Espuma de Champagne Amarela

Espuma de Champagne Amarela

 

A saltar sobre a fonte

Jorra água esbarrada por Hálux

nas termas florais

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Caixa de Madeira e Veludo

Caixa de Madeira e Veludo para Guardar Amor

 

Em tempo presente, um dia, após o tempo de contemplação no alto, no patamar que lhe dava abertura a respirar.  O transpirar das palavras vertentes, o semear das cores da aurora, se depuseram em forma de cor.

Ela escreveu, sua visão àquele dia, àquela hora, branco sobre vermelho. Dizendo isso lhe parecia incrustar rubis na sua mão. Ou que a boca pudesse voar a cantar feito pássaros alados sem tempo, sem extinguir.

E sua vida, em letras de sangue de coração, anos e anos frutificando. Nada invalidava cada ângulo da vida, de cada voo de ilusões e os fatos de dor.

Apenas a grandiosidade tomou-lhe a mão, a boca, o olho, o ventre e tudo estava ali diante dos olhos a perder de vista, a perder de tempo, a perder.

Não obstante da realidade, dos cubos, dos mundos opostos, as palavras não foram nunca pérolas a rolar barranco.

Escrito sobre veio de ouro, sobre veio de pedras que sangravam em grutas, suas luzes contidas no escuro.

Ao fazer isso, ultrapassou todas as barreiras, ignorou dúvidas, ignorou todas suas marcas da pele de cicatrizes a sinais de nascença. Ignorou aquilo que ampara, e todo seu aconchego de lar e de família.

Era um enorme rasgar de peito, uma série de visões de lava, que somente ela poderia ver de onde se encontrava.

Colheu tudo com sorriso, em um saco com fecho, feito de veludo cor de vinho, amarrou os cordonês espiralados com laço. Pombas brancas vieram e levaram parte do seu tesouro, pessoal e secreto.

Ela olhava temerosa, receosa, apavorada o voar decidido de tudo que batia forte sendo carregado a endereço certo para pessoa incerta. Jamais saberia o que houve. Sua parte ventricular esquerda mantida na sua mão, seu chorar desesperar desvanecia.

Escurecia. Então, ela revestiu uma caixa, do veludo mais limpo e brilhante, com a nuances do brilho das ondas de mar, imprimiu sua carta vermelha de amor imaterial, guardou junto às pétalas secas de primavera rosa. Guardou perfume. Guardou a dor. Guardou silenciosamente. Cerrou a tampa de madeira, meteu a chave, girou e trancou.

Por dias, o gosto de amor permeava seu olho. Por dias transpirava sangue de flor. Por dias chorava o evaporar da alma e o pesar da censura alheia. Por dias, de repente recordava a visão linda, do ângulo do segundo degrau, toda névoa branca de amor, de amor verdadeiramente macio de algodão, de aconchego, de uma paz inatingível, fê-la chorar, lágrimas de leite vertido nas chuvas torrenciais da pedra, brilhantes de comoção. Suas dúvidas a consternaram. Toda essa mescla, de dia e noite a varrer seu tempo, dia de sol e chuva, e essa mescla sentida fortemente em si, desejando a esperança de um pavão, a esperança de um broto renascente.

A linda carta fechada, suas palavras bordadas no seu olho, franzidas em sua testa, por onde fosse as pegadas deixavam marcas da tinta. E tudo podia ainda estar acontecendo?

Queria ser cinzas assopradas ao vento, diluído o pranto, abraçar algo grandioso tal qual o amor puro e poder aquecer o frio escuro do não saber.

A carta vermelha, uma carta de amor feita de flor amor-perfeito, era tempestade de caos, a queda d’água do infinito.

Queria sentir apenas o branco, e apesar do vermelho conter a carta deveras cuidadosamente dobrada, não poderia conter o batimento involuntário deste coração. Caixa fechada. Mensagem ao relento. Palavras jogadas no mar.

Infinita praga, veneno, de amar.

Nunca se sabe, nada, nem o depois, nem enquanto, nada se sabe do que virá. Não se pode nunca saber o que ela sentia tanto assim, para escrever algo tão único.

 

Mara Romaro

07/08/2017 – À noite – Mezanino