Carta ao Leitor  

Eu não conheço, mas minhas palavras podem te conhecer. Tantas vezes pensei em contar um pouco da minha vida mais real, mas já aviso, não sou boa com a realidade. Não gosto dela.

O dia amanheceu para eu lutar muito. Este dia era aniversário de casamento da minha avó. Há um ano venci um dos meus medos e criei este blog.

Meus medos me acompanham desde criança. Morei em uma casa grande, pois éramos uma família de doze filhos e eu a caçula. Havia uma praça em frente. Brinquei muito nela.

Nasci no verão. Não sei porque não aceitei de forma alguma a amamentação de minha mãe. Com um mês de vida tive uma desidratação e naquela época diversos médicos me “desenganaram”. Ou seja, desistiram de tentar me salvar. Minha mãe enfrentou isso com garra, tomou atitude de me hidratar com Citrosodine, me alimentou com colherinha de café para evitar os vômitos em jato e me salvou pela dedicação e persistência.

Eu não gostava de comer e constantemente era forçada a isso. Jogava as comidas pela janela e meu bife até viajou até Itatiba na capota do carro do meu cunhado. Gostava de tomate, pastel, pamonha, leite, limonada, melancia, azeitona e chocolate. Minha paixão por café veio depois.

Tinha intolerância a ki-suco e passei algumas noites vomitando a noite toda por isso.

Meus irmãos brincavam comigo, mas eu me sentia sempre oprimida. Chegava em casa, tímida, me esgueirando, dava um pulinho no canto da escrivaninha do meu pai, e todos esperando davam uma fragorosa vaia e riam bem alto.

Na minha infância sofri alguns incidentes abusivos, desde então sentia um mal estar, os medos passaram a me apavorar à noite. E se estendeu à minha adolescência. Minha solidão começou aí.

Tinha uma forte ligação com meu irmão Marcos, chego a lembrar de estar num berço azul, debruçando para olhar e ver o Marcos se esconder e aparecer de baixo do berço. Lembro de tomar uma mamadeira já bem velha com um rombo no bico e no dia que minha irmã e madrinha Jane me comprou uma caneca para trocar pela mamadeira.

Na infância me apavorava com meu pai andando nervoso e brigando de noite. Eu estremecia cada vez que ele passava na porta do meu quarto.

Demorei a me acostumar, porque ele vivia trabalhando em outras cidades, quando se aposentou voltou e implicou muito com os momentos que minha mãe tocava piano. Depois do dia de enormes trabalhos, lá pelas quatro ou cinco horas, ela sentava ao piano, eu no sofá cinza e ficava vidrada a ouvi-la tocar. Mas esse tempo acabou, ela parou de tocar.

Quando morava na casa nova, comecei a pintar a óleo, fiz um quadrinho, fundo azul e uma árvore seca e sem folhas em preto. Mas havia quem me perturbasse e eu desisti de pintar e passei a escrever. Eu me sentia segura no meu quarto, onde estudava, lia e escrevia todo dia. Gostava de ver filmes e sempre acompanhava minha mãe.

Minha mãe sempre me incentivava a vencer meus medos. Marcos sempre me incentivava, ele tinha uma alegria contagiante, chegava empolgado, tinha um entusiasmo por coisas novas, esportes, literatura, música, cinema, artes, teatro. E teve uma enorme importância para mim, porque sem dúvida foi quem mais me respeitou e acreditou na minha capacidade.

Na escola, fui aluna mediana, me destaquei em português e matemática. Melhorei na escola, mas era de poucos amigos. Namorei colegas da escola. Infelizmente dois desses meninos, tempo depois morreram, um de acidente e o outro afogamento por ter tido uma congestão. O seguinte foi o primeiro amor e a maior decepção amorosa.

Então, surgiu meu marido e pai dos meus três filhos (duas meninas e um menino, que já são adultos). Começamos sem compromisso e estamos juntos nessa jornada até agora, com um relacionamento que amadureceu muito. Eu tinha um gênio difícil e quando irritada minhas palavras eram farpas de fogo.

Minha professora de português queria muito que eu seguisse estudando letras, mas eu fui estudar análise de sistemas. Ela por vezes, fazia alguém ler minha redação, e dava aula sobre escrever levando em conta. Eu até me encolhia na cadeira. E sabe, as pessoas na escola, às vezes eram ruins. Fiz um trabalho sobre moradia de educação artística, desenho a carvão em papel pardo, com uma toca de bruxa no penhasco. O desenho desapareceu. Para não ficar sem nota, desenhei a mesma coisa de novo igualzinho. Acharam meu desenho rasgado e amassado atrás do lixo. Na maquete, deste trabalho, fiz uma casinha de arame com fitas e sianinhas penduradas.

Eu tinha como sonho ter filhos, ter minha casa com vista para Pedra Grande, publicar um livro. Tive os filhos e essa casa de frente para a montanha. Uma casa simples que desenhamos juntos eu e meu esposo, pintamos de verde (por isso a chamo de castra spes – que casa esperança).

Trabalhei muitos anos em São Paulo, e aos poucos São Paulo me massacrou. Seu estilo de vida, comportamento das pessoas de lá, falta de dinheiro, mas eu escrevia nas horas de almoço, na volta para casa.

E nessa época com os filhos grandes eu percebi que minha escrita se desenvolveu. Senti que meu caminho havia sido um erro. Era minha alma, desenhar e escrever.

Perdi dois irmãos. Deca e Marcos. Gostava demais deles. E tempos depois minha avó e minha mãe.

Nessa época, tive uma experiência infeliz de amizade que veio a me machucar profundamente, nessa fase durante o luto da minha mãe, eu deprimida e muitos se afastaram. Aliás, muitas pessoas se afastaram durante minha vida.  Esta experiência me desequilibrou. E até hoje me entristece e ajuda a me jogar em depressão. Eu que me descuide, que afundo na tristeza, sensação de inutilidade, falta das pessoas queridas, solidão, e o terror que é ser escritor sem público, arte no vácuo, me perguntava “prá que? Prá quem?”. Neste mundo editorial sacana, que publica celebridades, famosos, gente que nada tem a ver com escrita, e poucos escritores conseguem chegar a você, meu caro leitor.

Esta ferramenta de blog na internet criou outras possibilidades, mas hoje em dia, cada vez mais as pessoas leem menos. Quase se confinam nas sete palavras que é o que o cérebro registra.

Atualmente, encontro-me desempregada, ajudo meu esposo, escrevo, desenho quando consigo (raramente), luto para conseguir continuar escrevendo e compor um livro, com meus poemas e tenho projetos pela metade (vários) que gostaria de terminar mas não me sinto a altura. Recentemente achei meus textos uma porcaria. Senti-me desanimada e durante o ano passado, passei uns meses sem escrever.

Tentei me reanimar a duras penas, voltar à minha forma de criar, “colocar ideias para dormir” no que chamo de semi-inconsciente. Eu memorizava uma frase de três ou quatro palavras para repescar a ideia, dormia mentalizando a ideia, e passava o tempo elas se tornavam (nem sempre) inspirações e textos. Percebi que muitas coisas que escrevi e me perguntava “como que escrevi isso?” eram ideias que eu esquecia na cabeça.

Mas havia inspirações de momento que nem sempre eu consegui capturar em preto no branco. Muitas vezes, sob grande esforço desta memória que mais me prega peças, escrevi parte da inspiração, saiu diferente, mas algo ficou.

Vivo tentando serenidade, paz, boa relação com as pessoas, suportar a pobreza, fazer o que é possível, cuidar mais de mim.

Sempre tive esse lado esotérico, essa ligação com o desconhecido e também esse mundo simbólico em que minha alma vive. Simbolismo vem de longa data.

A literatura por ser esta arte difícil, de baixo reconhecimento, ignorada pela maioria das pessoas próximas, cria um isolamento, um sentimento difícil de explicar que atormenta quase todos escritores. É a arte sem público e tem que se acostumar a isso. A música é cheia de aplausos. Escultura e pintura têm exposição e prestígio. Cinema então chega a todos. Sem me alongar mais, todos os escritores prezam seus leitores e até tentam adivinhar o que eles pensam ou sentem lendo.

Por isso, eu leio outros escritores, prestigio seu trabalho, entendendo seu mundo, e que possuem forma diferente de ver o mundo, às vezes mais agradável, às vezes mais ríspida, mas arte é assim. Provoca a mente.

Pensem e duvidem de tudo o que leem.

O jornalismo tem sido muito manipulado e manipulador. Muitos escritores sobrevivem do jornalismo, mas a realidade é que não é possível sobreviver da Literatura. Muitos escritores se mataram, por diversos motivos, mas o financeiro também.

Eu tento sobreviver. Eu tento escrever. Eu tento vencer medos. Tento suportar as ausências. Tento vencer a depressão.  Tento dar o melhor e demonstrar amor aos meus filhos e marido, permitindo a expressão dos sentimentos, que na minha educação eram tão reprimidos.

É isso, não acaba o que tenho para contar, mas hoje é isso. Valorizo cada leitor e espero que leiam de fato, ao menos um dos textos. Abraços fraternos e eternos!! Beijo na testa.

Com carinho e cordialmente,

Mara Romaro

06/01/2017

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10 comentários

  1. Pingback: Carta ao leitor – MaraRomaro – LA REPÚBLICA DE LOS LIBROS
  2. PoetaPoemah · janeiro 10

    Mara!! Obrigado por compartilhar parte de sua existência… Estou muito feliz por encontrar pessoas que são reais… Estamos sempre caminhando rumo ao desconhecido.
    Continue escrevendo, pintando, compondo…
    Num país onde bola é mais valioso que um livro não podemos esperar muito.

    Obrigado mais um milhão de vezes!
    Bjos na testa !

    Curtido por 1 pessoa

  3. PoetaPoemah · janeiro 10

    Republicou isso em PoetaPoemahe comentado:
    Faço delas minhas palavras…

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  4. luis · janeiro 12

    Caraca, esse texto é um baita resumão heim?
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Vítor Costeira · janeiro 24

    Amiga Mara (permita-me que assim a trate , por favor… 🙂 ), li este seu texto, assim como outros de sua autoria. Li e apreciei a tela que as palavras deixaram pintada. Docemente pintada, em um estilo muito pessoal, como assim deve ser!
    Também escrevo, como sei que sabe, e acredito que a escrito seja a libertação daquele que nós prendemos interiormente, por razões próprias de cada um.
    Li, sim, e o que li é pura poesia, como eu entendo que seja! Emoções sentidas, água pura escorrendo da memória da vida! Sinto que sua mãe adoraria ler as suas palavras!
    Obrigado! Pela poesia e por fazer de nós, seus leitores, humildes testemunhas de uma Mulher completa! Agora e cada vez mais completa! A escrita também aqui ajuda!
    Não pare! Faz bem a todos! Também a nós!
    Votos de bom 2017!
    beijo na testa! (gostei da imagem) 🙂

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    • mararomaro · janeiro 24

      Muito, muito obrigada!!!! Sim, leitores amigos, dão razão e sentido nesta jornada da escrita, a imagem que sinto agora é do tórrido sol a queimar quando uma brisa fresca interrompe com um diferente respirar. Adorei! Abraços. E pode seguir no Facebook, terei maior alegria de tê-lo como amigo!

      Curtido por 1 pessoa

      • Vítor Costeira · janeiro 24

        Muito obrigado, pelo convite, Amiga Mara!
        Sim, também por lá estou e “irei ter” consigo! 🙂
        Até lá!

        Curtido por 1 pessoa

  6. jeronimooo · fevereiro 14

    Continue escrevendo, continue brilhando e acendendo estrelas! A poesia tem que continuar existindo, ainda que ela floreça apenas em nossos desertos… pois nunca sabemos que andarilho solitário passará por nós sentindo sede de alma, de beleza, de mistério!

    Curtido por 1 pessoa

    • mararomaro · fevereiro 14

      Obrigada!!! Sua literatura é muito legal, gosto muito. Faço questão de ler uma de cada vez, às vezes meu tempo é curto, mas leio. Abraço

      Curtido por 2 pessoas

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