Diário da Escritora 03 de agosto 2017

Diário da Escritora 03 de agosto 2017.

 

Meu dia amanheceu assim.

Amanheceu céu de mudanças. Eu costumo acordar com minha dor crônica, mas hoje meu despertar foi pelos bigodes da gatinha, que veio ao meu lado a lamber minha testa. Ela me pede, com suas traquinagens de bolir onde não deve, objetos da mesa de cabeceira, que é para eu ir levantando logo, pondo chinelos, um casaquinho roto, a ir ao jardim matinal com ela, ela me espera a cada três degraus da escada, no meio da rampa, sento ao pé da ameixeira, que este inverno carregou pé, mas justo quando iríamos colher, foi o fim de semana de cano estourado, muitos rebocos sendo marretados em soco de martelo, poeira e pedrisco por todo chão, as coisas espalhadas, nosso ritual de sábado quebrado.

Hoje, o vento brandia espadas, as folhas se deitavam de medo, a gatinha manca, se encolhia na caixa de papelão.

O café eu já coava, com minhas mãos a massagear minhas próprias costas, catava minhas coisas a pôr na mochila. E de quando em quando olhava o vapor que subia da cafeteira, ávida por café, com estômago colado às costas.

Com olhar de pedir pão, acordei meu esposo, recolhemos as coisas para não molhar com a chuva que virá.

Pensei nos meus temores, agachei diante das minhas dores, e passei a sorrir com os gracejos dele que me faz piada até com a colher do café. E assim ainda descabelada, botei meus caderninhos e lápis de cor para quiçá fazer arte e esquecer a dor.

E minha vida, não é mais que a de ninguém, o ranço era por conta dos nossos políticos, e o pouco pão era por conta das minhas condições. E nem por isso fiquei embaixo de cobertor, como todo dia faço, sigo junto com meu marido a dar-lhe uma mão.

 

Por sua vez, ele tolera minhas ranhetices, ora minhas atitudes enérgicas, ora meu carinho no seu ombro, dividimos o café, os problemas, as contas não consigo.

E uma das consciências que tenho me obrigado a ver, são as coisas que não consigo e as que os outros não conseguem comigo, e entendo que tem coisas que devem ser respeitadas a seu próprio limite.

Engraçado que sinto uma certa desorganização nos projetos que tenho, são tantas ideias que me passam na cabeça, na hora de dormir elas se mesclam com minhas dores da alma, mas me motivam. E ando anotando as ideias que passam a configurar uma lista de coisas que não faço. E como é difícil torná-las reais.

Eu não devia estar gastando palavras aqui agora, com tantas coisas por escrever, desenhar e projetar. Isso me incomoda, assim como a falta de recursos.

A vida em si, eu levo simples. Chego à noitinha em casa, gosto de comer um pão com não sei o que, acho que gosto de comer com banana, e nunca me perguntem se a banana está madura, eu as como verdes. Tem porquê. Meus irmãos me zombavam dando-me a ‘taturana’ da penca de bananas depenada sem bananas, eu passei a comê-las verde, antes que alguém sonhasse em catar uma da penca. Adiante das horas da tarde, eu tomo um banho, nem sempre estou disposta a fazer isso, mas vou, boto minhas roupas de conforto, cuido das coisas, vejo filmes ou subo no mezanino para pensar, escrever, reler, ler, ver minhas cartas de Tarot dispostas sobre um lenço (um deles que ganhei de mamãe), e relembrar como a minha mãe lia as cartas. Sempre arrumo uma coisa ou outra, janto o que temos para hoje, ouço as coisas que minha filha conta, tem dia que temos rusgas. E agora que novamente tenho celular, chamo minha gata mais tarde um pouco: – Ártemis! Vamos ouvir música? Ela dá um salto, vem lépida para meu quarto, grunhe e sobe no pé da minha cama. Essa hora, eu ou meu esposo já acomodamos a outra gatinha na sua caixa de papelão, demos uns tapinhas carinhosos e afagos, cobrimos com manta e ela se encolhe ronronando.

Ouço músicas que renovo para não me dar melancolia, às vezes relembro coisas da minha vida, às vezes escrevo na beira da cama, outras vezes choro minhas coisas.

No meu dia, eu ponho coisas inesperadas, quando dá, faço receitas de coisas gostosas, lamentavelmente é sempre receita de engorda. Mas aproveito do dom herdado de mamãe, de mão boa para doces e pratos, mas só dá certo (conto isso como segredo), se penso em coisas boas, se me sinto bem e não trago amarguras. Tem vezes que peço ajuda de mamãe para preparar as comidas. Engraçado que dá certo.

E sinto falta dos meus filhos, uma garota meiga, minha filha primeira, que sempre me enche de orgulho, que sempre gosto de abraçar. Meu filho, segundo, este sempre tão interessado em aprender coisas, hábil, amoroso, que a falta deles só se compensa um pouquinho com a presença da filha, caçula, pois meu quarto filho nunca veio, então parei nessa filhota linda e divertidíssima que é apegada a enlaçar meu pescoço, me dá agrados, briga e ralha comigo. Às vezes fica brava mesmo e bate a porta do quarto que a gente aperta os olhos a ouvir a chave cair tilintando no chão. Mas tem a alegria mais linda que já vi e a risada contagiante de parar a missa.

E sempre tem perfume dos filhos pela casa, cheiro dos banhos, do esmalte da unha, das receitas que eles tentam na cozinha, da pipoca fedorenta estourada no micro-ondas.

E eu me sento no terraço, gosto de respirar fundo o ar da montanha da minha terra.

É um lugar abençoado, só que tem uns vizinhos que tocam funk, música alta, tem horas que isso incomoda.

Eu, no meu sábado, me ponho à lida, aspirador, baldes, esfregão, máquina de lavar roupa, meu esposo com esguicho, vassoura no quintal e a gata já o espera no muro para rolar no solzinho da manhã e fazer graça.

Faço uma comida, gosto de uma cerveja depois da lida, adormeço no meio de um filme no sofá, à tarde. Preparo massa sovando na minha pia de granito verde escuro, bem negro. E abro massa, geralmente uma receita italiana, e nos alegramos com vinho barato, risadas, quando os filhos estão todos por aqui, entre suas conversas, zoação, discussões, sentamos à noite para jogar Master e rir de penca. É bem divertido, seria ótimo, mas nós, eu e meu maridão, precisamos de lupa para ler instruções e perguntas. Confesso que prefiro ficar de fora dando palpites e pitacos nas jogadas dos demais. Se pego o tema esportes, pode crer que vou perder feio o jogo.

Atualmente tenho pequenos sonhos que são possíveis, enquanto não posso planejar de ir acampar com a família. Geralmente, eram passeios curtos de bicicleta (que recentemente quebrou, torço a boca de desgosto porque não tenho nem como mandar consertar), ir na pedrinha, ir caminhar em direção à fazenda Santana, ou ir à pé à Pedra Grande. E quando as queimadas da estiagem vestem os terrenos da nossa paisagem, ficamos com olhares vidrados da beleza diabólica do fogo, ao mesmo tempo aflitos com os pássaros, gambás, lagartos, gatos de mato, todos encurralados nos labirintos das labaredas entornadas com vento, com desleixo de gente besta, e da falta de água do mato, que é sem culpa, acontece sempre, todo ano nessa época.

Fogo me atrai. Sempre sinto vontade de sentar à beira da fogueira, em roda, como se tivesse em travessia, como se apeasse de cavalos depois de um dia, coisas imaginadas, coisas vazias.

Enquanto sigo na garupa da moto, sigo galopando, só vejo as árvores, o vale, esqueço tudo da cidade, omito os sons estridentes, as brecadas penso que o cavalo tem que saltar obstáculos, e tento sentir cheiro da chuva, o céu está carregado mas a vida me nega.

Eu insisto, sou teimosa, devo ter um tanto de burrice, mas das minhas esquisitices, as melhores eram aquelas que papai tomava com café, como se fosse biscoito doce amanteigado das mãos perfumadas de mamãe.

Então, meu cabelo desajeitado não me afeta, não tem mais gente esnobe que me faça ligar para estar usando camisa jeans, tênis velho, me sinto tão bem com a simplicidade que cada cafezinho, bom dia da minha amiga de infância, o cutucar da gata, o socar do trepidar da moto, não me fazem triste nem nada.

Ter tempo é algo maravilhoso, que compensa toda falta de cartão de plástico. Às vezes, os padrões sociais constroem ilusões, necessidades que não tenho, por vezes me entristece não poder alguma coisa, às vezes me sinto meio indigente, mas ser livre, compensa qualquer coisa. E no final, andei jogando tanta coisa inútil fora.

O que não é inútil, não tenho que jogar fora, tenho apenas que acolher com afeto, são os próprios sentimentos internos, eles não são coisas. São alma. Não podemos admitir feiuras impostas pelos padrões, pelas pessoas.

Abraço. Abraço-me. Não me falto. Cheguei até aqui, vou contar uma coisa, duas ou três milhões, não vou desistir do amor, de ninguém, nem quando as flores minguarem, o céu apagar, o sol esconder, as pessoas mudarem-se a seus feudos.

 

É possível pensar hoje em dia, que as barreiras virtuais são viróticas, são purulentas, são verminoses. Os muros que não caíram ainda não são intransponíveis desde que se inventou a catapulta. O fogo negro é a frieza desumana das coisas que parecem-lhes conveniências.

 

Ademais, as crianças nascem, parecem-me flores, dos brotos, das cores. Elas chegam para nos fazer olhar com esperança, que logo as pessoas esvaziam como se fossem pó dos móveis. E penso nos meus sobrinhos já adultos, vejo neles as mesmas crianças, olho com esperança, ainda sinto o perfume da flor. O que aconteceu com todo mundo?

Olhando sem parar a porcaria do celular, como se fosse alguma coisa importante, que no fundo, o mais importante fica preso em bloqueios, trânsito, portas trancadas.

Eu consegui amedrontar pessoas com meu amor, com minhas cartas, com meus desenhos e devoção. Eu só enxergava jardins e era meu jeito de mandar carinho. Nunca pensei que o medo pudesse ser tanto, deve ser de tanta bala perdida, de assaltos por aí, de carros que batem no trânsito, ou sei lá o que.

Vamos e venhamos, dia vai, tarde chega, sol que queima, amor que fica, vida que passa, tempo não é devolvido, portanto, não deem de graça.

A gratidão me apazigua o coração, sinto de alguma forma os carinhos que foram negados, os que ficaram arremessados, ou doutro lado dessas letras que cozinho em fogo brando, com adocicado açúcar no restolho do café.  Letras que vem as pessoas e comem, tão àvidas de alento quanto eu acordo todo dia de manhã.

 

Mara Romaro

11:54 Atibaia – Centro.

Ouço Nocturne in F Minor, op. 55, no. 1. – Chopin – por Chad Lawson

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