Caleidoscópio de Sabores

Sabor de acordar

parece o sabor de amar.

Quando você pensa que já sabe o gosto de tudo

sempre aparecem novos vapores.

Eu gostava de azeitona.

Encontrava tranquilidade em tomates.

Achava que nada poderia ser melhor,

até experimentar…

Mãe sempre conseguia colocar mágica naquilo que fazia.

Eu pensava que amizade parecia com pudim de num sei o quê.

Que os tropeços engraçados de uma amizade se pareciam àquela bala em pó de estralinho,

que um namoro de criança se parecia com guaraná.

Uma brincadeira de roda, amarelinha eram pirulitos de framboesa.

De repente, quando adolescente, pude entender a profundidade de um chocolate.

Esse era o sabor da felicidade. Nada poderia ser melhor.

 

Mas então, quando conheci sorvete, principalmente aqueles sorvetes de morango,

em casquinhas de cinema de matinê…

Um chá era canção de ninar mais predileta que eu tinha. Eu sonhava com anjos.

Enquanto mamãe amassava os ingredientes do pão de minuto,

seu amor diminuto estava em mim, em todo aquele aroma

adocicado da baunilha.

Nada mais sincero que uma baunilha.

Nos dias de infância tinha arroz doce, com a incrível intromissão da canela.

A janela aberta, com o vento sacudindo as abas da cortina,

o aroma do pêssego em calda de mamãe. Era um panelão imenso.

Quando passei um tempo com minhas nêsperas, enquanto eu as despia,

lembrava mamãe descascando os pêssegos.

Nunca pude entender os pêssegos.

E passava gritante a pamonha. Essa eu conheço de perto e de longa molenga data.

Mas, encontrei o amor, sabores mais ácidos, mais amargos, intensos. Sabores vermelhos.

Nem sei qual o descreve melhor.

Então, eu conversei com maçãs, a opinião delas era tenuemente adocicada.

Mas queria mesmo uma entrevista com a pimenta vermelha. Essa passava intensa e efêmera,

ardia e esquecia logo depois. O rocoto relleno era quase, mas não tanto.

Não podia traduzir o beijo.

Que temperatura era aquilo?

Então, conheci a cereja, mas ela era pequena e rápida.

Tive que esperar, sentir todos os aromas e vida se cozinhando em almoços e jantares desencontrados.

Por fim, achei a receita. Sim, aquilo era receita. Com principal e coadjuvante.

Contrastante sabor.

Mal pude esperar o natal de experimentar.

O aroma se levantava como alma dançante sobre o fogão,

A fervura era linda que se fazia esquecer a labuta.

Lá na geladeira o pudim alemão, carinhoso como cetim gelado nos dias de calor.

Mas a cor rubra da pele essa se intensificava na pele destemida de cada pera imersa naquela calda, vermelha intensa, com a consistência de calda antes de se formar uma geleia.

Aquelas peras em vinho sim, aquilo sim podia dizer profunda e verdadeiramente o sabor do beijo de amor.

Eu penso e sinto isso, cada vez me lembro e esse gosto invade minha pele, ela se aquece e se torna asas.

As paredes se abrasam, acendem em pequenos candelabros, inebriantes luzes de vinho tinto diluído em cor de groselha.

 

Mara Romaro

24/9/15 13:50

Quase perdi as palavras por três interrupções.

Nem sei que música. Segurei com unhas de felino atiçado e bravo para não perder esse fio de meada que queria escrever.

 

 

 

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