Diário particular da escritora – em 17 de maio

Diário particular da escritora – em 17 de maio

 

O andar da carruagem está sempre a me lembrar, que mal nos curamos de algo, já leva outra bofetada.

Quando finalmente arrumei meu cantinho, meus momentos de sossego, a leitura de um livro que eu não conseguia ler, o recomeçar do desenho, os projetos adiados e interrompidos.

Não sei como me movi, como tive mão destra, sei só que me orgulho que escrevi, noites ainda do verão, dias que não dormi.

A conta do sol não paguei, então desfruto das cores como matéria roubada, ar que inspiro sem asma, e segui meus dias do último verão.

Apesar de sozinha, alegrava-me um bolo quentinho, um chá, uma paciência. Eu via o ar exasperado no rosto, mas eu senti que a calma me amparava. Não podia ficar sem ela.

Eu escrevi, foram dois projetos diferentes, criados e recriados, e quando a ideia final me vestiu, senti que assim devia seguir. E logicamente senti um temor sobre como seria percebido, como as pessoas analisariam o teor. No fim, entre os livros que me propus ler como amplitude, analisando pequenos trechos, todos completamente diversos, que me instigassem, me ajudassem na minha cultura pessoal. Um deles me mostrou o quanto eu devia arriscar-me ao erro, e outro me mostrou o sucesso da simplicidade, outro a beleza musical da complexidade das frases… Eu tão pequena diante disso entendi que devia seguir em frente, no meu propósito e na minha própria estética.

Na verdade, as interpretações se avolumam em cursos de rios inimagináveis e nada que se faça pode conter qualquer censura, a senzala mental, os costumes e a falta de visão de todos os elementos que eu incluí nas minhas jornadas.

E cada momento de criação, fosse ele em meu mezanino, aqui no escritório, em minha cama, com caneta, lápis, fundo musical ou ruídos e intromissões, era um grande sangrar completamente diferente de tudo que eu experimentara escrevendo e desenhando, desenhando e escrevendo, ou desenhando palavras por último. Tudo possuía um motivo, um elemento concreto, uma percepção, um ensejo. E em alguns tempos eu relia, corrigia por um tempo, recorrigia, e relia a mim mesma nessas duas obras. No final da segunda, eu sentia uma sensação tão estranha, talvez meus amigos escritores pudessem me compreender, ou não, porque eu até relatei, li e chorei. Por inúmeras vezes, a mesma coisa ocorreu e eu sei o tanto duro que foi encarar algumas passagens. Há nelas verdade, razão, lembrança, loucura, nada, tudo? E sob o aspecto do escrito, da literatura, eu senti feliz por construir algo com o melhor de mim, com algo mais intenso que eu já possa ter experimentado.

Quando isso terminou, ficou o vácuo, um cansaço intenso mental, uma sensação de impotência e a sensação que não mais poderia fazer algo assim. Como se fosse a última vez, e eu voltara a ser abóbora, escrevendo alguns poemas e escritos, sem tanto encanto ou sentido.

Por um tempo grande me senti descontente e infeliz por sentir aquele conteúdo cerrado em um mundo fechado, uma caixa selada, como se fosse impossível vê-los se materializar em papel e livro para chegar às pessoas. Senti-me muda.

Pensei se daqui um pouco eu encarasse tudo que escrevi algo ruim e descartável…

Como as pessoas me enxergariam depois…

Achando defeitos aqui e ali. Passando essa ressaca literária.

Em meus dias, me livrei corajosamente dos medicamentos e me senti bem. Agora eu sinto, sinto as emoções sem mordaças e estou nessa atenção constante para vencer hoje e amanhã.

Semana passada fui bater na porta da minha amiga de infância, e conversar um pouco de tudo, rir e distensionar, pensar e trocar as ideias. Foi muito bom, recompensador, ao invés das falações de quem não tem a menor sensibilidade com minha vida, com meu esforço, com minhas privações, todo sacrifício que já trilhei. Então, alguns diálogos eu interrompi, não vou permitir esse aborrecimento sem fim agora que estou me levantando e vivendo.

Se eu escrevo, não é diversão ou terapia, não é joguinho de palavras, expressão pura e simples. Eu escrevo há muito tempo, sendo que grande parte eu não pus no papel, porque era analista de sistemas para pagar minhas continhas como todo mundo. Mas, entretanto, todavia as circunstâncias me fizeram escrava de dívidas, escrava do tempo arrancado exageradamente da minha vida pessoal como uma draga, um buraco negro, levando junto minha saúde.

Enquanto eu – alguns anos atrás – vagava de atendimento médico em atendimento médico, ‘companheiros’ do trabalho teciam as mais incríveis teorias sobre uma suposta férias que eu tirara, enquanto eu estava internada no hospital com uma dor aguda, tomando dezenas de injeções e fazendo um monte de exames. Esse foi o ‘reconhecimento’ por anos de trabalho honesto e dedicação, e isso é só uma das decepções e situações que vivi. Eu flagrei essas pessoas conversando ao ir tomar café no escritório no dia do meu aniversário. Eu deixei essa vida de analista para trás, vivo com o que tenho agora, não me interessa o que as pessoas acham ou deixam de achar.

Das minhas contas, cirurgias, tempo de trânsito amargado, déficit de sono e prejuízo na saúde, não tem o que possa pagar com qualquer salário.

Muitos dos meus próximos, depois de todo esse tempo (e olha que eu comecei a estudar informática em 1982 e parei em 2013 com o curso à distância no MIT e em Yale), ainda não sabem o que era a minha profissão, e vinham com as coisas mais estapafúrdias…  fffffffffffffff

Ah, não quero falar das coisas que não consigo, nem importam minhas inúmeras limitações, nem tampouco a falta de oportunidades. Seja ela na carreira antiga ou na literatura.  Não quero mais saber das opiniões de ninguém sobre o que, como, onde e quando faço minha profissão ou minhas escolhas de trabalho, seja ele rentável ou apenas memorável.

Agradeço a Deus ter meu dom de escrever e poder me sentir viva nisso, me expressar e poder desenhar algo que imagino da forma que eu consiga. Isso eu sei que não é uma coisa que as pessoas possam entender ou saber o quão difícil pode ser o lado da vida pessoal financeira e familiar (irmãos, família do esposo, parentes e até alguns amigos).

Então, a despeito do quanto meus projetos literários foram ignorados e do quão raro foi encontrar apoio ou incentivo, hoje decidi ignorar aqueles que assim procederam, que deixaram no vácuo, que nada disseram, que nem quiseram contribuir com a brochura que fiz, ou que realmente não tem afinidade com minha arte, é mais do que hora de esquecê-los e deixar prá lá e dar valor a você que me lê. E para você meu sacrifício e torço que eu consiga chegar a mais pessoas, mesmo nadando contra a correnteza, sem nenhuma torcida.

Percebi (na prática) que se eu faço geleias, é mais fácil encontrar quem quer ganhar do que pagar por elas… Mas algumas pagam e ficam satisfeitas. Quem ganha de graça, não sabe sentir o sabor…

 

Mara Romaro

17/5/2017 15:48

 

Em 31/3/2017 escrevi

Às vezes, tenho que interromper a caneta e caderno, parar e chorar. Porque certas partes a escrever, tenho que reler algumas escritas. Revolvo todo o canteiro, farpas nas mãos, tomara que as sementes acordem. Está chegando a parte final deste projeto, últimos dias, noites sem dormir, trabalho na madrugada, músicas e concentração. Transe quase de uma psicografia. Ainda parece o trabalho impossível de ser feito, mais doloroso, com o estigma de ter sido tentado por mais três vezes. Sete anos ou mais, que nem quero saber. Para ter sido feito em dois meses, que não esquecerei. Jornada iniciada em novembro com as cartas das uvas, ainda não sei como será terminado. Foi minha alma, corpo, sangue, ossos, tudo aqui. Desta vez meu desafio, foi fazer a enxertia de textos de relatos antigos, todos preservados contendo o mínimo de desfiguração, já não gosto de passar a limpo, quanto mais misturar duas coisas distintas, foi algo bem trabalhoso, pensado por muitos dias e semanas, meses e anos. Não nasceu pronto. A maioria não imagina o trabalho, as leituras, as pesquisas, conhecimentos e inspiração que temos que sangrar para poder escrever. Pelo menos leia devagar, sem ansiedade. Releiam os livros que gostam. Acho que semana que vem estarei revisando. Amém. Está em trabalho de parto o Vipassana. Namastê!

 

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5 comentários

  1. Antonio Pavón Leal · maio 17

    En la medida en que he comprendido tu testimonio, me ha conmovido y me he visto reflejado. Quizá me he conmovido como lector porque me he visto reflejado como escritor.
    Tus trabajos, tus ilusiones y desilusiones, son las de casi todos los que emprendemos este camino. Mis palabras son una constatación, no un consuelo. Creo que escribes muy bien y que tienes sensibilidad y cosas que contar. Eso, independientemente de las condiciones materiales, hace de ti una escritora.
    Ya lo dijo Don Quijote (cito de cabeza): “Somos lo que queremos ser”. ¿Quién puede impedírnoslo? Un abrazo.

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    • mararomaro poesia · maio 17

      O senhor Antônio é sempre um gentleman! Abraços amigo! São pessoas sensíveis e especiais que tem feito a diferença na vida e sigo com minhas melhores esperanças, mas divulgo porque as reflexões podem ajudar as pessoas serem mais humanas nesse mundo egoísta! Abraço!

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  2. ludoevico · maio 17

    Eu gosto muito das poesias que você escreve e até indiquei seu blog na lista dos meus blogs favoritos. Se tiver um tempo, veja meu último post. Espero que você mantenha esse blog por muitos anos. Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Diario particular da escritora – Mara Romaro – LA REPÚBLICA DE LOS LIBROS

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