Uma resposta de carta

Uma resposta de carta

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente uma herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Carta de Giovanna
“Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.”
Gi Romaro

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4 comentários

  1. Pingback: Uma resposta de carta — mararomaro – LA REPÚBLICA DE LOS LIBROS
  2. G. · dezembro 6, 2016

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