

 

O arquivo leia-me, costumava vir em diversos softwares, contendo instruções de instalação e uso.

 

Diadema

 

 

O que guardo no coração

isso lá é comigo

Se faço dele um abrigo

O amplo olhar

engole o frio

Pinta o pôr-do-sol antigo

Gaivotas caladas

em sobrevoo

O que guardo comigo

é de ti algum vazio

o desapercebido

o saber esquecido

O que sinto é meu dilema

impróprio e doado

Meu guardado problema

com brilhos de diadema

Frescor silvestre

Deitar anoitecer

Aconteça tudo o que for

Está costurada esta dor

no mato cresce sem permissão

amarela flor

O que guardo no coração

Tem a força de uma mão

cúmplice que semeou

o amor

 

Mara Romaro

23/05/2017 13:49

Música: Madredeus – Haja o que houver

Abelha operária

O esvoaçar do cabelo

Parece apenas um grito

Uma liberdade

Somos um galho

na esquiva

dos enroscos

Nas curvas

Na vida

Visto meus casacos

uma folha de arruda

Medalhinha da santa

Lavanda abre-caminho

Ginga

Desvia

Olhos de águia

Pulo do gato

Buraco!

Olha a porta!

Inclina a um lado

Contorno de esquina

uma poça respinga

Carros na fechada

Retrovisor prá nada!

Gente louca desvairada

Celular enfiado na narina

Prestenção!

Não quero cair não

Esgueiramos

Sacolas na mão

Chuva se veste

Ele conduz meu pensar

Golpe de serpente

na viela entre carros

Vivemos nosso corpo fechado

Nossa prontidão

Parece liberdade

o que é ginga

e golpe de capoeira

Reza brava

Vento frio e

cusparada

 

Mara Romaro

23/05/2017

Música: Madredeus

Nossa vida em duas rodas

Cantata italiana

 

Um tempo de dizer a mim mesma

como me sinto

Uma queda d’água

Roda d’água que vira

não para

Tempo e música e alento

Emoções que enrubescem

Salivas doces de você

Sinto tudo parte de mim

Durmo nas canções de voz

O arco do violino busca tecer notas

no meio dos meus cabelos

Arrepio um triste olhar disparado

contra montanha contra o ar

contra o aprisionamento

Emoção cantata

Bocelli me consola

me embarga

mordo canolis que são de vento

sonho o bebê que nasce

que amparo no meu colo

limpo seu visgo

limpo seu choro

guardo seu cabelo liso

nas linhas da minha mão

O sangue presencia

meu queixo duro

meu choro contido

E a palavra da vida engulo

durante as canções me esqueço

sentada na poltrona da direita

Uma fervura que não se acaba

Estória que não se escreve

A música engole seu tempo

enquanto a ópera atravessa meu corpo

estremecido e arranhado

as esperanças adoecidas

O vapor da comida

enevoa as vidraças de tantos sentimentos

Toco-os com acordes harmônicos

de cordas vocais cálidas

e caladas feito olhos

de meu castanho tão negro

tão negro

indefinível em brilho opaco

compassos errados dos pés

que pensam andar águas

irrepresáveis implodidas

de sentimentos

íntegros

 

Mara Romaro

22/05/2017 15:18

Música:

E lucean Le stelle (Tosca) – Bocelli

Sul ciglio senza far rumore – Alessandra Amoroso

Ci stai – Biagio Antonacci

La voce Del Silenzio – Bocelli/Elisa

Fugaz espanto

Fugaz espanto

 

Abri as mãos

Pousou no escudo

uma luz verde

Emocionou meu escuro

Luminescência permanente

Seu etéreo abraça-me

através das minhas

vazias mãos

Guia passos cegos

Respiração de apreço

Girar de braços pelo espaço

Passos de dança

às três da madrugada

Esperança na espera da hora perfeita

Lamparina verde

Luz da noite sussurra um canto

Procuro os piados da coruja no espaço

Perguntas me ferem

Esbarro em queixas

Sinto a calma e a paixão

na luz verde

Pirilampo

 

Mara Romaro

19/05/2017 11:54

Texto relembrado e reconstruído

Realejo de Insônia

 

Era para eu subir os degraus

Ler um pouco de Sagarana

Talvez um copo de água

Ruído da fria chuva

Um bala

descascada

Um chinelo de pano

Restos de sonhos

de banho

Chá morno

adocicado de cana

Podia ser amor na cama

Apenas estico os braços

sinto seu morno sono

me perdi nesse estágio de sono

Penso no mar

Busco calma

Apenas a friagem de alma

Quanta coisa indigna

Sem solução de vida

Palavras desobedecem as horas

Encantam – me afloram

Visto um robe, meus óculos

Sentimentos de revoada de mariposas

A dizer

nada que mude a noite

e a falta

Desenho de contornos

Delinear de ilusões

Fantasias de reis momos

Lantejoulas coloridas de morango

Lacrimejando de um gole de água com gás

Retorço o ombro de friagem

Penso nas aves molhadas em seus ninhos

Minhas aflições apago na bituca

Tento esquecer o refrão da música

Vinícius e Milton

Lembro de uma a esquecer d’outra

Sem mérito

Sem fim

Gata que mia

me pede

se fia

Um chá me cairia bem

Quanto que evito dizer a palavra

que ecoa na azia

Sou subjulgada a ela

No entanto, é luz que acaba

uma vela se acende

 

Mara Romaro

19/05/2017 Madrugada

Coisas que eu sinto

como se viessem de bem distante

Versatile Blogger Award

Este post é sobre um concurso que funciona entre os blogs o The Versatile Blogger Award. e Meu blog foi indicado por Ludoevico – https://ludoevico.wordpress.com/ – confesso que fui surpreendida, sinto-me muito agradecida com o recomendar e novos leitores.

Sou nova de blog, ainda estou conhecendo diversos, às vezes não consigo ler tudo, mas tem sido gratificante, incentivador e uma ótima forma de receber conhecimentos sem tanta postagem de frases feitas, reclamações e outras coisas incômodas.

Os blogs que recomendo, descobri por sorte, tem me enriquecido em arte, cultura, notícias, com um olhar mais amplo que a mídia tradicional e mais independente. Ah, mas sou muito grata à poesia, ela me abençoa, não tenho outra maneira de dizer.

  1. Agradece-se    Recomenda-se 10 blogs    3. Contar fatos da vida, além blog

Blogs Recomendados

 

Julia Sopetran – El tiempo habitado –  poesia sensível e muito bem trabalhada, no idioma espanhol tão lindo. Adoro

El Bosque Silencioso – https://elbosquesilencioso.com/ – de Antonio Pavon Leal – Como me surpreendi com este blog, textos incríveis, contos, poemas, fotos, de uma escrita fantástica.

El hostal Del Poeta – de Ernesto Cisneras – https://ernestocisnerosrivera.wordpress.com/ – um blog interessante com muita literatura diversificada, de um recente amigo que me traz sempre algo novo, uma incrível cultura e recomendo.

Jllopartfolch – https://jllopart.wordpress.com/ – poesia muito bem trabalhada

La república de lós libros – https://larepublicadeloslibros.wordpress.com/ –  de Manuel Luis Rodriguez U. – muitas dicas de livros, links de poemas, informações sobre literatura.

Giovanna – https://giovannaromaro.com/ – Grafias Visuais – este blog, tem poesia, fotografia, artes visuais, projetos diferentes e modernos, tem uma linguagem profunda, teor feminista, sensível, impactante, revolve nosso íntimo com sua arte. Inovador.

Poesia in rete – https://poesiainrete.wordpress.com/ – traz poemas de literaturas diversas (leste europeu, árabe, outras línguas) traduzidas para o italiano, mantendo abaixo o idioma original. São poemas incríveis e praticamente desconheço por não ter tanto acesso e fluência nesses idiomas. Abre um leque enorme de acesso à poesia. Imprescindível para escritores e poetas.

Nelson Branco – https://pedalopelacidade.wordpress.com/ – Uma visão especial para o ciclismo, gosto muito, realiza meus sonhos.

Ricardo Sexton – https://reviiver.wordpress.com/ – poesia em inglês, muito variada e bem elaborada.

Fernando Nogueira – https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ – Cidadania e Cultura, ele traz matérias diversas de economia e cultura, de forma independente da mídia, fazendo um apanhado de informações de diversas opiniões, muito bem embasado.

 

Gente há diversos outros blogs bons, que procuro prestigiar, mas não é possível citar todos.

Sobre mim – Sou ex-analista de sistemas de mercado financeiro, sempre escrevi, tenho três filhos, casada, adoro café-chocolate-vinho, adoro -de paixão- Gatos, minhas leituras juvenis foram por incrível que pareça – Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Júlio Verne, Sidney Sheldon, Morris West, Mika Waltari (O Egípcio), Cláudio Manuel da Costa, Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, Shakespeare, Anne Frank, Martin Luther King e outros. Na vida adulta, pós-nascimento dos filhos, li outros clássicos e Best-sellers:- cito Umberto Eco, Dan Brown, Stieg Larsson, Federico Garcia Lorca (poeta incrível e imprescindível), Gabriel Garcia Marquez e Pablo Neruda, Rosamunde Pilcher (Os catadores de conchas), foram grandes admirados. Há uma enorme lacuna de obras que quero ler e reler, atualmente estou lendo, Amos Oz, Clarice Lispector, Federico Garcia Lorca, Guimarães Rosa, Arquitetura do Egito, Tolkien, e uns outros, loucura misturar livros, mas tem sido minha estratégia para voltar a ler.

Abraços e obrigada!

Mara Romaro

 

 

Essência de Perfume

 

Com suas mãos

a delicadeza se vestia como luvas

Nessas horas da noite

ouço o cair da água

nas águas do telhado de chuva

Os gestos contidos

dobrados em finos lenços de cambraia

arrumados em uma caixa

um resto de perfume antigo

papéis guardados

Uma caixa

Uma caixa que fecha

se tampa

se estanca

Põe-se tranca

Sela e

Lacra

Guarda no fundo

Enterra

Cobre com palmos de terra

Vira-se

Faz-se um mapa

 

O dia que amanhece

com luz mais intensa

com os pés nesta fina água

Terra umectante

o instante das cores vibrantes

dessa ferrugem do solo

Uma cor ocre

Cheiro odre

Natureza morta

O que guarda, transborda

Um feixe de luz

ou uma energia invisível

ou o energizar de elétrons

ou uma fumaça

um mísero fio de fumaça

que esparsa na atmosfera

e me cobre dos seus gestos

dos seus perfumes

como um pousar imperceptível

Um toque leve como uma

borboleta marrom

desenhada em preto

 

Reviro na cama

madrugada esfria

Invernos me aborrecem

Sono que engulo em seco

Olhos meus não se fecham

Buscam saber o que me tocou

O que teria me acordado

O que teria me dito

O que teria me feito

Tudo cerrado na caixa

Trancado

Enterrado

Estranhamente se manifesta

no tempo

na incessante chuva

Em como me sinto agora

despida de adjetivos

e adjacências

somente um resto

de um pequeno gesto

de essência

 

Mara Romaro

19/05/2017 Madrugada, no mezanino em compania de Ártemis – minha gatita.

Diário particular da escritora – em 17 de maio

Diário particular da escritora – em 17 de maio

 

O andar da carruagem está sempre a me lembrar, que mal nos curamos de algo, já leva outra bofetada.

Quando finalmente arrumei meu cantinho, meus momentos de sossego, a leitura de um livro que eu não conseguia ler, o recomeçar do desenho, os projetos adiados e interrompidos.

Não sei como me movi, como tive mão destra, sei só que me orgulho que escrevi, noites ainda do verão, dias que não dormi.

A conta do sol não paguei, então desfruto das cores como matéria roubada, ar que inspiro sem asma, e segui meus dias do último verão.

Apesar de sozinha, alegrava-me um bolo quentinho, um chá, uma paciência. Eu via o ar exasperado no rosto, mas eu senti que a calma me amparava. Não podia ficar sem ela.

Eu escrevi, foram dois projetos diferentes, criados e recriados, e quando a ideia final me vestiu, senti que assim devia seguir. E logicamente senti um temor sobre como seria percebido, como as pessoas analisariam o teor. No fim, entre os livros que me propus ler como amplitude, analisando pequenos trechos, todos completamente diversos, que me instigassem, me ajudassem na minha cultura pessoal. Um deles me mostrou o quanto eu devia arriscar-me ao erro, e outro me mostrou o sucesso da simplicidade, outro a beleza musical da complexidade das frases… Eu tão pequena diante disso entendi que devia seguir em frente, no meu propósito e na minha própria estética.

Na verdade, as interpretações se avolumam em cursos de rios inimagináveis e nada que se faça pode conter qualquer censura, a senzala mental, os costumes e a falta de visão de todos os elementos que eu incluí nas minhas jornadas.

E cada momento de criação, fosse ele em meu mezanino, aqui no escritório, em minha cama, com caneta, lápis, fundo musical ou ruídos e intromissões, era um grande sangrar completamente diferente de tudo que eu experimentara escrevendo e desenhando, desenhando e escrevendo, ou desenhando palavras por último. Tudo possuía um motivo, um elemento concreto, uma percepção, um ensejo. E em alguns tempos eu relia, corrigia por um tempo, recorrigia, e relia a mim mesma nessas duas obras. No final da segunda, eu sentia uma sensação tão estranha, talvez meus amigos escritores pudessem me compreender, ou não, porque eu até relatei, li e chorei. Por inúmeras vezes, a mesma coisa ocorreu e eu sei o tanto duro que foi encarar algumas passagens. Há nelas verdade, razão, lembrança, loucura, nada, tudo? E sob o aspecto do escrito, da literatura, eu senti feliz por construir algo com o melhor de mim, com algo mais intenso que eu já possa ter experimentado.

Quando isso terminou, ficou o vácuo, um cansaço intenso mental, uma sensação de impotência e a sensação que não mais poderia fazer algo assim. Como se fosse a última vez, e eu voltara a ser abóbora, escrevendo alguns poemas e escritos, sem tanto encanto ou sentido.

Por um tempo grande me senti descontente e infeliz por sentir aquele conteúdo cerrado em um mundo fechado, uma caixa selada, como se fosse impossível vê-los se materializar em papel e livro para chegar às pessoas. Senti-me muda.

Pensei se daqui um pouco eu encarasse tudo que escrevi algo ruim e descartável…

Como as pessoas me enxergariam depois…

Achando defeitos aqui e ali. Passando essa ressaca literária.

Em meus dias, me livrei corajosamente dos medicamentos e me senti bem. Agora eu sinto, sinto as emoções sem mordaças e estou nessa atenção constante para vencer hoje e amanhã.

Semana passada fui bater na porta da minha amiga de infância, e conversar um pouco de tudo, rir e distensionar, pensar e trocar as ideias. Foi muito bom, recompensador, ao invés das falações de quem não tem a menor sensibilidade com minha vida, com meu esforço, com minhas privações, todo sacrifício que já trilhei. Então, alguns diálogos eu interrompi, não vou permitir esse aborrecimento sem fim agora que estou me levantando e vivendo.

Se eu escrevo, não é diversão ou terapia, não é joguinho de palavras, expressão pura e simples. Eu escrevo há muito tempo, sendo que grande parte eu não pus no papel, porque era analista de sistemas para pagar minhas continhas como todo mundo. Mas, entretanto, todavia as circunstâncias me fizeram escrava de dívidas, escrava do tempo arrancado exageradamente da minha vida pessoal como uma draga, um buraco negro, levando junto minha saúde.

Enquanto eu – alguns anos atrás – vagava de atendimento médico em atendimento médico, ‘companheiros’ do trabalho teciam as mais incríveis teorias sobre uma suposta férias que eu tirara, enquanto eu estava internada no hospital com uma dor aguda, tomando dezenas de injeções e fazendo um monte de exames. Esse foi o ‘reconhecimento’ por anos de trabalho honesto e dedicação, e isso é só uma das decepções e situações que vivi. Eu flagrei essas pessoas conversando ao ir tomar café no escritório no dia do meu aniversário. Eu deixei essa vida de analista para trás, vivo com o que tenho agora, não me interessa o que as pessoas acham ou deixam de achar.

Das minhas contas, cirurgias, tempo de trânsito amargado, déficit de sono e prejuízo na saúde, não tem o que possa pagar com qualquer salário.

Muitos dos meus próximos, depois de todo esse tempo (e olha que eu comecei a estudar informática em 1982 e parei em 2013 com o curso à distância no MIT e em Yale), ainda não sabem o que era a minha profissão, e vinham com as coisas mais estapafúrdias…  fffffffffffffff

Ah, não quero falar das coisas que não consigo, nem importam minhas inúmeras limitações, nem tampouco a falta de oportunidades. Seja ela na carreira antiga ou na literatura.  Não quero mais saber das opiniões de ninguém sobre o que, como, onde e quando faço minha profissão ou minhas escolhas de trabalho, seja ele rentável ou apenas memorável.

Agradeço a Deus ter meu dom de escrever e poder me sentir viva nisso, me expressar e poder desenhar algo que imagino da forma que eu consiga. Isso eu sei que não é uma coisa que as pessoas possam entender ou saber o quão difícil pode ser o lado da vida pessoal financeira e familiar (irmãos, família do esposo, parentes e até alguns amigos).

Então, a despeito do quanto meus projetos literários foram ignorados e do quão raro foi encontrar apoio ou incentivo, hoje decidi ignorar aqueles que assim procederam, que deixaram no vácuo, que nada disseram, que nem quiseram contribuir com a brochura que fiz, ou que realmente não tem afinidade com minha arte, é mais do que hora de esquecê-los e deixar prá lá e dar valor a você que me lê. E para você meu sacrifício e torço que eu consiga chegar a mais pessoas, mesmo nadando contra a correnteza, sem nenhuma torcida.

Percebi (na prática) que se eu faço geleias, é mais fácil encontrar quem quer ganhar do que pagar por elas… Mas algumas pagam e ficam satisfeitas. Quem ganha de graça, não sabe sentir o sabor…

 

Mara Romaro

17/5/2017 15:48

 

Em 31/3/2017 escrevi

Às vezes, tenho que interromper a caneta e caderno, parar e chorar. Porque certas partes a escrever, tenho que reler algumas escritas. Revolvo todo o canteiro, farpas nas mãos, tomara que as sementes acordem. Está chegando a parte final deste projeto, últimos dias, noites sem dormir, trabalho na madrugada, músicas e concentração. Transe quase de uma psicografia. Ainda parece o trabalho impossível de ser feito, mais doloroso, com o estigma de ter sido tentado por mais três vezes. Sete anos ou mais, que nem quero saber. Para ter sido feito em dois meses, que não esquecerei. Jornada iniciada em novembro com as cartas das uvas, ainda não sei como será terminado. Foi minha alma, corpo, sangue, ossos, tudo aqui. Desta vez meu desafio, foi fazer a enxertia de textos de relatos antigos, todos preservados contendo o mínimo de desfiguração, já não gosto de passar a limpo, quanto mais misturar duas coisas distintas, foi algo bem trabalhoso, pensado por muitos dias e semanas, meses e anos. Não nasceu pronto. A maioria não imagina o trabalho, as leituras, as pesquisas, conhecimentos e inspiração que temos que sangrar para poder escrever. Pelo menos leia devagar, sem ansiedade. Releiam os livros que gostam. Acho que semana que vem estarei revisando. Amém. Está em trabalho de parto o Vipassana. Namastê!

 

Farmácia

Farmácia

Por tantas vezes, eu me recusei contar da vida, contar o que vi. Se me sentisse fria, se me sentisse triste.

Costumo olhar nos rostos, adivinhar o pensamento alheio, entender as rugas, o motivo daquela roupa, da expressão do viver.

Recordei, eu com seis anos, pondo os pés nos degraus da farmácia, farmácia das antigas do Seu Takai, um gentil japonês baixinho e pequenino, lépido e com uma voz sensível. Sua farmácia tinha prateleiras do chão ao teto feito de forro de madeira pintado, era uma vitrine de portas de madeira e vidro, continha caixas e mais caixas de medicamentos arrumados meticulosamente. Ele tinha memória de elefante, assim que minha mãe pedia um medicamento, ele arrastava a escada, que se equilibrava em uma travessa de cano, para ele subir nos degraus, arrumando seus óculos no nariz e levantando o rosto para pegar diretamente, quase às cegas o remédio que ele sabia de cor onde estava.

Assim era, havia seringas de vidro esterilizadas, era antes dos descartáveis, eram guardadas em latas de metal de inox, e o seu Takai era exímio aplicador de injeções.

Que contraste. Ontem eu me aproximava da Farmácia do posto de saúde local, havia um furdunço, o gentio estava aglomerado, não era fila de cinema não, eu desisti para retornar hoje na tentativa de retirar um medicamento.

Já era cedo, já estava cheio, com a boca da porta cuspindo gente para fora, ali naquele território onde o sorriso foi banido.

Mulheres com seus agasalhos de lã, senhoras com suas bolsas de napa e toucas de crochê, senhores encurvados em sua própria coluna, moças de batom rebocado e olhar triste, homens de chinelão gasto, sacolinhas com os papéis, senhas sendo conferidas a todo instante.

As vozes estavam ruidosas. Não vi pessoas que já não estivessem bem saturadas desse cansaço, desse pesar.

Uma mulher puxou conversa, se lamentando de seu desemprego, outra pessoa olhava de canto, ouvindo, pessoas continuavam a chegar initerruptamente.

Uma voz: – Pessoal!!! Pessoal! O painel não está funcionando., por favor façam silêncio senão não poderão ouvir a senha!!!

O silêncio áspero durava trinta segundos dando lugar a um murmúrio crescente de indignação.

Então, começaram a sair pessoas, atendidas, mas de mão abanando.

Por vezes, sei que se erra em documentos, a receita venceu, coisa que o valha.

Mas, sobrou uma cadeira e me sentei, era do lado dos medicamentos de alto custo, minha requisição era normal, nem para mim não era, me senti ainda aliviada de não estar nessa fila porque minha depressão melhorou e pude ficar sem medicamento.

Não era o caso de muitos, cada qual com seu problema, eu olhava as faces, elas pareceram paredes pintadas de cinza e sem grafitagem colorida. Porque não há espaço para algo assim. Este era um planeta, que muitos pensam estar livres, nunca ter que visitar nem de passagem. Não querem nem ouvir falar.

A resposta foi se repetindo, eu notei o desalento, depois de uma infinda quantidade de horas de espera: – Está em falta! Dizia ela, em alto e bom tom. O Senhor precisa deixar o pedido e passar aqui em tal dia no mês que vem.

– Mas, eu já fiz isto no mês anterior!!!

Notei como a corcunda do senhor se pronunciava após isto, e olhei seu rosto ao se virar para ir-se embora de mãos vazias, eu olhei como assistindo um filme de terror, só que era de verdade.

Que doença ele teria… que remédio precisaria? Quais agravamentos ele teria?

Resolvi ficar em pé, me afastar, a confusão estava mais ácida, pessoas saindo abruptamente, outras pisando firme, outras destruídas. Algumas com seu remédio, embrulhado em sacolinhas e abraçado com veemência por seus braços, como uma única garrafa d’água que lhe restasse.

A essa altura, me questionei se não estaria perdendo tempo e comecei a contar com os olhos quantos saíam com/sem remédio e se era normal ou de alto custo. Olhei pro lado, todos olhavam atentos e ríspidos percebendo a quantidade de falta e os nichos vazios na prateleira.

Na minha vez, havia o medicamento, ora, me senti em susto, ganhei na loteria, coloquei na sacola, como apenas mais uma pessoa cidadã brasileira, sentindo até peso de horror de eu ter e os pacientes de doenças graves saindo em lágrimas…

Imagine, uma hepatite C interrompendo o tratamento, o olhar da pessoa desolada sobre sua condição…

Neste momento, vejo, junto com a minha saída, uma senhora careca, sem vestígio de cabelo, andando e ela me viu abaixou a cabeça e seus olhos, como se eles caíssem no chão. Mãos abanando.

Pensei na guerra dela, uma guerra desleal, você luta com uma espadinha de plástico e a doença com uma mãe das bombas. E ainda lhe negam sua pequena defesa, cada dia, cada hora é um campo de batalha avançando sobre a pessoa… Foi isso que colhi do olhar…

Não tenho definições de tristeza para isso.

Penso nas pessoas que acham que ‘peixes não devem ser dados, mas você deve pescá-los”, disseram tanto isso por aí, sobre assistências do governo, mas não creio que elas possam dar conta de medicamentos de alto custo para si. Gostaria que elas dissessem olhando nos olhos do câncer dessa pessoa que ela vá pescar primeiro seu medicamento.

São conjecturas, pensamentos nessa terra morta de sorrisos, nesse país abundante, de povo que trabalha, os caras lá só roubam e ainda ceifam essas assistências.

As coisas estão assim nessa subtração em todos os âmbitos nesses últimos tempos. Muito mais ainda se subtrairá. Você não ouvirá o lançamento do plano Menos remédios, mas ele já foi inaugurado.

As vozes eram ruidosas hoje, logo as vozes serão cortantes.

Tomara que você que tem alergia de ver o lado da realidade nua e crua do povão, nunca precise, mas isso é a vida quem diz.

 

Mara Romaro

17/05/2017 11:31

Nosso par

Nosso par

 

Das coisas que fiz na vida

Fiz ter você

Era guardar um ramo de alfazema no peito

Um cobertor em dois

Passeios

Mãos dadas, sempre guardadas na gaveta

Enquanto eu estava sozinha

Revisava seus carinhos guardados para mim

Dia vinte e três, era sempre uma proposta

Uma resposta

Um estar sem tempo para acabar

Era dia de chuva no mesmo guarda-chuva

Duas mordidas no meu churros

Passeio na garupa da vespa

Passeios onde não há nenhuma besta

Ah, e tantos assuntos

conversar sem rumo

um copinho de cognac

cosquinhas e massagem

Sabia que não era de passagem

Sorrisos trocados na carteira

Poucos centavos na feira

Filho

Filhas

Tanto amor e ao mesmo tempo problemas

Nunca quis deixar este esquema

As rusgas de fato, ciúmes

Sim, porque só eu sei

o que passei

E no fim, você foi meu crédito

meu rédito

E nossa cumplicidade de jardim de mato

flores de arbustos

Não sei como dizer

Como contar dos anos da vida

como contar quantas vezes me salvou o dia

como saber lhe dar o amor da melhor forma

que você precisa

E nossas barracas, nossas conversas de fogueira

O céu que nos abraçou das dificuldades

Nosso par foi meu grande bem estar

Foi um grande bem estar de viver

interrompidos nos dias de desentendimentos

com uma sofreguidão insuportável

E hoje sinto uma paz agradável

ao estar ao seu lado

e ter vivido com você

 

Mara Romaro

12/05/2017 11:40