Para você

Para você;

Eu queria que o dia fosse luz.

Que projetasse no chão, mais do que perspectivas inatingíveis.

Que quando acordasse tivesse os sonhos que quisera ter tido.

Na primeira hora da manhã, a revoada de pássaros formasse V no céu, diante do sol nascente.

Queria uma nascente de água serena, onde pudesse refrescar os pés, e ficasse pelo tempo que quisesse ficar.

Queria lhe dar o silêncio que curasse a dor de cabeça.

Para você, sempre haveria casa quentinha para voltar, com braços e abraços lhe esperando.

Queria que vendesse todos os amendoins quentes e pudesse entrar na padaria para comer um pão com mortadela.

Alguém que lhe tratasse como gente, independente de qual banheiro você limpa.

Que tivesse um monte de gente pra gritar o gol, a cesta, o kata-guruma,  o xeque-mate, torcendo de igual pelo seu filho.

Todos que pudessem tilintar os copos, por saúde, por vitória, pelo neto que nasceu, pelo emprego, pelo livro lançado. Seja cerveja, vinho, carpano, champanhe, uma branquinha.

Para você, aquele cachorrinho branco, no portão, esperando. Você chega, ele pula, abana freneticamente o rabo.

Ou quem sabe, um choro abafado, um grunhido quando sente sua presença materna, que acaba por começar uma outra vida. Um outro alguém para pensar e cuidar. Um outro você para você.

Para você, um peixinho azul, nadando no aquário, e você lhe dá o alimento. Uma cor única e viva que lhe receba.

Para você uma colina verde a se esparramar de um veludo que se forma dos bilhões de lírios acenando com lenços.

Para você, apenas o encontrar e nunca o perder.

Todo tempo para ninar seus filhos, seus netos e bisnetos.

Todas as portas abertas, e família pra dividir a fejuca, uma maçã, uma bala, um naco de chocolate.

Vizinhos que emprestem um punhado de sal, e um sorriso.

Para você, amigos que se encontrem naquela botica, ou churras, contem a piada do ano, dêem um baita tapão nas costas, ou abraços saudosos em alguma rodoviária. Amigos que tirem sarro da sua cara; dêem garupa na bicicleta, um canto do guarda-chuva. Emprestem um livro. Dêem uma bronca, mas peça desculpa se pisou na bola.

Para você a camisa do time, o selo raro, aquela tinteiro, aquela caneca de bichos, um prato de porcelana chinesa, com desenhos de dragão, soltando fogo pelas ventas.

Para você, uma fogueira nesta noite de outono, para rodear de irmãos do mundo inteiro.

Achar aquele brinco que perdeu na praia.

Poder manter a fé nas pessoas que ama.

Para você, o manto para o frio, o céu infinito que Deus costurou especialmente para você.

 

 

Mara Romaro

 

Verso da folha                                        Para Você

29-5-2007 20:06 a 20:45

Beatles – While my guitar

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