Tempo de se preparar

Interrompi meu olhar quando percebi os ventos. Eles tremeram a porta. As roupas pareciam se curvar ao céu sugadas com violência. Percebi com estranheza os coqueiros ao fundo que eles curvavam suas folhagens para o lado. Apenas o cacho de coquinho parecia enfrentar corajosamente os ventos.

Uma intensa luz amarelada refletia um facho de sol nas partículas de poeira, mas o céu temível e negro, revolto junto com nosso olhar inseguro.

Roupas amontoadas na cadeira, freneticamente eu andava daqui ali, para guardar isso ou aquilo no rancho. Quantas folhas se curvavam que me fez temer pelo pinheiro.

De repente parecia que como marteladas, gotas pesadas começavam a bater, antecipadamente ao nosso sobreaviso.

Pus me adentro, enquanto por um momento apenas uma leva de chuva pesada chegou ruidosamente ao gramado crescido, o vento calou-se. Apenas o peso da água raivosa curvava as folhas curvas da palmeira e lhe arrancou a mais ressequida.  As romãs nem amadureceram e já estavam estragadas.

Enfim, naquela janela eu podia ver a tempestade dançar em ventos e pequenas revoadas brancas como se os pingos fossem pássaros. Havia splash enorme da água caindo das calhas e eu com meus pensamentos me reformulando para os dias seguintes e a enorme dificuldade que se aproxima.

Devo fazer dos meus dias o libertar dos pássaros, não esperar que coem meu café, que me abracem com sinceridade, ou que reconheçam minha expressão mais incalculável do olhar.

Não posso esperar que todo tempo passe tão calado, ou que as palavras me divirtam sem seriedade.

Preciso pintar as palavras e escrever melhor os desenhos, preciso mergulhar neles que nesse afogamento salvar meu íntimo.

Eu poderia molhar-me agora e dessa chuva, arrancar essa permanência. Os temores poderiam ser de álcool e evaporar. E se eu quiser posso ser melhor do que essa insônia ou essa nevralgia.

Não posso esperar que alguém venha consertar o quebrado, alinhar as curvas, decifrar meu desenho, satisfazer meu sonho e cozinhar minha comida. Eu preciso encontrar força que me deixe fazer mais sem tanta ilusão, sem pensar nas pessoas e seus anseios, traduzir esse emaranhado de plantas que nascem e morrem sem ter nascido.

Ainda que sozinha no meu espírito, quero caminhar o dia com essas dores mesmo, aproveitar a vista do morro, e percebo tanto. Tanto capto com meus sentidos que nunca consigo exprimir nas minhas obras e mesmo que eu pense delas serem tão insensatas, quero prosseguir sem destruí-las mais. Não mais.

A chuva parou seu ar destruidor em meu momento de olhar, a luz interrompida com o fim do dia caindo e o contraste se iniciando num silêncio impiedoso.

Estivemos por dado instante, agradecidos que fizéramos tudo antes e também por eu ficar ali alisando a barba dele por momentos sem tamanho, cada um com seu pensamento e com sua própria conversa.

E o jeito foi acender uma vela, comermos uma comida simples e tímida, ter esperança de amanhã. Quando a manhã de domingo, só nos coube tirar pragas e cortar a grama. Extenuados de nossa condição e concentrados naquele afazer, eu tentava fugir de qualquer conversa que nos levasse a reclamar. Descobri então flores da azálea asfixiadas das samambaias e quebra-pedra que lhes invadiu o espaço. Havia flores ocultas esquecidas e nunca vistas.

E depois de tudo, fui cuidar dos espinhos e feridas em minhas mãos. Assim foi mais um dia.

 

Mara Romaro

14/12/15 10:42

Música: Visitation, Opening – Carol movie Soundtrack

Minhas percepções da tempestade de sábado e cotidiano. Pensamentos.

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