Olhar Noturno

Um céu fechado de claridade,

brisas negras e inquietações insones.

Visão cega da obscuridade da madrugada,

sem sons, uivos longes,

respirações de névoa branca em friagem.

Secura da boca em estiagem.

Piso descalça as frias pedras.

 

Abro a porta do quintal,

saio vestida do meu sono acordado,

olho inerte sem pensar.

A instabilidade balança os fios de cabelo,

que na sombra refletida da lua ainda posso enxergar.

Meus pés pisam as areias,

agredidas do tempo,

que se arrastaram para meu chão depois da última chuva.

Chuva forte que encobriu a montanha.

A montanha que sempre estava lá

e somente quando a cortina de água cinza a encobriu,

senti como meus olhos passavam por ela,

tocando seu contorno,

sua nuca,

sua vegetação.

 

Demorei a visualizar um corpo dormente,

que nas noites se cobria

de um manto de algodão.

 

Com o voar de pássaros misteriosos da noite,

meu tocar se omitia em grutas,

em pedras, em troncos

de árvores queimadas do fogo.

 

Voltei para a sala,

olhando o contorno

de poucas nuvens feridas com luar poente.

Meus olhos ardiam lágrimas secas,

dos prantos dormidos

embebidos de pequenos momentos de dormência.

A friagem desta hora

molhou feito chuva de outono,

em prateadas gotas que pingaram

das pontas das folhas da árvore do meu jardim.

 

Minha silhueta se dizia,

nas sombras tênues da noite,

das lembranças e esquecimentos,

das forças e fraquezas,

dos erros e acertos,

do racional e insano,

se dizia no andar triste, coberta pelo manto

muito mais do que melancolia.

 

Deitei novamente

a olhar o teto apagado do quarto,

do quarto de hora de insônia,

das reviravoltas sem posição

que deixe o sono se apoderar da visão negra.

O tempo que nunca cuidou direito,

tomou meus minutos,

dormi sem sonhos,

acordei com os cristais

das tristezas

nos olhos vitrais.

 

©Mara Romaro

|28/11/2016 13:55

VIII – Tempus Temporis

Por um longo tempo, meus segundos cantavam e iam acordando no átimo que eu fitava a pena a caneta tinteiro, pensando sobre o papel branco.

Branco e Bruma no tiquetaquear.

Agora é alguém que acorda e sorri. Eu perguntava onde era o começo. Ele me respondia: Nascimento.

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