Tempus Temporis

Por um longo tempo, meus segundos cantavam e iam acordando no átimo que eu fitava a pena a caneta tinteiro, pensando sobre o papel branco.

Branco e Bruma no tiquetaquear.

Agora é alguém que acorda e sorri. Eu perguntava onde era o começo. Ele me respondia: Nascimento.

Eu tentava recordar, mas estava em outra estação que se transpunha por entre as engrenagens do relógio enorme da Matriz. Cada dente que virava trazia gravada uma palavra que eu não conseguia anotar.

Ao virar a engrenagem do quinquagésimo nono dente, começou a tracionar as cordas do pêndulo do sino, que brandiu seu primeiro soar.

No estremecer do som, os Ponteiros se alinharam em doze. Começaram a se falar, o maior e o menor. “Você vai antes por quê?” “Vou eu, eu sou mais alto e ando mais lépido.”

“Mas a engrenagem vira da mesma forma e eu aprecio mais longamente a paisagem.”

Segundo apareceu em uma janela, como um passarinho e se pôs para fora para olhar na janela. Disse: “Você Ainda está aí?”

O Ainda era filho da Demora do Tempo, neto das Horas e afilhado do Ponteiro mais baixo.

Neste momento a I hora acorda, ela ilumina aquele instante que acabou de nascer novo para que eu iniciasse minha caminhada.

Porém eu me encontrava presa no Tempus Temporis, a casa do transcender.

Eu perguntei à II ou III e elas tilintavam jogos com engrenagens.

IV me ofereceu mostrar a janela.

No Minuto que o Segundo quinquagésimo nono ia virar, pude por meus olhos grandes no quadrado da parte alta do painel do relógio Romano.

Eu pude ver. Tudo congelava. Todos os ponteiros paravam. Enquanto eu olhava e eu podia ver que  momento eu quisesse revisitar. Falei à mim mesma: Nascimento e apareceu eu no colo da minha mãe chorando e virando o rosto sem aceitar o peito materno.

Logo a seguir daqueles momentos de quase morrer de desidratação, pude ver meu irmão entrando embaixo do berço para brincar de esconde-esconde. Um que fazia macaquices e corriam para lá e para cá.

Um senhor de óculos de aros bem grossos, grisalho, voz calma, me dava a mão e dizia: “Vou ter que te deixar por aqui. Não poderei te ver mas lembra-te, tudo tem reflexo, tudo tem reação e continuidade. Até mesmo para mim. Tudo tem tempo. O tempo é infinito.”

O despertador toca o tilintar irritante. Engrenagens se movem. O senhor Tempo diminuto desce as escadas, cada degrau, um por vez, como cada passo, cada gesto, cada proferir, cada lembrança, cada pensamento.

O Tempo já era uma família que anda em fila indiana. Essa era uma boa regra.

Agora me toma a mão e rege meu cantar.

Ele era simpático e agitado, e eu sabia que precisava viver em sintonia com ele.

O relógio tinha doze horas centenárias, milênios de minutos e anos luz de segundos.

Um barco me espera no canal em frente a igreja, me levava de volta ao sonho que me abriu esta porta.

Agora me dizia do mistério da lembrança.

Eu anotava e percebi que existia a décima terceira hora. Ela era a hora derradeira. A hora do teu tempo mundano acabar e outro lugar te levar além das fronteiras, longe dos olhos e conecta aos sentimentos.

Toquei nos Ponteiros e Engrenagens, passei dois de meus dedos com carinho. Um rubi piscou para mim e dei cordas para não brecar o cadenciar do Instante.

A Demora se despediu de mim com um longo abraço cheio de conselhos.

Eu olhei acima do Relógio, o astro iluminava quente e eu sabia que Eternidade me seguiria.

“Você leve esta maçã para a Hora do lanche.”

Eu peguei a maçã linda, mas ao rumar além do Momento e a paisagem sucumbir à Noite, a maçã virou vidro translúcido de cristal incolor em minhas mãos.

Tempus Temporis ficou no Ontem, mas eu tinha uma ampulheta de areia no quarto para viver enquanto a areia caísse em dunas do deserto. Tinha que valer cada pôr-do-sol. Eu ainda estava aqui.

Mara Romaro

12/2/2016 20h

Locus: Casa

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s