Vinho Branco em Monsaraz e Noite Alentejo

Vinho Branco em Monsaraz

 

Estava a pensar nas safras, nas lavras e nas terras que quase nos consome.

Com uma emoção tomada em minha garganta, eu reli as cartas das uvas que escrevi – a mim, a ti, a ela.

Penso nas paisagens além, onde me perdi, pensei em ti.

Olhava em torno desejando um derradeiro reencontro como se tivéssemos nos prometido quando jovens, retomarmos nossas mãos, nossas bocas e em um lugar replantarmos nossa casta, deixarmos herdades aos nossos filhos com folhas verdes, diversas barricas arrumadas em caves.

Eu sentei imaginando nossa antiga casa, nos sonhos que tivéramos pensando em fugir para a vida, a encontrar o céu que prometemos observar em uma abertura no nosso teto, que nunca foi possível. O tempo passou, os céus giraram nem tão devagar.

Neste separar sinto em mim a busca, quero então mergulhar. Céu profundo e noite de cetim, nas terras ancestrais, nas aldeias de mim.

Viver o ar enfumaçado do fogo de lenha, cozer o pão que sovei minhas sinas.

Olhar dentro do braseiro, sozinha em casas seculares de pedra, seja ela em cercanias, em quintas ou na cidade de Marfim.

Eu quero colher palavras, novo pronunciar, novo balbuciar, tu estarás em mim.

Caminhando, viajante de comboios, por sobre morros e colinas, buscarei encontrar.

Colunata romana erigida e persistida.

Ruas calçadas a suor. Paredes caiadas de nuvem. Dormirei em estalagem antiga, com dormentes pintados de azul. Janelas brancas.

Trilhos de trens, apitos que me estremeçam pela manhã.

Uma xícara de café brasileiro – disto não abrirei mão, tostas emplastadas de compotas feitas à mão.

Andanças e lembranças. Anciãs tecelãs.

Vou me perder nas estradas de vinhas, chegar a adegas nas paragens do sul, vou escutar como é o piado dos Alcaravões e Cartachos, sentada à beira de barragens.

Descerei ao litoral a ver as vinhas de ares marítimos, vinhos frescos e longevos de herdade d’ajuda.

Busco as profundezas do céu infinito, além dos meus sussurrares, longe das minhas ruínas, da minha vida amargada pelas perdas.

Vou comer todo esse verde de campinas e vinhas, vou tornar meu sangue tinto de casta Aragonez.

Vou me escondendo em cada nova adega, me perdendo de mim e meus antigos paladares das adegas que perdemos, das vinhas secas e suas raízes.

Dormirei em tulhas abandonadas, dormirei meus sonhos, dormirei as saudades do sol de casa, de seu morno acordar. Dormirei em garrafas, sonharei com olarias onde estaria pintando cerâmicas diferentes das marajoaras que conheci.

Seguirei caminho de vida. Uma peregrinação perdida, em igrejinhas, capelas, conventos, santos de todos os meus dias. Esvaziarei do gosto aflito e encontrarei o vinho perfeito de Marfim.

Água em meus pés, frescor luso, ar ingênuo dos lugares que nunca vi.

Por fim quando quis me ir, para reencontrar-te além-mar, meu íntimo dizia isso ser impossível.

Tudo que escrevi e contei, tão difícil, eu escolhi o lugar do céu, dos vinhos, da secular tranquilidade, das estrelas a caírem sobre mim.

Encontrei em Reguengos de Monsaraz os monolíticos lugares antigos e seculares povos que ali se encontraram sob este mesmo céu.

Decidi que ia ali tomar os vinhos proibidos envasados em garrafas cerâmicas, inebriar na noite, encontrada em mim e perdida de ti.

Vagando planícies alentejanas, minha vida, minha busca de paz, se fez em solidão na noite nos monólitos de Cromeleques do Xerez, a respirar o ar dos mesmos que ali estiveram seis mil anos atrás.

Enquanto caminhar por entre os menires, certamente lembrarei os céus que mostraste para mim, colherei esperanças nas uvas crianças. Sentirei todos os amores impregnados em ti.

Esperarei que o novo dia nasça com os que amo perto de mim, nestes sonhos nas terras do Alentejo, nos caminhos de Évora, Portalegre e Reguengos do Monsaraz.

Percebo que nem tenho torras, nem café e o céu continua escondido por aqui, enquanto as palavras Moscatel me embebedavam de desejo.

 

 

Noite Alentejo

 

Sob o céu escuro de Monsaraz

As profundezas da minha procura

ou de minha busca de paz

 

Encontro um vulto

Perdida em monolíticas planícies

Rosto de sombra

Iluminado dos reflexos de uma nebulosa

 

Olhos de frutos das Vinhas

Brilhos da vinha

Vinha a mim

Boca tinta

Vinho em mim

Língua com aspereza de Mosto

de gosto,

perdida de espírito de carvalho

Vinha de mim

mãos que colhiam cachos de pensamentos

espremiam sentimentos perenes

Além deste viver

Além deste lago

Além dos rios e longas planícies

Muito além beijo

Além desejo

 

Beijos mornos de pães

Amor do moldar do barro

nas cinturas de argila

A noite acontece

Tece em lanifício

as cores dos vinhos

Bagaceiras de magnitude

Vasquinho adocicado

 

As estrelas chovem

sobre mim

sobre ti

Em teus olhos guardo

vejo além vejo

o beijo também

Olhos azeitados de oliva

Olhos frutados de uvas verdes

Castas Arinto

Vinhos brancos e tintos

Juntos brindamos à noite

à profundeza do céu enfim

tão longe das nossas vidas comuns

unimos amores

neste reencontro

desse desejo

 

Mara Romaro

27/04/2017 13:19

{ Estes dois textos – são um dueto em continuação-  foram descartados por mim no livro 005, mas são parte das cartas das uvas. Dueto composto para Do Mosto à Palavra da editora Chiado, os textos não venceram mas foram selecionados para o livro Do Mosto à Palavra- Vol I. }

 

 

 

 

 

Parafinas da Claridade dos céus azuis

Parafinas da Claridade dos céus azuis

 

Continuei

Não entendo como

Sem um sorriso distante

Um céu azul claro

Feito de fragmentos madrepérolas

Continuei

navegando em barcos brancos

olhar de uma flecha de alcance

não sei como consigo

perante os abismos

meu coração em sismos

Sonhos invadidos de presença ausente

como um querido ente

a dizer enigmáticas ilusões

Continuei

com solas feridas dos pés em dormência

com a sensação da sua existência

chovendo pólens de frutificações

No ar parado há um morno

acobertar a acordar-me do sonho

de viver você

de amar o quê

um significado soldado triunfante

espírito sobrevivente

ao asfixiar de emoções

Continuei

meu andar dolorido

meu queixo caído

com olhos diluídos

De uma sensação maior

a de voar pelos ares

cuspida por um vulcão

Continuei

ferida e querida

no seu olhar confinado

em condenação

Minha vida respira

pela polinização

nas abelhas

na dor

Continuei

erguida, sentida

dos gestos do golpe de ar

dos gestos da alma incontida

do amor que veste

que me cura

em cada noite dormida

 

Continuei vendo o movimento

o adernar de pássaros

a desenhar nuvens de bordados

rendas brancas tecidas no orvalho

de mãos dançarinas

a me iluminar em lamparinas

Quanta saudade

de suas

Campinas

 

Mara Romaro

29/5/2017 16:04

Música: Ryuichi Sakamoto – Affirming

– Sinto sempre comigo o que é antigo.

Tenho que falar de Julieta de Almodóvar e Alice Munro

Tenho que falar de Julieta de Almodóvar e Alice Munro

 

Por sorte sentei-me a ver este filme desde a primeira cena, aquela cena já me mostrou a excelência da fotografia, cada quadro um retrato, uma composição artística elaborada desde o contraste da roupa mediante o ambiente. Percebe-se que o ambiente não é envolto em desfocar, justamente cada quadro, cada objeto da cena compõe beleza e austeridade da cena.

Não quero adiantar nada sobre enredo, aliás baseado no livro de Alice Munro, autora premiada, “Destino”, “Pronto” y “Silêncio”; que se baseia nos relatos de Julieta.

Enquanto assistia, um crescente suspense se movia para minha direção, as cores, as expressões dos atores, a imersão em sentimento cobriu-me por completo, como se eu pertencesse a tudo aquilo.

Senti-me completamente a Julieta começando a escrever sua estória, repleta de sentimento, de algo profundo e impactante.

Poucos filmes posso dizer – impactantes. Este é um. O melhor que vi recentemente.

Por ter sido cuidadoso na elaboração do script, sem perder o tom literário, completando-se na fotografia e locações primorosas.

O elenco foi maravilhoso, todas as cenas são reais, expressões de veracidade para mostrar a dúvida, a ânsia, a paixão, o amor, relações familiares, ar de reprovação, amor maduro, amizade, ruptura, desolação, consternação, e muitos outros sentimentos. Os atores foram incríveis encarnados nos papéis, sem usarem expressões cacoetes de escolas de teatro, uma naturalidade incrível.

Para o design chamo atenção, é obra de arte genial, tudo exatamente pensado, do ângulo, dos retratos, figurino maravilhoso, do quase psicodelismo e cores concedendo incrível equilíbrio no desenrolar, tudo muito bem concebido a dar-nos a sensação de imersão em um mundo sentimental.

Toca-me demais a temática, sinto-me dentro, mas de forma invertida, ademais conheço pessoas a viverem algo muito muito similar. É um tema muito importante para não ter sido escrito, e por estar tão próximo, acho que me reviveu coisas. Julieta escrevendo, nossa, fiquei arrepiada, como se fosse eu escrevendo recentemente meu livro.

Há uma beleza indescritível ao mostrar o amor e a feminilidade da mulher de cinquenta anos. Incrivelmente mostrada desde a alegria até sua consternação mais devastadora. Uma cena de sexo de imagem refletida muito intensa.

Locação da casa beira-mar é de precisão absoluta, sem ser uma casa caiada, ela contrasta as flores do canteiro, com mar ao fundo.

Suas janelas são molduras da intensidade dos sentimentos e viver.

É preciso viver Julieta de Almodóvar e depois disso, estou ávida a ler o livro de Alice Munro.

Logo no início mostra-se álbum de Ryuichi Sakamoto, este incrível compositor, cuja música do álbum de 2009, confere perfeito deslizar dos sentimentos, deslizar da angústia e do suspense, e cores de Almodóvar.

 

Mara Romaro

29/05/2017

Diadema

 

 

O que guardo no coração

isso lá é comigo

Se faço dele um abrigo

O amplo olhar

engole o frio

Pinta o pôr-do-sol antigo

Gaivotas caladas

em sobrevoo

O que guardo comigo

é de ti algum vazio

o desapercebido

o saber esquecido

O que sinto é meu dilema

impróprio e doado

Meu guardado problema

com brilhos de diadema

Frescor silvestre

Deitar anoitecer

Aconteça tudo o que for

Está costurada esta dor

no mato cresce sem permissão

amarela flor

O que guardo no coração

Tem a força de uma mão

cúmplice que semeou

o amor

 

Mara Romaro

23/05/2017 13:49

Música: Madredeus – Haja o que houver

Diário particular da escritora – em 17 de maio

Diário particular da escritora – em 17 de maio

 

O andar da carruagem está sempre a me lembrar, que mal nos curamos de algo, já leva outra bofetada.

Quando finalmente arrumei meu cantinho, meus momentos de sossego, a leitura de um livro que eu não conseguia ler, o recomeçar do desenho, os projetos adiados e interrompidos.

Não sei como me movi, como tive mão destra, sei só que me orgulho que escrevi, noites ainda do verão, dias que não dormi.

A conta do sol não paguei, então desfruto das cores como matéria roubada, ar que inspiro sem asma, e segui meus dias do último verão.

Apesar de sozinha, alegrava-me um bolo quentinho, um chá, uma paciência. Eu via o ar exasperado no rosto, mas eu senti que a calma me amparava. Não podia ficar sem ela.

Eu escrevi, foram dois projetos diferentes, criados e recriados, e quando a ideia final me vestiu, senti que assim devia seguir. E logicamente senti um temor sobre como seria percebido, como as pessoas analisariam o teor. No fim, entre os livros que me propus ler como amplitude, analisando pequenos trechos, todos completamente diversos, que me instigassem, me ajudassem na minha cultura pessoal. Um deles me mostrou o quanto eu devia arriscar-me ao erro, e outro me mostrou o sucesso da simplicidade, outro a beleza musical da complexidade das frases… Eu tão pequena diante disso entendi que devia seguir em frente, no meu propósito e na minha própria estética.

Na verdade, as interpretações se avolumam em cursos de rios inimagináveis e nada que se faça pode conter qualquer censura, a senzala mental, os costumes e a falta de visão de todos os elementos que eu incluí nas minhas jornadas.

E cada momento de criação, fosse ele em meu mezanino, aqui no escritório, em minha cama, com caneta, lápis, fundo musical ou ruídos e intromissões, era um grande sangrar completamente diferente de tudo que eu experimentara escrevendo e desenhando, desenhando e escrevendo, ou desenhando palavras por último. Tudo possuía um motivo, um elemento concreto, uma percepção, um ensejo. E em alguns tempos eu relia, corrigia por um tempo, recorrigia, e relia a mim mesma nessas duas obras. No final da segunda, eu sentia uma sensação tão estranha, talvez meus amigos escritores pudessem me compreender, ou não, porque eu até relatei, li e chorei. Por inúmeras vezes, a mesma coisa ocorreu e eu sei o tanto duro que foi encarar algumas passagens. Há nelas verdade, razão, lembrança, loucura, nada, tudo? E sob o aspecto do escrito, da literatura, eu senti feliz por construir algo com o melhor de mim, com algo mais intenso que eu já possa ter experimentado.

Quando isso terminou, ficou o vácuo, um cansaço intenso mental, uma sensação de impotência e a sensação que não mais poderia fazer algo assim. Como se fosse a última vez, e eu voltara a ser abóbora, escrevendo alguns poemas e escritos, sem tanto encanto ou sentido.

Por um tempo grande me senti descontente e infeliz por sentir aquele conteúdo cerrado em um mundo fechado, uma caixa selada, como se fosse impossível vê-los se materializar em papel e livro para chegar às pessoas. Senti-me muda.

Pensei se daqui um pouco eu encarasse tudo que escrevi algo ruim e descartável…

Como as pessoas me enxergariam depois…

Achando defeitos aqui e ali. Passando essa ressaca literária.

Em meus dias, me livrei corajosamente dos medicamentos e me senti bem. Agora eu sinto, sinto as emoções sem mordaças e estou nessa atenção constante para vencer hoje e amanhã.

Semana passada fui bater na porta da minha amiga de infância, e conversar um pouco de tudo, rir e distensionar, pensar e trocar as ideias. Foi muito bom, recompensador, ao invés das falações de quem não tem a menor sensibilidade com minha vida, com meu esforço, com minhas privações, todo sacrifício que já trilhei. Então, alguns diálogos eu interrompi, não vou permitir esse aborrecimento sem fim agora que estou me levantando e vivendo.

Se eu escrevo, não é diversão ou terapia, não é joguinho de palavras, expressão pura e simples. Eu escrevo há muito tempo, sendo que grande parte eu não pus no papel, porque era analista de sistemas para pagar minhas continhas como todo mundo. Mas, entretanto, todavia as circunstâncias me fizeram escrava de dívidas, escrava do tempo arrancado exageradamente da minha vida pessoal como uma draga, um buraco negro, levando junto minha saúde.

Enquanto eu – alguns anos atrás – vagava de atendimento médico em atendimento médico, ‘companheiros’ do trabalho teciam as mais incríveis teorias sobre uma suposta férias que eu tirara, enquanto eu estava internada no hospital com uma dor aguda, tomando dezenas de injeções e fazendo um monte de exames. Esse foi o ‘reconhecimento’ por anos de trabalho honesto e dedicação, e isso é só uma das decepções e situações que vivi. Eu flagrei essas pessoas conversando ao ir tomar café no escritório no dia do meu aniversário. Eu deixei essa vida de analista para trás, vivo com o que tenho agora, não me interessa o que as pessoas acham ou deixam de achar.

Das minhas contas, cirurgias, tempo de trânsito amargado, déficit de sono e prejuízo na saúde, não tem o que possa pagar com qualquer salário.

Muitos dos meus próximos, depois de todo esse tempo (e olha que eu comecei a estudar informática em 1982 e parei em 2013 com o curso à distância no MIT e em Yale), ainda não sabem o que era a minha profissão, e vinham com as coisas mais estapafúrdias…  fffffffffffffff

Ah, não quero falar das coisas que não consigo, nem importam minhas inúmeras limitações, nem tampouco a falta de oportunidades. Seja ela na carreira antiga ou na literatura.  Não quero mais saber das opiniões de ninguém sobre o que, como, onde e quando faço minha profissão ou minhas escolhas de trabalho, seja ele rentável ou apenas memorável.

Agradeço a Deus ter meu dom de escrever e poder me sentir viva nisso, me expressar e poder desenhar algo que imagino da forma que eu consiga. Isso eu sei que não é uma coisa que as pessoas possam entender ou saber o quão difícil pode ser o lado da vida pessoal financeira e familiar (irmãos, família do esposo, parentes e até alguns amigos).

Então, a despeito do quanto meus projetos literários foram ignorados e do quão raro foi encontrar apoio ou incentivo, hoje decidi ignorar aqueles que assim procederam, que deixaram no vácuo, que nada disseram, que nem quiseram contribuir com a brochura que fiz, ou que realmente não tem afinidade com minha arte, é mais do que hora de esquecê-los e deixar prá lá e dar valor a você que me lê. E para você meu sacrifício e torço que eu consiga chegar a mais pessoas, mesmo nadando contra a correnteza, sem nenhuma torcida.

Percebi (na prática) que se eu faço geleias, é mais fácil encontrar quem quer ganhar do que pagar por elas… Mas algumas pagam e ficam satisfeitas. Quem ganha de graça, não sabe sentir o sabor…

 

Mara Romaro

17/5/2017 15:48

 

Em 31/3/2017 escrevi

Às vezes, tenho que interromper a caneta e caderno, parar e chorar. Porque certas partes a escrever, tenho que reler algumas escritas. Revolvo todo o canteiro, farpas nas mãos, tomara que as sementes acordem. Está chegando a parte final deste projeto, últimos dias, noites sem dormir, trabalho na madrugada, músicas e concentração. Transe quase de uma psicografia. Ainda parece o trabalho impossível de ser feito, mais doloroso, com o estigma de ter sido tentado por mais três vezes. Sete anos ou mais, que nem quero saber. Para ter sido feito em dois meses, que não esquecerei. Jornada iniciada em novembro com as cartas das uvas, ainda não sei como será terminado. Foi minha alma, corpo, sangue, ossos, tudo aqui. Desta vez meu desafio, foi fazer a enxertia de textos de relatos antigos, todos preservados contendo o mínimo de desfiguração, já não gosto de passar a limpo, quanto mais misturar duas coisas distintas, foi algo bem trabalhoso, pensado por muitos dias e semanas, meses e anos. Não nasceu pronto. A maioria não imagina o trabalho, as leituras, as pesquisas, conhecimentos e inspiração que temos que sangrar para poder escrever. Pelo menos leia devagar, sem ansiedade. Releiam os livros que gostam. Acho que semana que vem estarei revisando. Amém. Está em trabalho de parto o Vipassana. Namastê!

 

Farmácia

Farmácia

Por tantas vezes, eu me recusei contar da vida, contar o que vi. Se me sentisse fria, se me sentisse triste.

Costumo olhar nos rostos, adivinhar o pensamento alheio, entender as rugas, o motivo daquela roupa, da expressão do viver.

Recordei, eu com seis anos, pondo os pés nos degraus da farmácia, farmácia das antigas do Seu Takai, um gentil japonês baixinho e pequenino, lépido e com uma voz sensível. Sua farmácia tinha prateleiras do chão ao teto feito de forro de madeira pintado, era uma vitrine de portas de madeira e vidro, continha caixas e mais caixas de medicamentos arrumados meticulosamente. Ele tinha memória de elefante, assim que minha mãe pedia um medicamento, ele arrastava a escada, que se equilibrava em uma travessa de cano, para ele subir nos degraus, arrumando seus óculos no nariz e levantando o rosto para pegar diretamente, quase às cegas o remédio que ele sabia de cor onde estava.

Assim era, havia seringas de vidro esterilizadas, era antes dos descartáveis, eram guardadas em latas de metal de inox, e o seu Takai era exímio aplicador de injeções.

Que contraste. Ontem eu me aproximava da Farmácia do posto de saúde local, havia um furdunço, o gentio estava aglomerado, não era fila de cinema não, eu desisti para retornar hoje na tentativa de retirar um medicamento.

Já era cedo, já estava cheio, com a boca da porta cuspindo gente para fora, ali naquele território onde o sorriso foi banido.

Mulheres com seus agasalhos de lã, senhoras com suas bolsas de napa e toucas de crochê, senhores encurvados em sua própria coluna, moças de batom rebocado e olhar triste, homens de chinelão gasto, sacolinhas com os papéis, senhas sendo conferidas a todo instante.

As vozes estavam ruidosas. Não vi pessoas que já não estivessem bem saturadas desse cansaço, desse pesar.

Uma mulher puxou conversa, se lamentando de seu desemprego, outra pessoa olhava de canto, ouvindo, pessoas continuavam a chegar initerruptamente.

Uma voz: – Pessoal!!! Pessoal! O painel não está funcionando., por favor façam silêncio senão não poderão ouvir a senha!!!

O silêncio áspero durava trinta segundos dando lugar a um murmúrio crescente de indignação.

Então, começaram a sair pessoas, atendidas, mas de mão abanando.

Por vezes, sei que se erra em documentos, a receita venceu, coisa que o valha.

Mas, sobrou uma cadeira e me sentei, era do lado dos medicamentos de alto custo, minha requisição era normal, nem para mim não era, me senti ainda aliviada de não estar nessa fila porque minha depressão melhorou e pude ficar sem medicamento.

Não era o caso de muitos, cada qual com seu problema, eu olhava as faces, elas pareceram paredes pintadas de cinza e sem grafitagem colorida. Porque não há espaço para algo assim. Este era um planeta, que muitos pensam estar livres, nunca ter que visitar nem de passagem. Não querem nem ouvir falar.

A resposta foi se repetindo, eu notei o desalento, depois de uma infinda quantidade de horas de espera: – Está em falta! Dizia ela, em alto e bom tom. O Senhor precisa deixar o pedido e passar aqui em tal dia no mês que vem.

– Mas, eu já fiz isto no mês anterior!!!

Notei como a corcunda do senhor se pronunciava após isto, e olhei seu rosto ao se virar para ir-se embora de mãos vazias, eu olhei como assistindo um filme de terror, só que era de verdade.

Que doença ele teria… que remédio precisaria? Quais agravamentos ele teria?

Resolvi ficar em pé, me afastar, a confusão estava mais ácida, pessoas saindo abruptamente, outras pisando firme, outras destruídas. Algumas com seu remédio, embrulhado em sacolinhas e abraçado com veemência por seus braços, como uma única garrafa d’água que lhe restasse.

A essa altura, me questionei se não estaria perdendo tempo e comecei a contar com os olhos quantos saíam com/sem remédio e se era normal ou de alto custo. Olhei pro lado, todos olhavam atentos e ríspidos percebendo a quantidade de falta e os nichos vazios na prateleira.

Na minha vez, havia o medicamento, ora, me senti em susto, ganhei na loteria, coloquei na sacola, como apenas mais uma pessoa cidadã brasileira, sentindo até peso de horror de eu ter e os pacientes de doenças graves saindo em lágrimas…

Imagine, uma hepatite C interrompendo o tratamento, o olhar da pessoa desolada sobre sua condição…

Neste momento, vejo, junto com a minha saída, uma senhora careca, sem vestígio de cabelo, andando e ela me viu abaixou a cabeça e seus olhos, como se eles caíssem no chão. Mãos abanando.

Pensei na guerra dela, uma guerra desleal, você luta com uma espadinha de plástico e a doença com uma mãe das bombas. E ainda lhe negam sua pequena defesa, cada dia, cada hora é um campo de batalha avançando sobre a pessoa… Foi isso que colhi do olhar…

Não tenho definições de tristeza para isso.

Penso nas pessoas que acham que ‘peixes não devem ser dados, mas você deve pescá-los”, disseram tanto isso por aí, sobre assistências do governo, mas não creio que elas possam dar conta de medicamentos de alto custo para si. Gostaria que elas dissessem olhando nos olhos do câncer dessa pessoa que ela vá pescar primeiro seu medicamento.

São conjecturas, pensamentos nessa terra morta de sorrisos, nesse país abundante, de povo que trabalha, os caras lá só roubam e ainda ceifam essas assistências.

As coisas estão assim nessa subtração em todos os âmbitos nesses últimos tempos. Muito mais ainda se subtrairá. Você não ouvirá o lançamento do plano Menos remédios, mas ele já foi inaugurado.

As vozes eram ruidosas hoje, logo as vozes serão cortantes.

Tomara que você que tem alergia de ver o lado da realidade nua e crua do povão, nunca precise, mas isso é a vida quem diz.

 

Mara Romaro

17/05/2017 11:31

Nosso par

Nosso par

 

Das coisas que fiz na vida

Fiz ter você

Era guardar um ramo de alfazema no peito

Um cobertor em dois

Passeios

Mãos dadas, sempre guardadas na gaveta

Enquanto eu estava sozinha

Revisava seus carinhos guardados para mim

Dia vinte e três, era sempre uma proposta

Uma resposta

Um estar sem tempo para acabar

Era dia de chuva no mesmo guarda-chuva

Duas mordidas no meu churros

Passeio na garupa da vespa

Passeios onde não há nenhuma besta

Ah, e tantos assuntos

conversar sem rumo

um copinho de cognac

cosquinhas e massagem

Sabia que não era de passagem

Sorrisos trocados na carteira

Poucos centavos na feira

Filho

Filhas

Tanto amor e ao mesmo tempo problemas

Nunca quis deixar este esquema

As rusgas de fato, ciúmes

Sim, porque só eu sei

o que passei

E no fim, você foi meu crédito

meu rédito

E nossa cumplicidade de jardim de mato

flores de arbustos

Não sei como dizer

Como contar dos anos da vida

como contar quantas vezes me salvou o dia

como saber lhe dar o amor da melhor forma

que você precisa

E nossas barracas, nossas conversas de fogueira

O céu que nos abraçou das dificuldades

Nosso par foi meu grande bem estar

Foi um grande bem estar de viver

interrompidos nos dias de desentendimentos

com uma sofreguidão insuportável

E hoje sinto uma paz agradável

ao estar ao seu lado

e ter vivido com você

 

Mara Romaro

12/05/2017 11:40

 

 

 

Vesúvio

 

Vesúvio vira gargalo de groselha

Lava o fogo

Lava apaga

Cinzas e sombras das pestanas

Morde a carne, sangra

Verte pelo meio da boca

pelo vértice do lábio inferior

Fenece

estremece

a mordida do flamejar

Língua do coração de fogo

Labareda de lava

Dos olhos Vesúvio

Dos olhos Distúrbio

De olhar Ventrículo

De amor Versículo

 

Mara Romaro

08/05/2017 17:46

música: Goldene Zeiten – Unheilig

Dunas de Fogo

Dunas de Fogo

 

Banhava-se em jade líquida

remansa

Luz alva esmeralda

Que lhe ofertava pérolas espumantes

Cama de fina areia

de mãos elegantes

Era feroz errante

Caravana seu corpo de dunas

Desenhado de sombras morenas

Percorria jazidas de sol

Devorava sua luz para alimentar

escorpiões dourados

Seu andar guardava o ataque do leão

O atracar do acasalamento

Engalfinhar de lobos famintos

Seu farejar tácito

Rastejar de naja

A sedução do bico da águia

O tremular de sua pele de areia

era flamejar da chama

O calor irradiado derretia sua loucura

Olhar que derramava em ânforas

Seu sumidouro clamava

o devorar de um ser inteiro

Em um oásis de prata

banhado de poeira de lua

Saciava sua nua

Aflorava garras afiadas

mutuamente enterradas

presa em mandíbula

rolando pelos mapas de mistérios

dos desertos

 

Paixão tórrida

Selvagem

Sedenta de ares

Sedenta de mares

Faminta de amores

Mordida de jaguares

 

Mara Romaro

03/05/2017 20:30H