Escultura Grega

Escultura Grega

 

Durmo sucumbindo vazio

Em música de canteiro abandonado

Dragada pela fome da noite

Vestida de amnésia

Afundo no mar

Vagalhões e trovões

desenham meu travesseiro

Um adormecer corsário

de sorriso falsário

Entrego-me abraçada as nuvens

Com todas minhas forças

esculpo meu desespero

talhando rocha branca

só para tatear em minhas mãos

a ilusão de viver

embebida e ungida

das felicidades escorridas

na poeira caída do entalhe

 

Nem Deus Nem demônios

Nem Sonhos Nem Begônias

Moldada na figura

me agarro nos escombros do amanhecer

Amo mais o que te conhecer

Sem como nem porque

a escultura abandonada imortaliza

todo esse tempo perdido de esquecer

Erigida ao céu

Erguida em meu viver

Fecho olhos lápide

Perco a mão de reviver

 

Revolvo em meu canto

Pássaros agarram pedaços

Levam tudo embora

ao alvorecer

 

A erosão do acordar

o primeiro instante do

relembrar

Ao abrir meu olhar

Meu perecer

 

 

Mara Romaro

28/06/2017 16H

Música: Ti ho voluto bene veramente – Marco Mengoni

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Olhos que se

Olhos que se beijam

 

É algo que grita silenciosamente, dentro da minha garganta.

Sangra meus olhos.

Adormece no prelúdio de seu colo.

E durante o sono açoita minha vida.

Em madrugada de névoa elucida um quebra-cabeça de peças perdidas.

O despir dos olhos escuros nos brilhos perdidos em um dia que vem para me machucar, como se a música em seus movimentos aos poucos revelasse tudo para que tanto me ceguei.

Não há recomeçar. Não passa de um dia onde muito pouco se resolveu.

E o desejo vem à noite a me desafiar.

Percebo que não há amanhãs, nem os nuncas serão silenciados.

Onde se esvaiu a miragem?

Por que tanto medo do olho no olho?

Isto pareço instintivamente saber.

Onde a contenção irá se romper?

Achava que eram dois olhares. Descubro finalmente o terceiro?

Recuso-me ao meu martírio e ledo engano.

Não adiantou esconder em si, um dia um fato acerta a picareta

e tudo aflora em nascente.

O que era vertente verdade.

Mara Romaro

11/12/15 23:15

 

Magma

 

A vida está aí

casas coloridas

estradas molhadas

você busca em si uma liberdade

coisa que nem imagina o que possa ser

Sente aqui e ali

machucados a parte

Subida íngreme

no alto o vento arranca toda sua certeza

Não há certidão de nascimento

Nada é único dono

É tudo de segunda mão

As virgens vestais foram abusadas na infância

Amor não é um só

E vou, agora é andar

tentar ignorar as dores

a decepção das experiências

Agora me conheço

Nasci ontem

Meu choro é alto e estridente

Todo dia me sentirei esse ser

que acabou de ser arrancado à força da mãe

Tudo que me aconteceu

só assim sou o que sou

É indigesto

Quando penso nos 500 dias

de prantos de desesperos

eles foram muito mais que 700

A verdade me apunhalou

apunhalou

Estou viva porque já morri antes

nasci como roseira

E das roseiras que plantei para cada deus

uma delas era eu mesma

Floriu uma vez

cada vez com meus bebês aninhados

dentro da minha mão

Vivi o mais estranho dos amores

Dele ainda estou começando a subir a montanha

me deu prazer de sofrer, de morrer,

de renascer

e de eclodir sem a pele

me envenenar do prazer inventado

material feito de reações químicas

alquímicas

Agora entendo a sensação de implosão por dentro

Era um dragão de três cabeças

Um ponto de fuga divergente

Nada isósceles

Nada de triunfos

Durmo em colchas de raio ultravioleta

Aconteceu como escrituras

Eu descobri outras vidas

Premonições não me salvaram

A surpresa do amanhã

eu não sei

fico sentindo o ar da manhã

do amanhecer

Sinto a liberdade de poder ser tudo

Esperando a esperança sobreviver

nos brotos da romã

Não posso mais doer

Nunca tive culpa

A plenitude pode nunca me beijar

No entanto, sinto-me estranhamente

feliz

de ter visto a beleza inacreditável

desse meu núcleo magma

 

Mara Romaro

07/06/2017 12:15

Mãe Natureza

Mãe Natureza

Pensei ter me perdido no céu

Buscando conchas do seu silêncio de mar

E nesse amar mãe natureza

Orvalhos e nuvens brancas

semearam tons desse tempo

Montanhas, chão vivo

Você se vestiu de cores vivas

a natureza estava viva

no tecer de teias

no zumbido de zangões

O ar se vestiu de suas roupas verdes

Delas quis recordar um cheiro

Das flores se fizeram cores

vermelhas e amarelas

De girassóis e aquarelas

Cravos vermelhos

Flor de ameixeira

E a natureza estava viva

nesse sangue de mel

Os relinchos, latidos e miados

Seus suores, suas lágrimas

Os campos de mato

veludo de carmim pálido

Despetaladas rosas

Pétalas brancas transparentes

As cores vistas de olhos jabuticabas

Cavalgar vazio

Andarilhos na montanha

O acariciar das folhas de outono

Mãe Natureza viva

Linda em luz e cores

Feita de solo e amores

Permanente em pedra cindida

apontando ao céu

um lugar ermo de cor refletida

Olhar pairado no horizonte

Recorta sol poente em pedaços

para comermos como se fosse

pão sovado assado em fogão de lenha

Cheiro da terra

da chuva batida primeiramente no chão

Mães que se juntam

Mãe Terra Mãe Natureza

Cores vivas

me engolem em seus ventres

Eu me aqueço desses entes

Cores vivas que me tatuam

Um nome indecifrável desse amor que sinto

Tão vasto e tão perdido

Mara Romaro

04/06/2017 10:45 Domingo – Mezanino em casa

Divagações no mundo paralelo

Divagações no mundo paralelo

 

Tudo me passa na mente, toma frente no caminho e vejo que tenho que correr.

A despeito de inspirar, o ar me entra lúcido, obeso, eu sorvo coordenadamente dos seus átomos, mas logo cuspo fora o caroço.

Desta forma me iludo, sei que adentro um túnel, um túnel de vida, com percalços saindo em contramão.

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