Essência de Perfume

 

Com suas mãos

a delicadeza se vestia como luvas

Nessas horas da noite

ouço o cair da água

nas águas do telhado de chuva

Os gestos contidos

dobrados em finos lenços de cambraia

arrumados em uma caixa

um resto de perfume antigo

papéis guardados

Uma caixa

Uma caixa que fecha

se tampa

se estanca

Põe-se tranca

Sela e

Lacra

Guarda no fundo

Enterra

Cobre com palmos de terra

Vira-se

Faz-se um mapa

 

O dia que amanhece

com luz mais intensa

com os pés nesta fina água

Terra umectante

o instante das cores vibrantes

dessa ferrugem do solo

Uma cor ocre

Cheiro odre

Natureza morta

O que guarda, transborda

Um feixe de luz

ou uma energia invisível

ou o energizar de elétrons

ou uma fumaça

um mísero fio de fumaça

que esparsa na atmosfera

e me cobre dos seus gestos

dos seus perfumes

como um pousar imperceptível

Um toque leve como uma

borboleta marrom

desenhada em preto

 

Reviro na cama

madrugada esfria

Invernos me aborrecem

Sono que engulo em seco

Olhos meus não se fecham

Buscam saber o que me tocou

O que teria me acordado

O que teria me dito

O que teria me feito

Tudo cerrado na caixa

Trancado

Enterrado

Estranhamente se manifesta

no tempo

na incessante chuva

Em como me sinto agora

despida de adjetivos

e adjacências

somente um resto

de um pequeno gesto

de essência

 

Mara Romaro

19/05/2017 Madrugada, no mezanino em compania de Ártemis – minha gatita.

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