Poema Perdido

Tudo ao redor são neblinas
Um correr desmazelado de meninas
Sol abre nuvens como se escolhesse feijão
Peneira que joga o café para cima
Pingos de ouro caem e tecem olhares
O som ritmado dos teares
As mãos chuleiam as colchas
Borras de café atiradas nos canteiros
Aproxima-se um olhar matreiro
De tão longe, com brilhos de lua
Usando um chapéu de abas
nele uma jardineira de azáleas
enquanto eu sacudo a toalha e suas migalhas
Uma fileira de formigas tem um andar interrompido
porque se saúdam
Olhos fumegantes adocicados em xícaras
Biscoitos de polvilho na terrina
Os olhares não dobram esquinas
O senhor de mãos grossas como cordas
Tira o chapéu de ninhos de filhotes
Meus braços apoiam uma moringa de água
Vejo que permanecem poucos tufos do gramado
Ajeito o cabelo despenteado
Para sorrir um convite ao café
Senhor veste um casaco mel
Neste Março libélulas duelam com o céu
Já é caída a folha como
um tacho de doce de leite
Cheiros de vida perfumam o vapor
Mas antes que sentamos à mesa
fazemos um gesto de coração
que bate contra coração
Um velho aperto que nos certifique
que afogamos o tempo passado
como um cardeal cordial presente
Do canto da boca brilha um pequeno escorrido
de salivas que voam dos risos
como um resto de orvalho pinga
da telha emudecida

Uma orquídea se emaranhou
por entre os galhos
da amoreira adormecida
Há um cacho amarelo
pendendo e dançando
como um beijo de sol
num morno reencontro
não acontecido

Mara Romaro

28/03/2017 11:24H

 

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Café amigo

20 de Março de 2017. 14:34.

Convido a entrar. Pode sentar. Diga como está. Pode deixar a bolsa em qualquer lugar, não repare nossa casa. Aqui moramos sem grandes alazões, sem porteiras, sem sombras de álamos, sem pássaros em gaiolas.

Ainda sobram poucas flores neste jardim envelhecido, tantos anos com minha sombra de esperança vencida pelas estações. Andei atordoada de tanta coisa, andei enjoada de virar
de um lado para o outro na noite, nesses dias que vem se somando, após convites amigos.

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Carta ao Vento II

Enquanto as primaveras ainda sorriam para mim, com seus dentes purpúreos, brancos ou pêssego; eu sentia o vento das folhas com cheiro de musgo, com céu que levanta para eu ir embora.

Eu ainda tinha que ir e você a arrastar as folhas pautadas por escrever, que estavam sobre a escrivaninha da minha mente.

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