BeijoTe

 

BeijoTe

(23 Fev 18 12h | Música: Marisi – Cantoma, Anew – Ed Carslen | à meia voz, à meia luz, à meia-noite)

 

No leite morno da noite

                         uma calda debruça

                                me olha dentro

               de uma folha penumbra

um lacrimejo gemido destemido

     nas minhas orlas manguezais

Lençóis de nuvens – Canção de ninar

 

Meus ouvidos acariciados como couro de bumbo

e grunhidos das águas areais

Minha borboleta rubi pousa nos cílios

sem encostar a nuca

 

BeijoTe                         em linha de contorno

BeijoTe            sussurros de concha acústica

Pés de borboleta

Sou farfalhar de voo macio

Planta aos pés do ouvido um arrepio

 

Águas correntes – Fios tonalizados de crepúsculo

BeijoTe  a superfície da água de cabelos escuros

 

Argila não se molda à mão

Uma atmosfera distante

Percorrida no trotar do trovão

Clarões noturnos insones

_                      Bolhas de sabão

 

BeijoTe                 o calor        das           mãos

o desenrolar do antebraço

o soluço        do    cotovelo

a nascente    do          peito

 

Em uma febril sexta estação

redemoinhos das caldas do sono

borbulha etéreo

esse amor

 

EvaporaMe suores de desenhos

sedimenta o alto céu

de sementes brancas

 

Meus lábios despetalam-se

voam bico de beija-flor

 

BeijoTe     de   amor

Canto em quatro vozes do rouxinol do coração

 

Dessa febre convulsa

Nascente as salivas te ofertam presentes

vinho de úvula

acidulante de poeira de lua

 

BeijoTe frescor hortelã em folha

as esculturas torneadas

que sustentam seu olhar

 

Repouso a curva à beira do abismo

dos desenhos sinuosos

o amendoar desse círculo brilhante

que traga a fumaça do meu amar

 

BeijoTe   espelho d’água – submirjo

_  encontro os reflexos fossilizados

_              no âmbar de mim mesma

 

BeijoTe nas imagens que te farei enxergar

 

Aninho o pé com as mãos

Levo um pulsar

Boca nas pontas macias do dedo

_         irão tocar o pisar

_  andar dos dias e a represa de sentimento

 

Minhas mãos aninham

esse corpo de flor

sorrisos de brilho

das matizes desse calor

 

BeijoTe

Penetro o jardim secreto

de grama japonesa marsala

Um canteiro em ferradura

nascem lírios brancos

da espuma das salivas

Uma coroa de copos-de-leite

plantada em hálito moreno de café

 

BeijoTe             e transmuto as cores

A uva rubi macera vinho

metamorfose dos mares

esse encontro de labaredas

de líquidos de comunhão

 

BeijoTe       Transpasso o chão

presa em labirinto

das cordas vocais do violão

neste licor me embriago de ilusão

 

Nessa abóbada celeste

constelação de flores

os desenhos de tormenta

se depuseram em pó de giz

no carinho da minha mão

 

e como eu amava Completamente

auscutava essas batidas

ritmadas no atabaque

abafado dentro do peito

 

E uma emoção serena

_          tão serena como esse crepuscular

 

BeijoTe meu amor

sem te enxergar

porque misteriosamente escuto

essa música sonhada do som

_                  das suas palavras

 

Mara Romaro

 

 

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Estranho pertencer

Estranho pertencer

(21 fev 18 21:06 Mezanino Música:The healing waves – Lukas Termera)

 

Sonho que o sonho

seria o seu

Sonhasse ele o que seria?

Gosto o gosto da boca do ar

se fosse sua

que diamante de açúcar comeria?

 

Se leitura que lesse

em jornais antepassados

em que página estaria?

 

Música de casaco

sobretudo no frio

em janelas respingadas

no momento assíncrono

eu ouviria o que ouviria?

 

Se coisas perdidas e descartadas

aonde as procuraria

achar-me-ia amassada nelas?

 

Se virasse a esquina

em qual esquiva viraria?

 

Se minha vida estivesse por

um fio

que tecido teceria?

 

Se meu sonho sonhasse

nas mãos encontrasse

cicatriz da letra

que se encaixaria

perfeitamente

na inicial da minha mão

Duas letras que

estiveram repetidas

nos nomes do começo de vida

Que nome daria?

 

Se a afasia persistisse

que termo inventaria

para esse sangue ferido

que está por detrás

de cada pupila?

 

Que nome daria

se nascesse naquele dia?

 

Se meu gesto fosse seu gesto

coubesse no espelho

a que distância estaria?

 

Uma mecha de cabelo

guardasse o meu guardado

que castanho seria?

 

Se uma palavra fosse

chorá-la

esse verso eu lhe diria?

Se afluente eu fosse

já sabe que rio navegaria?

Se uma frase faltasse-nos

que frase falaria?

 

Se meu sonho e seu sonho

se encontrassem

o que aconteceria?

 

Mara Romaro

As Canetas

As Canetas

( 20 Fev 2018 15:26 Firma | Caderno couro azul | Folha aquarelada com trombeteira lilás | Para minha paixão por canetas)

Naquela parede

na mesma onde havia

um leque japonês

como uma flor branca herbarizada

com seus filetes rijos

havia uma discreta

tinteiro miniatura

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Desespero da bolha de sabão

Desespero da bolha de sabão

(15-fev-18 14 – 14:48 H)

 

O respirar não tem seu gosto

Há uma maresia calada

Uma frieza de lâmina guia

Tenho olhos absorvidos em uma pedra

Derretem em noite de prata

Oxidam na manhã adormecida

Tenho surdez do cotidiano

Uma esfera de lucidez

cresce em uma bolha de sabão

Assume suas cores perdidas

Sua fronteira é cântico

do tocar de sua mão

 

Bolha estoura o caviar de emoção

Desejos passam

nos dorsos coloridos de cavalos marinhos

presos em um carrossel invisível

Voando um céu impossível

O céu manto do seu lençol

 

Quero ser mão de verdade

E meu caminho ser linha da vida

Estirada nas palmas

em asas de almas

em dias salvos

das dores da sua falta

 

Quero estar na sua boca

ouvir arpa vocal

Ser o som mantido sublingual

 

Desejo saber o tom

do sangue quente

Eles podem se dizer tudo

no transcorrer bombeado

da cabeça aos pés

em uma gota de pacto

 

Coração despedaçado intacto

 

Preciso, sempre

que me cubra

com o prazer de tudo que dei

 

Serenidade esquecida

à tarde marina

ao luar do farol

em cama de cetim das marés

um colorido de água marinha

pincelada com minha língua

dos rostos encontrados perdidos

no capuz de sonhos

 

Sinta minha boca

em batom vinho

na poesia recitada

dentro dos seus olhos fechados

 

Na maré mansa da hora desafiada

embarque nas vitórias régias

cubra-se dos seus tecidos

deixe camuflado os beijos antigos

 

Dobre com os dedos músicos

Envie em envelopes de papel

Os perfumes destilados para mim

 

Preciso

Sua voz baixa

sombra de vulto sob cortina

voz indecisa

que me fale língua sibilante

injete antígeno

Teça bordados na cicatriz do seu pseudônimo

 

Preciso

do espalmar, do nadar, do contorcer,

do voar, do prender, do bater,

do gostar, do poder

Preciso do seu ser

 

Mara Romaro

Rebolado de Filhotes

Rebolado de Filhotes

(28/01/2018 11:50)

 

Guardei

na cachola oca

uma lembrança

sem sua semelhança

sem vestígio dos meus dias

uma marmota – uma piada

uma alavanca de sorriso

 

Guardei e benzi

com água de cheiro

com ar de pólen

dentro de chapéu marinheiro

Uma lembrança

que me fizesse sorrir

além dos meus brotos queimados

além do céu rasgado

e do olho traiçoeiro

do formigueiro

 

Era

a fila indiana

desengonçada

batoquinha e arretada

de andar lépido

de filhotes do avestruz

 

Sua plumagem trêmula

arrepiada

Seus passinhos apressados

Seus olhos imensos

seguros em ponte pênsil

 

Seu piado reunido

em bouquet de cria

protegidos nas asas abertas

da mãe

 

Guardei –  sorri

e sendo fortuna tranquei

Atrevo-me a levar uma pena

uma alusão

um colar a me servir de ilusão

certamente hei de precisar

 

Mara Romaro

Bruma do incenso Cinnamon Morning Star

Bruma do incenso Cinnamon Morning Star

(05/02/2018 11:40 H)

 

Bebo um gole de intento

Esvoaça liberto

o momento de aperto no peito

A queima do incenso

liberta –  o espírito preso

uma voz fumaça

Deixo que vá

Deito nos braços de sua fuligem

Meigo gosto de sempre amargo

cheiro embebido doce de seu sarcasmo

 

Voa livre – Desaparece na diluição

Sua existência seria líquida

condensaria as libélulas da manhã?

Suas asas de cristal Bohemia

Suas asas trêmulas do amor

Suas asas líquidas de água de gelo

 

Tudo perfumado

nos ares do meu coração manhã

tudo mergulhado nas promessas

das chuvas secas

das orgias ocas da estrela do amanhã

 

Alma do isento incenso

Alma insensata

Colunata de fumaça

de uma bruma espada

de ondas imaginadas

ondas com música

da fervura do leite coberto de nata

 

Bebo um trago do ar

Rumino os perfumes pensados

Das sedas puras estampadas

de onda de mar agitado

Morro com este gosto

de vento do aroma

de grama cortada

Cinnamon queimado

um espírito em halo de diálogo

Celofanes coloridos

Derretidas gelatinas do sol oculto

nas sedas brancas da lua

nas teias de lantejoulas losango

e os dedos das brumas bordadas

se escondem nos brilhos

das palavras afogadas na saliva

adocicada do pêssego em calda

 

De repente se extingue

O fio de fumaça

inaudível e calado

Banha em espumas

seus braços

_                    vestidos de nuvens altas

 

Mara Romaro

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Músicas: Nocturne – Max Richter, Mistery sky – Lemmongrass