Divagações no mundo paralelo

Divagações no mundo paralelo

 

Tudo me passa na mente, toma frente no caminho e vejo que tenho que correr.

A despeito de inspirar, o ar me entra lúcido, obeso, eu sorvo coordenadamente dos seus átomos, mas logo cuspo fora o caroço.

Desta forma me iludo, sei que adentro um túnel, um túnel de vida, com percalços saindo em contramão.

Satisfazia ir na garupa, poder olhar e abrir minha cortina insólita de seda, esverdeada, emplumada tal qual pena de pavão. Há a imaginação, mora ao lado, no meu lobo esquerdo, um quarto contíguo, que eu adentrava ainda menina para brincar com meus móveis de caixas de fósforo.

O tempo irreparável, invadindo nas ressacas do meio-dia, engolido em parte na vida paralela do meu universo no avesso do pijama do céu.

Sinto-me sombria. São tempos após um grande nado, no meio do nada, após as perdas e tempestades dos copos d’água que nem bebo.

Sombria com o tom da noite, que engulo feito remédio, sem grande afeição. E se tem hora que é difícil, é toda hora. Corro tanto que corro de mim mesma.

O ar raspa e expira pelos cantos laterais da minha mandíbula. Meu peso é em dobro e meu passo a metade. Portanto, tenho que suportar minha equação de limitação.

Se a vida é farta, não sei prá quem. Não perco meu tempo para imaginar pedir algo que sinto no fundo que humildemente não posso pedir. Nada tenho a retribuir.

A hora já é tarde, hora essa do dia que nos vemos buscando retratos, é porque a solidão nos roeu por dentro.

É um momento visceral. Não sei ser d’outro modo a não ser sinceridade escarrada. E quem não me ama, não me suporta. Porque a palavra sai rude, não há como eu possa domá-la.

É tudo feito cavalo indomável. Não inverossímil. E temo que perdi o temor de dizer.

É algo parentesco de liberdade.

Sempre me vesti dela, para depor toda a armadura e a liberdade foi meu bálsamo.

Esses dias Clarice me disse que comeu da própria placenta, ela disse isso e nem li mais uma palavra para absorver. Em mim, tive algo, algo terrível e abrupto, e tão contundente porque não experimentei leite materno e quase morri. Quase morri, e já comecei minha luta tão pequena perdendo lá quase dois quilos. Não, era uma parte essencial de sobrevivência e sobrevivi única e exclusivamente pela gana, tenacidade e dedicação de mamãe.

Eu suportei até aqui, e tem causos que eu não me atrevo lembrar, mas cheguei até aqui, a dor não pode ser maior do que meu esforço.

Só que é. Vejo-me engolida e apática, lutando sem recursos, e fugindo através deste mundo que eu vejo, recito, empanada em palavras.

Já me pergunto, se consigo estar presente junto aos meus.

Por vezes a compreensão mútua é tão impossível que desejo fechar à chave uma porta e ir-me ao meu lugar estranho, deitar no veludo de grama japonesa e olhar cardumes no céu.

Em inúmeros momentos conduzo cursos de rios, ditando os diálogos e acontecimentos nesse mundo de pano e bordados ponto cruz. Resolvo que assim será, faço e pior – realizo o que tenho sede e como minhas próprias partes do quinhão que deveria compartilhar.

Aos poucos sou sorvida ou tragada como um cigarro, a brasa avança para perto da carne grudada aos ossos, como se pudesse desuni-las. Retirar os dentes da gengiva. Retirar as unhas e escalpelar os cabelos.

A vida cruel invade meu mundo com sua obstinação, cretinice, cerceamento e frustração.

Vivo esse prelúdio de piano à espreita da retirada do meu útero.

Eu vivo alegre, socando a coluna, esta que me tortura a alma escrava do pensamento e serva dos demônios Sentimentos.

Sou livre como vento, mas presa nesta atmosfera. Nem tão livre assim, tudo é uma questão de momento.

Os fatos são indeléveis abjetos da nossa vontade, a arrogância pensa os possuir, mas não possui nem mesmo argumentos de si.

Os sonhos da noite me apavoram, sua carruagem desembesta, nada segue um rumo e as visões me colocam n’outro mundo.

Receio não acordar. Receio não retornar. Enquanto engulo café, dou três beijos e peço a manteiga, eu vejo tudo ao redor fantasiado de possibilidades perdidas e uma vida impossível.

Eu suporto porque fui forte, não morri nem de desidratação, sete cirurgias, dias infindáveis sem almoço, coração com problema, nem a anestesia pegou; e extrair o siso foi outro horror. Eu era acostumada a ter medo de gente, medo de confiar, medo do escárnio, ter sempre joelho ralado e roupa velha.

A minha força maior foi suportar o que pessoas me fizeram. Duas, três ou mil.

É assim mesmo.

Um mundo verde, livre, ensolarado, repleto do que desejo, me engole, eu tenho que viajar nele, comer novas comidas, ter outras conversas e uma vida se projeta ao meu lado em imagens de pano de fundo.

Eu suporto, fiz pacto de sangue, meu patuá rege minha porta, meu anjo cuida das minhas gatas. E elas vão para lá e para cá.

A vida em si, eu guardo extratos em pequenos vidros com essências, torno infinito certos momentos bons e torno imortal cada palavra que recebi em amor, em amizade.

Houvera tesouros verdadeiros, pena que minha vida tem sido penhorada, devo ser uma alma castigada, e sinto que nada posso para restabelecer.

Chega um ponto de inflexão, um ponto de onde certas circunstâncias adentram o mar e se tornam inalcançáveis.

O momento é esse. Navegar o que sou. Navegar o que me resta e rezar para os santos afastarem tempestades.

E tudo que te parece fácil, é aquele cubo mágico que veio montado de fábrica, desconfigurou e pensas que podes torná-lo facetado de cores num passe de mágica.

Então não me venhas com evasivas ou atenuantes, que a dor é minha, eu é que sei.

 

Mara Romaro

31/05/2017 21H.

Citação: “Eu aguento porque comi minha própria placenta” – Clarice Lispector – Água viva.

 

 

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