Ninho de Sanhaço

|06/01/2018 14:45

São nas garras da sina
que os gravetos mais frágeis
seu bico fulmina

Eu queria lhe ensinar
O tecer do gorro
O amarrar do abrolho
Trançar da palha da cesta
com mãos maternais de artesã
Vi que é maroto
espevitado com suas vestes aveludadas
Ouço, você ouve?
A garotada corre de pé na água
arroio de água de lavar roupa
o pega-pega encantado
Não é sua dança desengonçada
A fêmea vigia o ninho despencado
Enfia os bicos a catar pequenos insetos
Eu queria lhe ensinar
Ver longe, pular pedras
nesse caminho incrustado no rio
tal meu olhar que salta
de brilho em brilho
nas águas passadas
Queria ensinar outras melodias
Perco meus dias absurdos
A só ver seu emprego
o de me observar
rebolando sentado em galho
rindo das galhofas
aquelas que esqueço
conto aos grãos soltos no terraço
Queria aprender
seus maneirismos
o de olhos esbugalhados
o de meter a fuça no sovaco
o de erguer o pescoço
até a nuca do céu
cair de costa sem ser esmagado
Queria aprender
guardar no papo
minhas frutas lindas
e as palavras
que não ficassem
amassadas e passadas
Poderia colocar os ovos
nesta estação em gerúndio
permanecerem acasalando
vivendo chilreando
andando
com passinhos de garras
retrocedendo meus prantos?
Em seu calcanhar
eu ensino e me acostumo
a um eterno relembrar
De grão em grão
morro acima minha alma vai chegar
De pão em pão
a minha desculpa para comer manteiga
Vai-se
Vocês voaram sem volta
Fiquei dias espreitando
Outros pássaros que vinham
Um era piquitico
afiava o bico no retorcido aramado do galho
outro vinha de fraque, pomposo,
se empertigava
chicoteava uma larva
batendo bem antes da bicada
Eu lhe ensinaria
modos de comer a garfo e faca
para noites de concerto
com todas as vozes contralto
um coral vestido de basalto
bem aqui na balaustrada
Mas queria, que me ensinasse
o caminho para meus azuis deste verão
eu queria, por um momento
ser um pombo correio
e levaria ramas de encanto
à terra fria
Por onde andariam os andarilhos?
Onde seria seu novo ninho
senão no alto de um pinheiro?
Perdoem-me
Meu pinheiro é meio calvo
cresceu no meio da ventania
entristeceu quando seu gêmeo morreu
neste pé de montanha
onde houvera um campinho de futebol
bem ali às dezesseis horas
bem ali onde corriam as crias
de cachorros do mato
bem ali onde brotava uma nascente
bem ali a sapaiada coaxava
ignorava seu presente
eu sonhava ajudá-lo tecer o ninho
Àquela tarde no seu furdunço
a correria puxando pipa do menininho
Eu olhava o pedaço do galho
que a janela me entardecia
enxergava o que ouvia
Duelo dos machos
à disputa do ninho
no meu Castor
Ficou você
Por um dia acasalou
Foi quando acordei
após meu banho de cansaço
e não vi mais o casal de sanhaço

Mara Romaro

06/01/2018 Mezanino

Música: The love dance – Mystic Diversions

Circles – Alexander Desplat

Blau – Sine

Tentando recuperar a poesia que estava na mente esta manhã antes que eu levantasse, ouvia a passarinhada na gaiola do vizinho. Só recuperei a vontade de ensinar a fazer cesta para o ninho com artesanato. Mas perdi a poesia. Escrevi sobre o casal de azulão Sanhaço, sobre a tarde que eles se moviam de uma árvore para outra.

Piquitico = pequetito.

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