Carta Verde Amizade

Carta verde Amizade

Toda vez que vou escrever, sento, escolho caneta, cor, caderno.

Hoje, preciso um início adverso, eu nem estava com disposição ao passeio, de certa forma habitual de Domingo, mas a luz estava em sua forma rara e fui.Meu momento de sol das onze, fiz mais paradas no passeio do que de costume.

Uma foto da paisagem especial no fim de minha rua. Banal, porém houve em mim a urgência de guardar algo que pode ser subtraído quando menos se espera.

E minha visão estava arrepiada, talvez porque eu estivesse combalida, estivesse sensível ou agredida de tudo e tanto.

Bem mais que uma árvore florida.

As painas estavam novamente caindo. Era uma neve especial sobre alguns gramados, tal qual a neve sobre o piano que é uma capa de disco que eu tive tanto amor. Então, eu estava exatamente nos mesmos lugares mas mergulhava.

Nadava por entre as painas que desciam suaves de árvores que não sei, eu temia que entrassem em meus olhos como ciscos.

Pareciam seres submarinos pairando em mim, como as minhas partículas de sentimento emanadas.

Pensei na calma que eu precisava, na suavidade que eu precisava comigo mesma. Mas me vi pedalando na descida para sentir o vento.

As painas me acertavam, mas somente eu estava sentindo isso.

Certo lugar, resolvi parar para atenuar um tremor que senti de fraqueza, de tensão, de dor, sei lá, eu saí do hospital e os remédios devem demorar, mas eu ansiava estar mais preparada.

Neste parar, comecei a beber uns goles d’água, e mesmo no sol intenso, fiquei admirando o lugar, tomada de sentimentos e palavras, no piano ao fundo do ‘Noturne in a Minor’ magistral do Chad Lawson.

E caí em mim. Estamos exatamente tendo o tempo breve do Veranico. Sim, é o tempo perfeito.

Tem o calor brando, tem a luz do sol mais amarela e o verde da esperança fica tão aveludado na planície que desce até um grotão emaranhado com o que sobrou  de mata de beira de rio.

Umas árvores frondosas, com diversos tons mais escuros de verde e reflexos amarelos em arbustos e pé de mamona.

Uma cerca de arame, permeada de estacas velhas de madeira, com rachaduras e lascas perdidas.

Meu olhar foi se alongando. Eu permaneci em músicas.

Não posso descrever em gerúndio, porque ele é idiota que não percebe que cada instante que ocorrem inúmeras coisas lindas que nem se percebe.

Eu senti solidão. Sente-se solidão de pessoas, as que gostamos, nem mesmo quando não se é solitário, a solidão as vezes é linda, contida em lágrimas que devemos derramar quando vemos as coisas mais perdidas e entendemos a vida d’outra forma.

Tive quase um paralisar olhando e notando borboletas amarelas deste Veranico. Elas eram duas. Percebi que havia outras além destas que margeavam a copa das árvores adiante na Avenida Santana.

É sempre meu lugar de andar e sempre tão diverso. As borboletas apareciam e desapareciam imergindo no mato crescido, verde, totalmente iluminado de sol a pino.

E quanto mais ficava, mais adiava a ir-me. Sabia que não poderia passar a limpo tudo que minha alma rasgava e saia voando com meu pensamento.

Pensava procurando ver o número máximo de borboletas e havia algumas de outras cores. Vi cinco.

Somente ao se ter essa entrega com o lugar, você começa a viver junto diante de tudo.

Em sempre. Em dias. Em momentos. Eu sempre buscava trazer por minhas mãos algo bonito para lhe enviar e era amizade. Eu pensava feliz com todo esse verde, com a noção exata que segui a trilha de formigas de Exupéry, eu fiz para cobrir com carinho, uma coisa diferente que falasse em um idioma que fosse completamente desconhecido.

Sobretudo era para que uma luz dessas pudesse ser levada como se fosse um fogo protegido de uma lamparina para dias de tempestade sem luz.

As ideias são assim.

E só porque me entrego em alma, voo junto, é que percebo, lá no fundo ao longe havia borboleta. Acima de mim, que estava do lado oposto da rua, uma sobrevoou e confundi-a com uma flor. Um girassol de mato, exato como uma frase da carta em envelope guardada no caderno que enterro coisas que seriam cartas felizes. Eu iniciava dizendo amar esses girassóis que são flores eclodidas  neste mês por todo lado, ignoradas por todo mundo mexendo em seus volantes e correndo com os carros em sua inutilidade vazia.

Eu percebi que uma borboleta voava entre o segundo e o terceiro arame da cerca, linearmente em seu batimento.

 

Percebi o ar trêmulo da irradiação solar emanando o suor da terra no aroma silvestre que consigo sentir.

Ah, como eu gosto disso! Pude observar longamente porque me esqueci simplesmente com a pele tostando nesse sol, nesse ar singelo, com as músicas fluindo grotão e eu ali.

 

A música A ilha dos Açores marejavam meus olhos, minha vida sofrida e tudo aquilo me falando de amores impossíveis e os possíveis.

As coisas que eu queria e larguei, as coisas que ainda queria viver, as impossíveis e possíveis.

Toda a poesia do ‘Pequeno’ vinham com o movimento de uma mão invisível de brisa, tão tênue que eu notei somente tempos ali.

A dor terrível da abstinência de quem amo foi coberta desse tocar, o vento moveu um fio do meu cabelo, as árvores moviam um bailado próprio de cada uma numa sequência por onde essa mão tocava.

As borboletas estavam no topo da árvore, elas desceram em um corrupio e sumiram nas grutas escuras da árvore. E havia um estado imaterial nesse olhar fugaz da vida. Finquei o pé e permaneci o quanto pude.

Carros correndo passavam ignorando. Olhares de incompreensão sobre mim.

E quando tive fé na sua amizade, tive um contemplar. Eu tento aceitar que um minuto de reconciliação vale, mas meu olhar via e por mais que eu tenha enviado carinho, tantas respostas ficaram não sei onde. A música dizia Tout Devient Possible.

Mas, neste interlúdio, nesse viver, o abraço da música, do vento, da luz, não conseguem substituir um bom momento de amizade, mas traz uma espécie de dejà vu ou um manto sagrado de lembranças válidas, com significado que tente representar um dia assim, tal qual o soneto Perfectio do Veranico. E justamente porque o dia quente se intromete no decorrer dos dias do inverno e relembra a possibilidade de uma nova primavera.

 

Eu amava muito, sempre fui assim, tanta coisa queria contar, mas sabe, essa coisa de que se vê o plano cartesiano, com tão pouca diversidade de variáveis, tem tudo oculto por este tempo, na natureza, que meus olhos brilham diferente percebendo versos da música Manto de Água, sabendo que não seria capaz de dizer toda aquela luz divina que me aconteceu hoje.

 

Quanto estamos nos fazendo perguntas erradas, procedendo vazios, apegadas a velhos conceitos e dilemas?

Cada vez mais que tento compreender, categorizar como se pudesse catalogar sentimentos e julgá-los…

Quanto se perde de viver.

Se eu não ficasse, não veria o voar alterado e o bater de asas da borboleta procedem diferente após seu encontro em voo.

Notou alguma vez as formigas se tocarem umas nas outras como se estivessem se saudando, passando e marcando o trajeto de sua trilha? Percebe que as desgarradas buscam outras formas e alimentos e sacrificam suas vidas em busca?

 

Eu penso se alguém poderia ter feito o que eu fiz em cartas, mensagens e vinho?  Alguém poderia? É que eu tive tanta coisa a dizer, tanto tentei recuperar a amizade como se isso pudesse me salvar. Pudesse fazer a vida melhor.

Como se o livro El Principito fosse de amizade, bem da verdade, não se tratou nunca de amizade. E o invisível era o impossível. Tive que compreender todas essas camadas de folhas secas, como se a vida pudesse ser imortalizada nisso.

Tanta coisa que coloquei reais significados de amizade, por onde se dizia ser o caminho de sol de amores possíveis. Sou tão pequena diante de tudo e de toda beleza da vida, que só percebo isso agora, todo esse ‘eu lírico’ que fica mudando e camuflando as cores.

Ouvindo a música Snake Yes do Ryuichi Sakamoto me imprime uma sensação opressora da presença de tudo no meio do campo, esse ar da minha terra que entra em minhas mãos, não se perde como painas, nem areia, nem água. Fica apegado ao suor, às lágrimas de comoção de amor ao som do piano.

Do que posso viver, mesmo com meus temores, meu sofrer, a angústia de perder algo importante. E ao mesmo tempo esperar no verde mais abundante que me venha um neto ou uma neta, para me reviver esse carinho imenso que sempre senti.

Certamente um dia quero ver esse momento seguir, ver esses descendentes se tornarem flores, serem adultos e poder contar nesse idioma algum mistério que não está datilografado.

 

E vivo esse momento, sei que as partículas de amor, são esses seres etéreos que sobrevoam.

Certamente eu vivi algo sob o ponto de vista de lutar com todas as forças para recuperar a amizade.

Não me importo mais com a classe etimológica do sentimento, só me importa a vida, suportar minha dor das perdas, viver meu idioma e dizê-lo a quem eu considero que aprendeu um pouco dele. E no fim das contas eu plantei boas esperanças e idealizei coisas que podiam ter significado das espécies nem descobertas da natureza.

Quando decidi que podia voltar para casa, senti uma emoção que me descompassava, vi flores amarelas que quase confundi às borboletas que eclodiram neste breve veranico, eram flores de sombra amarelo canário que pareciam uma festa de natal de julho.

Segui percebendo as partículas do ar, tais quais a cinzas volantes, que só o vento decide onde as irá repousar.

Enquanto eu voltava, tanta coisa desapercebida me viveu, senti uma feliz lembrança dos patos no lago que não existe mais. Vi a cor de cobre vermelha e brilhante da poça d’água, vi a nascente e um cabloco inclinar-se a beber dela.

Um dia especial por trás do morro do Saci.

Venho tentar dizer a você, senti esperança.

 

Mara Romaro

25/06/2017 12:30

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