Mágico Damião

“Respeitável público;

tenho a honra de apresentar,

o inestimável,

Mágico Damião”

 

Para toda manhã vazia,

há sempre uma ventania e

Aquele despertar.

E vem aquele Damião,

todo de fraque,

falta a cartola,

sobra coração.

Não é pelo café,

mas pela mão no meu ombro.

Não é pela fé,

mas pelo que tira do escombro.

 

Mágico Damião,

café com açúcar da sua voz,

e luz de lampião.

Rosto moreno,

sorriso de menino,

misto meiguice

e meninice,

espontâneo e raro.

 

Quando penso em dizer obrigado,

já se foi, feito uma mágica.

Na minha mente,

ressoam os aplausos.

 

 

Mágico Damião,

sem varinha,

nem capa,

como você pode então

evaporar minha solidão?

Dissipar minhas angústias?

Evaporar um cantinho de lágrima?

 

Mágico Damião,

como você pode,

apenas com sua mão,

me fazer sentir gente?

Me trazer um sorriso,

sem nem saber as minhas dores?

 

Mágico Damião,

de todos os amigos,

você foi aquele que eu não esperava,

não imaginava,

senão uma grande alegria,

por aquele café,

cheio de coração.

 

Então, todos meus “obrigados”,

são poucos demais,

para você saber

quão grande

é sua alma.

 

 

Mara Romaro

 

Verso da Folha                                 Mágico Damião

10/05/2006 23H.

Texto para meu amigo Damião, mestre do café quando trabalhava na Rua Verbo Divino. Café servido por uma pessoa especial e digna, que trazia aroma de ternura para meus dias. Eu sorrateiramente ia à copa roubar sempre sua simpatia e deixava secretamente um bombom. Saudade de gente assim humana de verdade.

 

Vestido Azul de Seda

Domingo de feira,

vesti minha luz de vida

minha pequenina

com seu lindo vestido de azul seda pura,

derramado de pequenos sagus

em poisinhos de granizos

branquinhos.

Tinha uma gola de bordado de organdi

que parecia nuvens de primavera.

Cabelinho de lado,

todo enfeitado

de presilhas brancas

com fadinhas borboletas.

Um par de jabuticabas bem atentos

perscrutava as barracas coloridas

de        laranjas,

bananas,

ameixas,

abacates.

 

Em meu colo passeava faceira

guardando moranguinhos e bananas ouro,

na sua de palha sacolinha de feira.

 

Ah, entre um momento e outro,

o vento sorria divertidamente,

pois o sol corava as bochechas

quando sacudia o vestido de seda.

 

Brevemente levantava a saia,

para as duas coradas bochechas

sorrissem  para os atônitos passantes.

 

Eu vesti um lindo vestido azul

de seda de bolinhas,

sapatinho de verniz,

meias bordadas

com Maria fumaça.

 

Mas esqueci da calcinha

para esconder a nudez

das nádegas!

Oh, meu Deus!!

 

Mara Romaro

 

Verso da Folha:

13/5/2009 hora do almoço.

Carinho lavado e engomado para as recordações de Giovanna em seus guardados dias de infância.

Tragédia Greco-romana (Crítica)

Parlamento faz inveja ao Parlamento Romano, com suas intrigas, traições, apunhaladas pelas costas, enquanto povo falido sangra, os Reis Momos balofos, Nosferatus, Mandraques e seus convivas banqueteiam tramando uma nova chantagem, ou tramóias, seus benefícios e meios de perpetuarem-se como membros de uma casta donos de capitanias hereditárias. Enquanto bobos da corte enganados pelos espetaculares mágicos e prestímanos vestem bandeiras sem sentido, de jargões nada obedecidos, chefiados por mordomo de castelo de vampiro a sugar todo o sangue e suor do trabalho. Endossados pelo bispado de toga que são agraciados com todo tipo de benesses, riquezas, poder, para desempenhar todos os atos deste teatro ópera de tragédia grega. Não se iludam, que haverá apenas bois de piranha mas a maioria estará escarrapachada em seus tronos, fazendo malabarismos com moedas de ouro. E você, nem pastel para comer.

Mara

Caleidoscópio de Sabores

Sabor de acordar

parece o sabor de amar.

Quando você pensa que já sabe o gosto de tudo

sempre aparecem novos vapores.

Eu gostava de azeitona.

Encontrava tranquilidade em tomates.

Achava que nada poderia ser melhor,

até experimentar…

Mãe sempre conseguia colocar mágica naquilo que fazia.

Eu pensava que amizade parecia com pudim de num sei o quê.

Que os tropeços engraçados de uma amizade se pareciam àquela bala em pó de estralinho,

que um namoro de criança se parecia com guaraná.

Uma brincadeira de roda, amarelinha eram pirulitos de framboesa.

De repente, quando adolescente, pude entender a profundidade de um chocolate.

Esse era o sabor da felicidade. Nada poderia ser melhor.

 

Mas então, quando conheci sorvete, principalmente aqueles sorvetes de morango,

em casquinhas de cinema de matinê…

Um chá era canção de ninar mais predileta que eu tinha. Eu sonhava com anjos.

Enquanto mamãe amassava os ingredientes do pão de minuto,

seu amor diminuto estava em mim, em todo aquele aroma

adocicado da baunilha.

Nada mais sincero que uma baunilha.

Nos dias de infância tinha arroz doce, com a incrível intromissão da canela.

A janela aberta, com o vento sacudindo as abas da cortina,

o aroma do pêssego em calda de mamãe. Era um panelão imenso.

Quando passei um tempo com minhas nêsperas, enquanto eu as despia,

lembrava mamãe descascando os pêssegos.

Nunca pude entender os pêssegos.

E passava gritante a pamonha. Essa eu conheço de perto e de longa molenga data.

Mas, encontrei o amor, sabores mais ácidos, mais amargos, intensos. Sabores vermelhos.

Nem sei qual o descreve melhor.

Então, eu conversei com maçãs, a opinião delas era tenuemente adocicada.

Mas queria mesmo uma entrevista com a pimenta vermelha. Essa passava intensa e efêmera,

ardia e esquecia logo depois. O rocoto relleno era quase, mas não tanto.

Não podia traduzir o beijo.

Que temperatura era aquilo?

Então, conheci a cereja, mas ela era pequena e rápida.

Tive que esperar, sentir todos os aromas e vida se cozinhando em almoços e jantares desencontrados.

Por fim, achei a receita. Sim, aquilo era receita. Com principal e coadjuvante.

Contrastante sabor.

Mal pude esperar o natal de experimentar.

O aroma se levantava como alma dançante sobre o fogão,

A fervura era linda que se fazia esquecer a labuta.

Lá na geladeira o pudim alemão, carinhoso como cetim gelado nos dias de calor.

Mas a cor rubra da pele essa se intensificava na pele destemida de cada pera imersa naquela calda, vermelha intensa, com a consistência de calda antes de se formar uma geleia.

Aquelas peras em vinho sim, aquilo sim podia dizer profunda e verdadeiramente o sabor do beijo de amor.

Eu penso e sinto isso, cada vez me lembro e esse gosto invade minha pele, ela se aquece e se torna asas.

As paredes se abrasam, acendem em pequenos candelabros, inebriantes luzes de vinho tinto diluído em cor de groselha.

 

Mara Romaro

24/9/15 13:50

Quase perdi as palavras por três interrupções.

Nem sei que música. Segurei com unhas de felino atiçado e bravo para não perder esse fio de meada que queria escrever.

 

 

 

Para você

Para você;

Eu queria que o dia fosse luz.

Que projetasse no chão, mais do que perspectivas inatingíveis.

Que quando acordasse tivesse os sonhos que quisera ter tido.

Na primeira hora da manhã, a revoada de pássaros formasse V no céu, diante do sol nascente.

Queria uma nascente de água serena, onde pudesse refrescar os pés, e ficasse pelo tempo que quisesse ficar.

Queria lhe dar o silêncio que curasse a dor de cabeça.

Para você, sempre haveria casa quentinha para voltar, com braços e abraços lhe esperando.

Queria que vendesse todos os amendoins quentes e pudesse entrar na padaria para comer um pão com mortadela.

Alguém que lhe tratasse como gente, independente de qual banheiro você limpa.

Que tivesse um monte de gente pra gritar o gol, a cesta, o kata-guruma,  o xeque-mate, torcendo de igual pelo seu filho.

Todos que pudessem tilintar os copos, por saúde, por vitória, pelo neto que nasceu, pelo emprego, pelo livro lançado. Seja cerveja, vinho, carpano, champanhe, uma branquinha.

Para você, aquele cachorrinho branco, no portão, esperando. Você chega, ele pula, abana freneticamente o rabo.

Ou quem sabe, um choro abafado, um grunhido quando sente sua presença materna, que acaba por começar uma outra vida. Um outro alguém para pensar e cuidar. Um outro você para você.

Para você, um peixinho azul, nadando no aquário, e você lhe dá o alimento. Uma cor única e viva que lhe receba.

Para você uma colina verde a se esparramar de um veludo que se forma dos bilhões de lírios acenando com lenços.

Para você, apenas o encontrar e nunca o perder.

Todo tempo para ninar seus filhos, seus netos e bisnetos.

Todas as portas abertas, e família pra dividir a fejuca, uma maçã, uma bala, um naco de chocolate.

Vizinhos que emprestem um punhado de sal, e um sorriso.

Para você, amigos que se encontrem naquela botica, ou churras, contem a piada do ano, dêem um baita tapão nas costas, ou abraços saudosos em alguma rodoviária. Amigos que tirem sarro da sua cara; dêem garupa na bicicleta, um canto do guarda-chuva. Emprestem um livro. Dêem uma bronca, mas peça desculpa se pisou na bola.

Para você a camisa do time, o selo raro, aquela tinteiro, aquela caneca de bichos, um prato de porcelana chinesa, com desenhos de dragão, soltando fogo pelas ventas.

Para você, uma fogueira nesta noite de outono, para rodear de irmãos do mundo inteiro.

Achar aquele brinco que perdeu na praia.

Poder manter a fé nas pessoas que ama.

Para você, o manto para o frio, o céu infinito que Deus costurou especialmente para você.

 

 

Mara Romaro

 

Verso da folha                                        Para Você

29-5-2007 20:06 a 20:45

Beatles – While my guitar

Rua Brasil

Ao final do dia, o caminho percorre minhas veias

Sinto as palavras se escreverem

por meus braços abertos ao vento

A moto desliza neste repente

de uma coleção de percepções

dos horizontes viajantes

Um jacarandá de esquina

Flamboyant derramando pensamentos nas calçadas

onde uma criança de chinelos

corria de shorts e camiseta de algodão

Primavera prenuncia as cores das paredes

verdes, azuis, tijolinho, amarelas, violetas, vermelhas

Portões com uma mulher debruçada

Um sofá a venda na garagem

Vende-se

Aluga-se

Muda-se

Vive-se

Foda-se

Adiante a viela enrugada da chuva

Uma igreja fechada

Casa de entulhos

Muros arranhados

Um homem com um copo, uma espuma, na mesa do bar

Uma casinha com flores com cara de lar

Terreno que se capina

Aves de rapina

Em dia de chuva, criança que brinca

na sarjeta de água corrida

Pintura esmaecida adentro da porta aberta

Um varal de roupas coloridas na frente das casas

Espadas de São Jorge plantadas nos canteiros

Santos iluminados em um oráculo acima das portas

Cortinas desfraldadas

fugindo às janelas

Subo adiante e vejo sobradinhos

Quintal com pé de mamão

A vista vai se abrindo

Para os terrenos esquecidos

Já chego ao final da rua Brasil,

Adentro a rua Campinas

Com árvores sorridentes na minha chuva

Contornamos o lago,

das garças que fugiram

Transcorrem os lugares, os ares,

as folhas que atapetam o chão

Um respirar

de fim de dia,

para ver uma última vez o sol

me avisar que minha casa está a se aproximar.

Rua Brasil,

rua de todo dia,

de gente suada,

roupa lavada,

cheiro de fritada,

bananeira no quintal

Esperança preguicenta do cachorro vira-latas

Rua Brasil

a moça espreita através da janela

o lugar por onde a rua sumiu

Mara Romaro

Verso da folha:

08/12/2016 13:20

Música: Ein wahres Glück – Unheilig

Muitos e muitos trajetos que as palavras escreveram-se em minha mente, evaporaram, esqueci, reescrevi, diariamente as impressões das ruas do país e seu cotidiano e de seu coitado povo.

Sonhos Dormidos

Sonhos Dormidos,

pão amanhecido.

Pés doloridos,

chaves perdidas.

Sol, lua e neblina.

 

Sonhos dormidos,

a busca eterna

de encontrar

ou de fugir.

Cor que foge do rosto.

O susto.

O súbito.

De fato, o acaso.

 

Sonhos dormidos,

o café coado;

uma xícara esquecida.

O tempo.

 

Tempo em tempestade.

Intempestuoso.

Monstruoso.

Sonho que te foge,

a verdade que te persegue.

 

Eu, meu Deus, e

Ninguém.

 

Sonhos dormidos,

acalentados com a voz

quase assobiada,

pão molhado no café.

Sono que embriaga,

sonhos que afugentam

eu de mim mesma.

 

Sonhos dormidos,

conversa com o passado,

sapato apertado,

andarilhos na noite.

Estrelas cadentes,

telefones no gancho.

Apatia de perder

o último ônibus.

 

Sonhos dormidos,

que dia após dia,

tento sonhar

ao invés de chorar

a escuridão,

o frio

a fome

o medo

a solidão.

 

 

Sonho dormindo,

acordo esquecendo;

Vivo aprendendo,

tentando achar

o caminho,

a ida ou a volta.

 

Cedo com o sol,

com restinho da madrugada,

lamparadas,

corujas;

vidro molhado,

embebido em sereno.

Bebo o vinho,

um cálice, para esquecer.

 

Sonhos acordados,

quando viajo,

vou, volto,

me revolto.

Sonho para sentir

o gosto do céu,

estando no inferno.

 

Sol que chega,

mesa posta,

roupa no varal.

Café com pressa,

assim mesmo devagar.

 

Sonho, que posso,

que estou,

que vivo,

que vejo,

que amo,

que deito

durmo

e te vejo.

 

Mara Romaro

 

Verso da folha             Sonhos Dormidos

05-07-07 23H

Saudade de minha mãe(s).

Uma resposta de carta

Uma resposta de carta

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente uma herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Carta de Giovanna
“Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.”
Gi Romaro

Carta da Primavera

Carta da Primavera

 

Desta chuva que se cala,

em madrugada que acende em crepúsculo.

Colorem de verde a palidez das montanhas,

e acendem as cores para a visão mais penetrante.

E em instantes

enquadram a poesia dormente,

da timidez cega imposta,

por todos essas momentos agendados.

E por vazios pintados de ilusão,

em ação diária perpétua

repleta de inutilidade.

Nas brechas,

a sagacidade de sorrir

e interrompidos sonhos pueris,

de longínquos lugares verdes

delineados por brotos de flores nascentes.

Antítese do vazio de todos os minutos tomados,

antepondo-se

a todos vazios preenchidos de ocupação,

de algum programa de entretenimento,

ou apenas,

de um sono entorpecente.

E se acendem as cores,

reabrindo as trancadas esperanças.

 

A delicadeza de uma FLOR,

o poema perfeito

feito

de nenhuma palavra,

porque já diz tudo.

 

Mara da Costa Romaro

 

Verso da Folha

22.09.2002