Antigo orvalho que não goteja mais de teu lábio

(28/11/2017 10:52 terraço em casa)

Te digo

com boca arrogante

lábios encouraçados da sede

sede de sonhos
fortes das correntezas cataratas

Te digo

de voz despojada

dentes cerrados da dor

da vontade de movimento

a saudade da voz serena

de vento apascentado

Te digo

que pensei em versos

diante da enxurrada

do momento congelante

da solidão indizível

da lâmina invisível

dilacerante das horas madrugadas

Te digo que vivo

que viverei das formas

permitidas

palavras ambíguas

a recusar o aceno das

incertezas

Te digo que mergulho

do alto do rochedo

a fé cega do amor bruto

constituído dos sedimentos

formação silenciosa

cordilheira dos antes

Alma recrudescida

no sólido confinamento

adormece em adormecida

acontece no impossível

apodera do imponderável

Te digo

Noite que adormece em

meus braços

A dor impenetrável

de alquimia injetável

Te bem digo

na pintura da ternura

emanada

naquela fissura

de um lapidado copo

em míseras gotículas

que se perderam

do teu fortificado obstáculo

Te bem digo

Às vozes brandas

sorrisos das nuvens

alento dos estranhos

a humanidade que eu

emprestei um abraço

eu bem digo

as pessoas que se tiveram comigo

inesquecível afável

canto doce ecoado do favo

mãos que surgiram

nas ausências tuas

Te digo

que os empurrões de

demônios devassos

não me demorarão

nem os momentos estirados

Vou subtrair o que me foi tirado

Bem digo

ainda bem que eu

estive nos braços das cantigas

do que teu falso

efêmero acenar de

armistício

Não me comovo

da falta nem de

perda do teu desperdício

Te digo

Não a ti

Não há

Nem sou

Te contigo

coração ferido

alma abatida

Algo que infinito vive

o que está escrito está

escrito

puro sentimento

não carece poda

mas de flores

danças, gorjeios e rodeios

de pássaros

que só fazem

Bem dizer.

©Mara Romaro

Verso da folha

Músicas: The love dance – original – Mistic Diversions | Marisi – Cantoma

Por enfermeiro Cassiano e acidentada desconhecida do bairro do portão, e para amiga que me renega.

Mãos de mãe que inexistem, mas já pousaram em mim.

Poema sobre dores, perdas e danos, que de certa forma eu disse ao enfermeiro que um dia eu faria poemas de todo aquele horror de momento, do desamparo à dor, da ausência às perdas.

>caderno p&b

>para Enterrei

Senso incomum do ângulo

Senso incomum do ângulo

(18/11/17 Shabbat |pmf)

Talvez, ainda não
não sei
Talvez eu visse em ti
a beleza das uvas inatingíveis
na majestosa parreira

Talvez eu mirasse
um senso incomum
uma visão da pele
adornada dos tons amadeirados
dos imprevisíveis cursos e
inclinações
do caule enrugado da vinha
Talvez eu tivesse perdido
o olhar de perceber
percebi tardias
palavras que eu nunca
sabia
Tua boca formada de
duas faces opostas de
triângulos de um ângulo
esguio
Formava arco e flecha
e a fenda da boca
era uma flecha repousada
Talvez eu quisesse
ter encontrado o nome da cor
ter a descrição exata indolor
dos lábios cerrados
a minha vida encerrada
Talvez eu me abençoei
das pancadas da chuva
negra
inesperada
Talvez o gosto que teria
Talvez o de uma nêspera
Eu talvez só quisesse um
murmúrio
imprudente
um pouso de passarinhos
incoerente entre
meu nariz
meus olhos
meus dentes…
Talvez, fosse um dedo
um dedo que me ajeitasse
entre infortúnios e cabelos
Um imperceptível carinho
do teu (quieto) pensamento
Talvez
Talvez, um tempo
eterno limiar de
um falso desprendimento
Talvez, o elo, o pedúnculo,
o embrião,
nada disso exista de fato
nas vinhas de ch­’uvas
E nossas vidas erradas

©Mara Romaro

{Talvez fosse medo
um terror interno
confuso por certezas
ocultasse mistérios
o medo em si
não era de mim
mas de revelar em
ti algo que
te deixa completamente
inseguro(a)}
caderno p&b
>cartas proibidas