As falhas do tear

As falhas do tear

 

 

Tateio por entre as coisas

linhas grossas

emaranhadas emoções

verdadeiras cabeleiras de coloridas cordas

à espera de minhas mãos a tecer

De canto o tear incompreensível

Não sei o manuseio

Melhor vestir tentativas

com os restos das linhas

Do que amargar amarguras

 

Vejo que sempre há o que

 

Meus dedos trançam por entre as guias

Prevendo possíveis motivos em cores

Ainda me vejo por entre erros e arbustos

com os dedos amarro a linha Perdoe

na mão direita um hífen  e Me

Penso ‘o que conseguir de mim’

Não consigo ser mais do que artesanato

Tranço Perdoe minha irritação

Encaro-me decepcionada por minha falta de mão

Amarro a teimosia que visto como persistência

Perdoe tudo que ficou latente em lãs azuis

 

Enquanto teço não ouvi, não compreendo

Nós se acumulam, se não respeitei

Teço por vezes tentando que vejam quantas vezes

amarro com vermelhos o que preciso desculpar

E não poder estar junto

quando precisou

Sem habilidade de aquiescer e ser branda

quando estava dolorido(a)

Teço o perdão às cegas da luz que não consigo ser

Remoendo com as palavras

que não consigo consertar tudo que danifico

Teço minhas cores, meus sentimentos,

minhas intuições, inconsistências

Nas cores da razão me perco

Tecido mostra dificuldade da distância

Perdoe o tecido do meu riso e pranto

Se faço manto e santo

Se faço a mim mesma salvar

Tento fechar as brechas

esquivar às flechas

A fuga no lanifício às minhas inundações

Perdoe o tecido escuro

cheio de crateras existenciais

E se escolhi as linhas frágeis da lua

Meu tear já é meio velho

Dele só traço tapetes arraiolos ásperos

Perdoe sincero tecido grosso

O que faço em fracasso, meu abraço insosso

Tecidos de fazenda manchados

Desculpa, meu tear é quebrado

Perco meu humor com ele

e rio fora de hora

Perdoe os pontos errados deixados em nódoa

nos tapetes do caminho à frente

e se engruvinhei  essas nódoas dentro de mim

Por todos os anseios em vão

As linhas de amizade perdidas

eternamente procuradas

Incompleta no tecido para o frio

Meu tecido falho, com as lacunas

às respostas espirituais impossíveis de serem bordadas

E toda a recorrência de nós marinheiros

no permeio do tecido

Teço trêmula por burrice, nulidade,

dores e falta amores

E nessa parte dos motivos coloridos maternos

que não acerto em nada

nem por esse ou aquele lado

 

Perdoe se não consigo um tecido menos áspero

e se meus dedos calejam

e se nunca lembro como fazer nada

Meu tecido pula justo a linha delicada da sua vida

Teço com as linhas erradas

o tapete que você nem quer saber

 

Meu pobre tear velho encarquilhado

cheio de fiapos esquecidos

minhas mãos perdidas nos tremores

inutilizam o que tocam

embaralham o que dizem

e no final o amor desvanece

entre embaralhados e lacunas

 

Ao som da cantiga portuguesa

Haja o que houver

admiro a voz de seda

do que não consigo

acariciar com mãos de anjo

no seu rosto

Meu Deus, me perdoe

toda essa falta de jeito

 

Mara Romaro

20/06/2017 11:40

 

Cartas Proibidas

Música: Haja o que houver – Madredeus, Rosa Sangue – Amor Electro.

Reescrito do texto Perdoe-me de 18/06/2017

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4 comentários

  1. Lucas Palhão · 4 dias atrás

    Olá, Mara!

    Linda poesia!

    Peço sua licença para divulgar os “Minicontos Volume 3”, grátis na Amazon até 23/06.

    Eu ficaria muito agradecido se pudesse baixar a obra e fazer uma avaliação.

    Muito obrigado,
    Lucas Palhão

    Curtir

  2. Lucas Palhão · 4 dias atrás

    Sou o organizador da obra e um dos 26 autores 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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