Farmácia

Farmácia

Por tantas vezes, eu me recusei contar da vida, contar o que vi. Se me sentisse fria, se me sentisse triste.

Costumo olhar nos rostos, adivinhar o pensamento alheio, entender as rugas, o motivo daquela roupa, da expressão do viver.

Recordei, eu com seis anos, pondo os pés nos degraus da farmácia, farmácia das antigas do Seu Takai, um gentil japonês baixinho e pequenino, lépido e com uma voz sensível. Sua farmácia tinha prateleiras do chão ao teto feito de forro de madeira pintado, era uma vitrine de portas de madeira e vidro, continha caixas e mais caixas de medicamentos arrumados meticulosamente. Ele tinha memória de elefante, assim que minha mãe pedia um medicamento, ele arrastava a escada, que se equilibrava em uma travessa de cano, para ele subir nos degraus, arrumando seus óculos no nariz e levantando o rosto para pegar diretamente, quase às cegas o remédio que ele sabia de cor onde estava.

Assim era, havia seringas de vidro esterilizadas, era antes dos descartáveis, eram guardadas em latas de metal de inox, e o seu Takai era exímio aplicador de injeções.

Que contraste. Ontem eu me aproximava da Farmácia do posto de saúde local, havia um furdunço, o gentio estava aglomerado, não era fila de cinema não, eu desisti para retornar hoje na tentativa de retirar um medicamento.

Já era cedo, já estava cheio, com a boca da porta cuspindo gente para fora, ali naquele território onde o sorriso foi banido.

Mulheres com seus agasalhos de lã, senhoras com suas bolsas de napa e toucas de crochê, senhores encurvados em sua própria coluna, moças de batom rebocado e olhar triste, homens de chinelão gasto, sacolinhas com os papéis, senhas sendo conferidas a todo instante.

As vozes estavam ruidosas. Não vi pessoas que já não estivessem bem saturadas desse cansaço, desse pesar.

Uma mulher puxou conversa, se lamentando de seu desemprego, outra pessoa olhava de canto, ouvindo, pessoas continuavam a chegar initerruptamente.

Uma voz: – Pessoal!!! Pessoal! O painel não está funcionando., por favor façam silêncio senão não poderão ouvir a senha!!!

O silêncio áspero durava trinta segundos dando lugar a um murmúrio crescente de indignação.

Então, começaram a sair pessoas, atendidas, mas de mão abanando.

Por vezes, sei que se erra em documentos, a receita venceu, coisa que o valha.

Mas, sobrou uma cadeira e me sentei, era do lado dos medicamentos de alto custo, minha requisição era normal, nem para mim não era, me senti ainda aliviada de não estar nessa fila porque minha depressão melhorou e pude ficar sem medicamento.

Não era o caso de muitos, cada qual com seu problema, eu olhava as faces, elas pareceram paredes pintadas de cinza e sem grafitagem colorida. Porque não há espaço para algo assim. Este era um planeta, que muitos pensam estar livres, nunca ter que visitar nem de passagem. Não querem nem ouvir falar.

A resposta foi se repetindo, eu notei o desalento, depois de uma infinda quantidade de horas de espera: – Está em falta! Dizia ela, em alto e bom tom. O Senhor precisa deixar o pedido e passar aqui em tal dia no mês que vem.

– Mas, eu já fiz isto no mês anterior!!!

Notei como a corcunda do senhor se pronunciava após isto, e olhei seu rosto ao se virar para ir-se embora de mãos vazias, eu olhei como assistindo um filme de terror, só que era de verdade.

Que doença ele teria… que remédio precisaria? Quais agravamentos ele teria?

Resolvi ficar em pé, me afastar, a confusão estava mais ácida, pessoas saindo abruptamente, outras pisando firme, outras destruídas. Algumas com seu remédio, embrulhado em sacolinhas e abraçado com veemência por seus braços, como uma única garrafa d’água que lhe restasse.

A essa altura, me questionei se não estaria perdendo tempo e comecei a contar com os olhos quantos saíam com/sem remédio e se era normal ou de alto custo. Olhei pro lado, todos olhavam atentos e ríspidos percebendo a quantidade de falta e os nichos vazios na prateleira.

Na minha vez, havia o medicamento, ora, me senti em susto, ganhei na loteria, coloquei na sacola, como apenas mais uma pessoa cidadã brasileira, sentindo até peso de horror de eu ter e os pacientes de doenças graves saindo em lágrimas…

Imagine, uma hepatite C interrompendo o tratamento, o olhar da pessoa desolada sobre sua condição…

Neste momento, vejo, junto com a minha saída, uma senhora careca, sem vestígio de cabelo, andando e ela me viu abaixou a cabeça e seus olhos, como se eles caíssem no chão. Mãos abanando.

Pensei na guerra dela, uma guerra desleal, você luta com uma espadinha de plástico e a doença com uma mãe das bombas. E ainda lhe negam sua pequena defesa, cada dia, cada hora é um campo de batalha avançando sobre a pessoa… Foi isso que colhi do olhar…

Não tenho definições de tristeza para isso.

Penso nas pessoas que acham que ‘peixes não devem ser dados, mas você deve pescá-los”, disseram tanto isso por aí, sobre assistências do governo, mas não creio que elas possam dar conta de medicamentos de alto custo para si. Gostaria que elas dissessem olhando nos olhos do câncer dessa pessoa que ela vá pescar primeiro seu medicamento.

São conjecturas, pensamentos nessa terra morta de sorrisos, nesse país abundante, de povo que trabalha, os caras lá só roubam e ainda ceifam essas assistências.

As coisas estão assim nessa subtração em todos os âmbitos nesses últimos tempos. Muito mais ainda se subtrairá. Você não ouvirá o lançamento do plano Menos remédios, mas ele já foi inaugurado.

As vozes eram ruidosas hoje, logo as vozes serão cortantes.

Tomara que você que tem alergia de ver o lado da realidade nua e crua do povão, nunca precise, mas isso é a vida quem diz.

 

Mara Romaro

17/05/2017 11:31

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