Carta ao Silêncio

27 setembro de 2016 14:49

Carta ao Silêncio:

 

Num certo momento da noite, eu cerrei os olhos. Pensamentos e palavras circundavam as montanhas enevoadas com o resto de inverno. Eu não ouvia nada, apenas a respiração reluzia em correntes de ar a espreita do luar.

Rememoriei o olhar vazio de minha mãe, seu vácuo de silêncio zumbiu. Ela se foi e junto levou tantos anos para eu conseguir olhar de volta as lembranças de amor que ela me deu. Mas um dia, após tantos anos, em meu olhar distraído voltei à cozinha com as panelas no fogo, eu descascava as batatas e minha mãe cantarolava. Era um silêncio de sonata, calma balançava as cortinas da janela, e o sol piscava os olhos iluminando-nos.

Na serenidade de um violão, a solidão batia na minha porta, naqueles dias frios, o vazio era inevitável. Mas o pior foi que naquele momento de perda, perdi amizade que se afogou em silêncio. Eu sabia que precisava me segurar em alguma árvore verde, mas me senti fraca. Neste momento eu penso que a amizade sempre será linda, como um beija-flor voando, mas não posso mais deixar de saber o tempo enorme do silêncio que me açoitou dia após dia, me arrastou em correnteza.

Acredito em sinceridades. A esperança se veste em terno amarelo e marrom do bem-te-vi que tece o ninho em meu pinheiro, antes que os ventos mudem de direção.

Eu deixei com o tempo, as fotos amareladas serem levadas pelo vento.  Sem me importar tanto, a calma nos meus pés fizeram um momento quieto, quando pisei descalça no gramado. Meus pés foram abraçados pela patinha da gata, suas unhas me faziam retrair, sorrir e pedir para parar.

Lá pela madrugada calada, minha gatinha vive meu acordar, seus grunhidos perdidos na sombra diluída da noite se amansa junto aos primeiros passarinhos que rompem seu silêncio.

No caminho de sol, da vida estive com amigos a me seguir, alguns ao lado, filhos e amado marido, mas pessoas só foram até certo momento. A voz que se cala, é sempre uma derrota.

Gosto tanto de contar, mas eu conto demais, as cores evaporam, os horizontes fogem de mãos dadas.

Não importa aonde isso vai dar, o som de voz, é o que eu queria mais lembrar de minha mãe. Talvez amiga perdida no tempo da sinfonia de silêncio. E o vento me avisou que vai chegar e trazer umas chuvas para curvar as folhas da árvore.

As ameixas que não deu para comer, os morcegos as cercavam na noite de uivo.

O tempo não se cala mais, ele dança um tango, meu cabelo é livre e meu sorriso até pode ser calado. Não preciso despertar todo dia na mesma hora. Posso chegar no quentinho de casa quieta antes que o sol se ponha.

A paciência volta a ser meu piscar de olhos. Meus olhos não são vazios e relembro os bons olhos de mãe e de amor próprio.

Confesso sem dizer que meu ceticismo sobre as pessoas aumentou, são nuvens no céu, mas algo não suporto mais, são as pessoas frias, frívolas, hipócritas, arrogantes, que choram de barriga cheia, e as que são silêncio da pobreza de diálogo. Ou são surdas ou são mudas.

Por isso, às vezes me recolho, prefiro um chá triste, mas amanhã vai ter bolo, ou na curva do rio encontrarei novas pessoas que pescam ilusão, igual este silêncio quebrado de meus íntimos pensamentos que na paz encontro o som perfeito de mim mesma.

 

Mara Romaro

 

Verso da folha

Pensei grande parte deste texto antes de dormir ontem. Queria vencer o bloqueio de voltar a escrever, vencer minha apatia e meu próprio silêncio.

Música: Um dia de Noviembre – Leo Brouwer

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