Amarcord Azul

Amarcord Azul

Folhas descem em saca-rolha
A furar meu refúgio
Dentro de uma garrafa vazia
As lentes que polarizam
ao meu relembrar da luz antiga

(eu queria a luz de polaroid dos
anos setenta
queria um olhar esquizoide
de lágrimas de setecentos dias)

Bocas de peixe tremulam
a fumar a cabo o sabor do dia
Pássaros se empanam
dos seus pedaços de ventos
em meio a seda de lenço
O brilho que amamenta lago
em largo sorriso
Sombras que reinam
derrubadas suas castas vazias
O ronco do teco-teco
era o pica-pau que fazia

( queria cor polaroid
dos dias idos em setenta
Queria os ares polarizados
de ozônio
no meu antônimo
de pimenta caída
Queria a cor do dia piscina
no alvoroço de clube
sem pranto de setecentos guias)

Posso ver fronteira de poeira
Posso ver voo de álamo
Mergulhar em sua água fria
Dar mãos em cicatrizes de nuvens
Roubar o sentido da esperança
dos bolsos pobres da grama verde

(queria a atmosfera asteroide
dos dias idos anos setenta
Filtrado no carvão ativado do tempo
das cores únicas unidas nos espectros
de cores subversivas do canário)

Seu reflexo desce sobre mim
em espelhos de cristal azul
Tento descobrir qual dos irmãos
Se é um tom Prússia ou Claro
Seria Ultramarino? Seria Petróleo?
Hoje era miscigenação
Filho das árvores com firmamento
Eram as areias turquesas
Repousadas e ciscadas nas garras
de pássaro de peito branco
num entorpecer de leite de lírio

(não sei falar, o céu não era assim
milhares de dias atrás
eu tentava rever no meu olhar prismático
as cores exóticas dos anos antigos
Que o céu não derramava o mesmo sol
Eu comia brisas framboesas
deitada no amornar do bronzeado
Só queria ver de novo a luz pura
Talvez porque meus olhos fossem
alegria de coração ondulado
de cordas de violão)

©Mara Romaro

05/09/2017 10H

Ao pé da árvore, a visão da ilha do lago na frente. Garça negra pousada na haste do oxigenador desligado. Eu em minha exaustão, dor e fazendo o tempo das 9h da manhã. O ato do “io me recordo”, de luz e coloração fotográfica ímpar da década de 1970, dos tempos de deitar para pegar bronzeado, de alegria desprendida, e de céu e ar mais puro do planeta. Estado extático contemplativo.

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