Mergulho em águas rasas

Mergulho em águas rasas

 

Nem bem amanhecia

eu tinha algo nas mãos

um retrato que desfazia

um olho d’água

espelho de estranhas imagens

um lago de cachoeira

ladeado de tecido verde

musicado de um cricrilar ininterrupto

 

Eu podia mergulhar nua

uma água fresca e não fria

veste-me como camisas xadrez vermelhas

Nado as ondas da expressão facial

nado um lago de mel pintado em lábios

nado arroios castanhos de seda

O vento sacode em ondas amorfas

alcanço lago branco em leite

piscante em brilho reluzente

Continuo a nadar a pele incandescente

Marcada e tatuada de sol nascente

Nado afastando as folhagens

de costelas de Adão

Nado para o vale sagrado

atravesso o poço umbilical

e chego à margem doce

dominical

Nado do Quadríceps à  Fáscia Lata

Perco-me em Grácil

Afogo-me nos joelhos de Vitórias Régias

Por fim, renasço em meu novo dia

Ao ter chegado à margem oposta

Tocando Tálus e Calcâneo

Passei através

enquanto

a luz do dia nascia

e sua água amainada

ainda dormia

imaterial diante de mim

Envolvendo a íntegra do meu jardim

 

Mara Romaro

26/04/2017 10:10

O que é?

O que é?

 

Ouço passos

cravados em meu peito

Ouço cusparadas ao lancil

Barcos navegam ruas de anil

um cobertor esconde

adormecido esquecido

Alguém diz – Espere

Ninguém responde

Um jardim secreto em fresta

Flor rameira em degrau de bar

Bitucas apagadas em meu nariz

A eterna piada do tropeçar

Um gato sentado ao meio-fio

Alguém chuta a pedra para golear

Apenas eu sinto a pedrada por um triz

Vassoura me espana, mas o pior

é que o cão me caga

no entanto vem a chuva

que me lava

 

Mara Romaro

25/04/2017 17:37

Pássaros

Pássaros

 

Há um intenso entender no silêncio

Mas não tanto como o som do ar liberto

Chilrear de bicos livres

Voos possíveis e horizontes escancarados

 

Há um perfume imenso no broto

Um sabor picante sem ser insosso

Mas não tanto como as palavras livres

Os encontros permitidos

Os sonhos batalhados

O suor do ofício amado

 

Há uma luz intensa do sol

Curvar das flores à luz

Há madrugadas úmidas e descansos

Mas não tanto como o voar dos gansos

Seu ganido tremeluzente sobre o lago

Seu voar plácido e desapegado

 

Há o saciar da fome

sabor de doces sobremesas

uma golada de café quente

Mas não tanto como os sorrisos livres

o amor renascido

um afago amigo

uma dor repartida

um abraço apertado

 

Há dias e dias, noites e estrelas

Nenhuma luz pode ser medida

Mas não tanto, quanto o amor

a amizade

e a liberdade

e o desengaiolar

desses lindos pássaros sentidos

existidos

no voo engolidor de distâncias

abrandador de diferenças

 

Há pássaros

Mas não tanto como os livres

Solte seus pássaros enternecidos

 

Mara Romaro

24/04/2017 12:23

Era para ser uma frase…

 

Carta do Aquém

Carta do Aquém

 

Segue-se tempo e horas,

anos de buscas senhoras,

riso a alimentar a fome

o sol a pino

tudo foi se proibindo

faltava centavos às contas

Tinha que sorrir com aquisições

enquanto o alicate cortava meu fornecimento

Foram acontecimentos

Pessoas tem ojeriza

E não é diferente para os tantos

que vivem submundos

subalternas situações de impropriedade

Pão de ontem

Torrada de anteontem

Cano que vaza e contas impagáveis

Roupas de outrem. Dívidas a quem?

Parcelas, vielas, becos sem saída.

Luzes se apagam ao fim do ato do teatro

Eu, você ou ela? Quem vai comer?

Guarde um pouco para depois

Sonhos com dentes, comprar uma pasta de dente,

Tratar um canal.

Sonho com perseguição, pessoas da inquisição.

Eu trabalho. Todo dia. Muitas vezes à noite.

Sempre devia ser isso. Devia me pagar os pães.

Não paga. Acham-me inútil.

Sigo o que decido, honestamente.

Todos os preços que paguei e sacrifícios foram meus.

Esqueça o que pensa de mim com os seus.

Sonho comprar meus próprios remédios. Eu que fiz tanto.

Deixei as análises no tempo passado,

não permiti esse seu eterno gerúndio de cogitações da minha vida.

Eu honro-me. Eu dignifico o que faço, sem preço, sem paga, sem indenização.

Escolhas são minhas. Escolhas teu caminho.

Aquém de tudo, há um enraizar complexo

como manguezais

com lodo até o talo,

por onde eu posso caminhar.

Tenho ferimentos físicos e ilusórios. Tenho ferimentos aparentes

e profundos.

Sigo aquém do que queria.

Gostaria de não chacoalhar hoje minha dor irradiada sobre o banco da moto resfriada em chuva. Queria esquecer os atoleiros.

Queria esquecer quem nega carona em tais circunstâncias.

Queria só um prato de macarronada ao sugo.

E depois de tanto tempo, as coisas mudam, as pessoas não entendem aquém.

Não permito mais discutir sobre meu trabalho ou questioná-lo.

Para estas pessoas indico o próximo balcão de informações.

Hoje não vai dar para pagar. Quiçá amanhã…

 

Mara Romaro

18/04/2017 14H

 

Aquém: – na parte de cá; neste lado, deste lado.

Sangre

Sangre

 

Rios vermelhos

Orvalha-me ferimento

Transpiro vermelho

Corre veias

Corre rios

Hematoma-me

Sangra

Corrente sanguínea

Pulsa tensão

Sangue doador

doa dor

Co-á-gu-los

Co-gu-me-los

Tentáculos benignos

Rios de fígado

Biles de contrastes

Corpos estranhos

suspensos em guindastes

Suor Sangra

Sangre-me e só

então se pronuncie

Geleias framboesas

Mão que aperta

em si

em seu rubor

Pulso inerte

veias negras

Despedaçar da noite

em pedaços de bolo

confeitado de membranas

ovários mortos

groselha aguada

sanguinolenta

Vida lenta

Rios vermelhos

Risos corados

em anêmica vida

Sangre-me

depois pode

dizer qualquer

coisa em

caneta vermelha

 

Entre laudos e danos

Láudano a dor

Esqueça-me Dor

Trombo à direita

Falópios podadas à esquerda

Sangre-me esta dor que

é só minha

Não procure

as veias com sua agulha

Leia as Plaquetas

Nelas se diz

Sangue Tipo O

Sangre-me sou

mais um

pedaço de carne

Putrefata

como todas as mãos

e os nãos

 

Sangra

Coagula

Coaduna

meu viver

 

Mara Romaro

18/04/2017 13H

Não me entenda mal, faço blasfêmias propositais para o idioma, transformo em verbo o hematoma e não é diferente para o Sangre-me, pode subentender (que eu) sangre (em mim)  e sangre (ele)( a mim, em mim, eu) – não haveria como aglutinar todos os sentidos que quis nas conjugações então eu as perverti. A intenção é a eloquência com o soar esquisito. De qualquer forma, justifica-se mas pode ser erro. Sim, mesmo assim fica na sua cabeça.

Pelos úteros condenados de uma enormidade de mulheres como se isso fosse parte da vida, algo corriqueiro, tão corriqueiro como capar a virilidade, não parece normal? As mulheres são sempre convidadas a se calar e aceitar placidamente, como se isso não as mutilasse.