Manifesto de Resistência da Literatura (minha humilde visão)

Manifesto de Resistência da Literatura

 

Eu, Mara, não sou ninguém, nada assim importante ou relevante. Apenas escrevo desde os sete anos.  Mas, nesta vida, em todos esses anos, vejo e percebo nas veias todas as dificuldades, que devem ser muito comuns a todos autores, escritores, poetas e poetisas, dramaturgos, jornalistas até.

Tem sido, desde sempre, incrivelmente difícil chegar a publicar os livros, receber o devido apoio a seus projetos, vencer o anonimato, vencer o público distante e não manifesto. E ser lido.

Outras artes contam com eventos de exposições, shows, apresentações, popularidade e a literatura é a solidão.

Pensando em tirar a literatura deste sarcófago, do conhecimento póstumo, trazer espaço na atualidade aos atuais, proponho algumas coisas mais abaixo.

Pensando na solidão, nas depressões comuns a escritores, questões até de pobreza, faço esta humilde reflexão, junto à comunidade que respeita a literatura, como preserva sua história, dá o sangue em nada em troca, engole em seco todas as ignoradas que recebe, inclusive dos seus.

Sim, também me afeto destes menosprezos e falta de espaço, e condições de sobrevivência, também fico no breu cada vez que se dá espaço aos já famosos, ou daqueles que nada tem a ver com a literatura e ocupam seus espaços.

Ainda que temos a internet, porém pouco se consegue sobreviver financeiramente da arte e conseguir se livrar do estigma de uma coisa sem importância, como se fosse um hobby, como se fizesse joguinho de palavras para as pessoas nem sequer pararem para ler, pensarem sobre o conteúdo.

A combater minha própria depressão, preocupo-me com todos escritores, em preservarmos a memória futura desta arte, não para os sarcófagos, mas para o respeito próprio e o respeito à cultura atual em tempo de viver.

Adoro os clássicos, mas pouco sei do que estão escrevendo atualmente, então, passei a dedicar meu tempo aos novos escritos e doei meus antigos livros para que outras pessoas pudessem ler.

Ainda , temos a mais difícil barreira… as pessoas estão parando de ler. Restam poucas e pouco deste hábito. Como se posts com frases feitas fossem em si suficientes. Não são.

 

Ações de preservação da literatura (e seus autores) e práticas de disseminação:

  1. Incentivar os projetos de outros escritores. Lendo por completo, comentando parte de conteúdo. Todo músico recebe aplausos, nós queremos opiniões, trechos que gostaram e porque gostaram.
  2. A cada texto, poema, conto, ensaio publicado na internet, tenha lido ao menos cinco de outros escritores, que não sejam os grandes já conhecidos.
  3. Ao comprar livros, a cada três livros, prefira dois de autores desconhecidos.
  4. Apoie emocionalmente e psicologicamente outros autores. Preservaremos vidas e literaturas futuras.
  5. Infelizmente ainda impera “santo de casa não faz milagre”, mas quebrar este paradigma requer um esforço sobre-humano. É comum que nossos próximos não consigam dar a devida atenção, apoio, respeito, nos momentos e durante as fases que mais precisamos acreditar. Muitos não irão nos enxergar como escritores. É importante que se encontre ouvidos caridosos que nos ouça. Então, o apoio mútuo entre escritores precisa ser uma Rede de Resistência (tal qual aquela na França…) para vencer uma ‘guerra’ de desânimo e crises internas que enfraqueçam a literatura.
  6. Está se sentindo desta ou aquela forma, de empolgado a estraçalhado: Escreva.
  7. Organize e preserve sua obra. Sim, está criando uma obra, então, precisa de sistemáticos backups, de acomodar todos seus manuscritos em um local reunindo-os. Gaste este tempo, evitará insanidade.
  8. Crie um registro de ideias, um caderno, arquivo, esboço, como quiser. Mas guarde. Reavalie.
  9. Estabeleça projetos futuros e os planeje. É motivador.
  10. Façamos uma nova rede de amigos escritores, e devemos encontrar um (ou uns) que possam ser nossos Anjos da Guarda da Literatura. Quando tudo parecer perdido e devastado, possamos falar e encontrar quem nos ampare e que saiba do que estamos falando.
  11. Não presenteie suas obras. As pessoas devem adquiri-las para valorizar o trabalho.
  12. Para as iniciativas de baixa tiragem, sugira nas dedicatórias o compartilhamento da obra com outros leitores.
  13. Façamos Sarais em nossas casas. Um chá e café, bolachinhas, nada de grandes produções. Assim, as pessoas começarão parar para ler e ouvir literatura.

#ApoieLiteratura #VamosLer #Leia poesia #EnviecomentariosaosEscritores #NãoCurtaOQueNãoLeu #SoudaResistenciadaLiteratura

 

Mara Romaro

24/02/2017

Leia-me

Leia-me

 

 

Teia-me a aranha

Contém-me em suas mordaças

Folheiam-me bolores

Devoram-me traças

 

Leia-me cada letra

Perca-se nas folhas decapitadas

Palavre-se além de cinco

Cílios que se fossilizam em páginas

 

Leia-me Tateia-me

 

Letras em cardumes

Pensamentos em negrumes

Incompreenda-me mal

Saboreie deste sal

Frases varridas do quintal

Salivas gotejadas deste animal

 

Pagine-se no fulgor de imagens

Formule-se mensagens

Dobre-as em aviões de papel

Lance-as nos seus céus

 

Incendeia-me de livros velhos esquecidos

Longos romances interrompidos

Beijos estáticos nas folhas amareladas

Cheira-me papel

Vire pátina

Esqueça-me

Palavras borboleteiam

Desvencilham-se teias

Vagam ideias em veias

Nos olhos que folheiam

 

Leia-me por inteiro

em pedacinhos picados de papel

Leia-me nas folhas amassadas

Leia-me no lixo, no nicho

tocando com seu ouvido

Leia-me em cinzas que espalhe do alto

_                                       da torre Eiffel

 

Leia-me decompondo palavras

em letras por sua saliva

Destila-me venenos em suas salinas

Rasgue-me em páginas passadas

Que o esquecimento vesti-la-á de lembranças

Que as palavras brotarão da cabeça em tranças

 

Mara Romaro

23/02/2017 12:05H

 

O arquivo leia-me, costumava vir em diversos softwares, contendo instruções de instalação e uso.

 

Fim do começo

Fim do começo

 

Foi depois do antes

que percebi o fim do começo,

daquele vazio infinito,

parecia que não tinha havido nada,

não pude saber os abismos daquela horizontal,

pois não havia ponto de fuga em meu amanhã.

Das incoerências, a maior era estar viva,

dos mistérios o menor era permanecer viva.

A angústia maior era a pequena dúvida,

a esperança me impelia a continuar com qualquer coisa,

a insistência dos erros me barrava os novos caminhos,

o olhar quebrava a coragem de saber as respostas, não haverá ânimo para se dar passos sem saber a verdade. Em quantos buracos atolarei ainda meu pé?

No escuro ainda procurará estrelas,

no claro procurará nuvens.

Não restará outra coisa a não ser procurar.

Não haverá mapas, nem guias, nem caminhos, nem pé, nem cabeça.

Não haverá eu, nem ninguém, nem nada para segurar, a não ser uma enorme agonia que arrebentará o peito, e nem lágrimas caberão em seu enorme vazio.

Não existirá.

Foi porque antes do depois não coube amor no infinito mesquinho humano.

 

Mara Monteiro da Costa

Verso da Folha                                        Fim do começo

[05-09-1986/ 20:40H]

Quantas inquietações! Não sei como profetizei minha vida; somente agora posso compreender o que escrevi.

Das antigas páginas do diário “Verbo ad Verbum”.

 

Vidraças

Estou exausta

Limpei vidraças

Os batentes

Combatentes

Retirei o pó

de ouro do sol

Gotículas secas

Restos de aranhas

Colmeias

Areias

 

Limpei as vidraças

a expirar meu cansaço

No pano fuligens

Restolhos de nevoeiro

Nuvens

Limpei

Tanto que me deu dó

meus dedos ficaram pelas frestas

Suor desceu pela testa

Unhas foram engolidas nas minhas estranhas

Passei a olhar

sem véu

sem acúmulos

sem cúmulos

nimbus

Sem sinos

Sem sinas

Na árvore, lá estavam

eles sacudindo-se

pavoneando-se

dançando verde

Eu escarrapachada

Exausta

 

Queria verter minhas coisas

Queria clarear o lamacento

Queria comer gelatina de limão

com as mãos

 

Exausta. Ai, me abraça,

me acalma

A luz que entra rasga minha parede

A balançar sozinha, a minha rede

 

Eu lá. Parada. Esperando ainda.

Limpei as vidraças, quem sabe

vens ouvir junto esta música

Voar em dispersão

Esconder dentro de nuvens

Não vens

 

Limpei vidraças, sem graças

 

Estava um calor

Dois calores

Três calores

Quatro amores

Cinco amores

Seis amores

Sete pavores

Eu não sei mais contar

Quantos vidros, vitrais,

cacos deixam de me enevoar

Posso abrir a porta

e deixar o ar entrar

 

Limpei as janelas

vens e tens este momento

a pintar sua retina

sua Iris, seu nervo

seu estar

cristalino

 

Mara Romaro

16/02/2017 tarde

No mezanino, com Ártemis.

Agora me restam os tetos.

 

Não

Não

 

Não se esquece daquilo que enternece

Não sei nada o que vem a passar

Água e Ar desaparecem em

_                                                 mim

Vida linda que não se pode

 

Distância cálida

_                             cala

Não se larga ao vazio

Pensamento no frio

_                                    Rio

Deságua n’alma

o que não se pode Viver

 

Enternece aquilo que não se vai esquecer

Guardam-se

_                      mãos pequenas a não perder

 

Não é o que não existe o que não se pode Ver

 

Não é                               Foi sendo acontecendo

 

Não

Chuvas incontáveis

Não se depende daquilo que independe

Não está                                                 Está

Esta

Miragem maquiagem dos meus olhos

Não viver                                             Viver

Conhecer                                     Acontecer

Não se acomete aquilo

que não estava para              acontecer

Acontece                                              Não

Abandono o não

_                             acontece o lembrar              a esquecer

Não aconteceu                        Está acontecendo

Não se perde o que não se deve                              perder

O que se abandona se arruína ao tempo

Não foi

 

Foi uma raiz cancerígena

entranhada nas razões misteriosas

 

Não se esquece

_                           nem mesmo não lembrando

Não se está perdido o que se busca

_           eternamente no entardecer

_             ternamente no enternecer

_           entendimento no acontecer

 

Não

Não se esquece daquilo que enternece

Não se perde parte do próprio coração

Não se vive com um ventrículo

 

Versículos que nada podem a eternidade

 

do não

 

Mara Romaro

14/02/2017 14:33

Cartas Proibidas – ao não

Música:

SOS d’un terrien