Diário do Universo Paralelo – nebulosa de Órion [2]

Sábado, 06 de janeiro de 2018. 20:58 h.

Não. Nunca basta começar algo, que simplesmente eu não sinta que tenho que prosseguir. Ontem, um clarão foi percebido no negrume da noite pelo meu esposo, eu acomodada nas almofadas do meu pensamento, ele me chamou a atenção para a lua que nasceria em instantes.

De fato, uma calma do ar, um reflexo da lua prenunciava seu nascimento, na silhueta silenciosa da montanha.

Ao ar da infância da noite, paramos e ficamos esperando a lua, que surgia lentamente enquanto a terra está se movendo, enquanto nós ficamos abraçados lado a lado, com nossos braços para a cintura do outro, observando e eu relembrava a lua de dias antes pois vimos um pirilampo voando e piscando tão alto, fato que jamais houvéramos visto.

Pois, tantas vezes estamos entretidos em banalidades, trocando palavras que não são proveitosas, sem podermos sequer perceber nossa presença.

Vem vindo, aquele vento, do ar da chuva, pela fresta da janela, eu apenas ouço o ventilador e os ruídos da chuva, rodeada de uma vontade de escrever uma carta, de escrever para estranhos, de escrever a voz do grito da ferida que não sangrou para fora, mas sangrou por dentro, hematoma que lentamente tem que ser absorvido pelo meu próprio sangue, pela minha própria alma, num exercício dificultoso de me recolher nos braços do nada, me recolher num canto sagrado, num altar qualquer, num beco sem saída, onde só posso olhar para o céu tentando reconhecer alguma coisa que me faça saber que estou aqui e aprendi algo. Mas vem a sensação da irrelevância, esta ampliada com as alfinetadas das palavras impensadas da filha, do olhar resignado do esposo, que contém uma espécie de suor de seu desgosto, de um olhar disperso e descontraído dos demais filhos, absortos em suas vontades momentâneas e decepcionados com a minha realidade. É bem verdade que mesmo eu sabendo que eles me amam, eles se acostumaram a minha pessoa relacionada ao que eu exerci muitos anos na tarefa de ser mãe, provedora e falsamente independente.

Porém a Mara que sou, tem aquela Mara, a que amadoramente escreve desde criança, que desenha amadoramente desde criança, que dançava amadoramente desde menina, e uma mulher que eles nem estão perto de conhecer, e o curioso, é que mesmo aceitando minha situação estranha, uma espécie de aposentadoria ou falência, mas na real, não podem compreender o que é a Mara hoje.

Ah, eu amo esse amadorismo meu, esse rudimentar afloramento espontâneo e surreal tanto quanto imaterial, no aspecto de não possuir remuneração. Eu penso nisso, não posso pagar pela arte que tento ver, tento apreciar, tento consultar e penso se as míseras pagas me dariam a dignidade? Não posso definir, não posso recusar me doar ilimitadamente, mas também assumir a miséria do quanto minha vida se torna dependente dos demais, estes mesmos, que não estão tão admirados assim, e não estarão com a liberdade da minha escrita.

Sinto esse dissabor, o da irritante tarefa de entenderem meu ato de escrever, minhas exigências de não perturbação, meus modos que tento moderar para ser mais tolerante, quando a vida sempre prepara ciladas e situações que dão murros no estômago ou situações do coração mais aflitivas do que isso, que fazem palpitar hiatos no coração. E se já tem vontades difíceis, momentos que a tristeza é o ser mais forte que conheço, há também uma batalha medieval de cavaleiros dentro de mim, travada em localidades meridionais, sangrenta e exaustiva, de um d’us contra o outro, de um pensamento tendência a outro sobrevivente.

Eu aposto meus instantes a procurar a nebulosa de Órion, no pouco que sei reconhecer, e apesar da vista já lenticular, eu ainda encontro com meus olhos nus, sua graça, seu encanto, seu mistério, seu sabor de cores impossíveis e de uma espécie de motivação alheia a tudo que me dispõe a ver um mundo possível diante dos meus dias e que eu poderia seguir um caminho diferente. A nebulosa estaria em meu reconhecimento, o luar estaria nos meus desertos, o céu me emprestaria os mares que não tenho.

E não quero, esquecer, que diante dessa janela, há um muro, sim, emblemáticos muros sintetizam os obstáculos inúmeros que venho me deparando. Sim param-me. Eu tenho a saber o que há, por detrás, mas não possuo mais a chance de galgar esses muros, tal como fazia quando criança, corria por cima de seus tijolos, com um equilíbrio de fazer inveja.

Eu, me deparei diante de uma recordação, inventada não sei, mas um momento especial, desde que perdi minha mãe, de certa forma, volta e meia eu pensava não tê-la abraçado, não ter dito que a amava, não ter deitado em seu regaço e cochilado no ventre de seu calor materno. Senti essa falta, que impossibilitada pela morte, foi uma coisa estranha. Desde que percebi amar como mãe, uma estimada pessoa, eu desejei viver o que ficou impossibilitado pelo muro da morte.

Mas além dessa, digamos conclusão, havia em mim, motivações espontâneas, reais, motivações de gratidão de receber nitidamente esse tipo de carinho tão necessitado por mim, porque era uma falta similar a um buraco negro.

Esse buraco negro, que vem engolindo, consome a matéria em seu redor, com voracidade de leão, como a propagação do fogo nas brasas acinzentadas em um papel recém incendiado.

A porta fez o ruído de se fechar, sem se saber, se fora empurrada, se o vento a bateu, se alguém adentrou. Outra porta se fechou, bateu com som seco, o impulso suficiente para engatilhar a fechadura.

O motor foi ligado. Ela estava inerte no banco, toda jogada, sem muita consciência, as pessoas estavam se falando, sobre onde a levar. Ela, teve sua cabeça acomodada nas pernas de alguém, que a puxou, que precisava sentar-se no banco traseiro. Ela não pode se recordar disso propriamente, este parece ser uma espécie de sonho do mais profundo inconsciente, já que sempre supôs que ela estivera no banco do passageiro, junto com o colega que dirigiu o carro.

Portanto, essa sensação, ela deflagrou uma sensação de colo materno, este momento certamente poderia haver uma presença imaterial de uma outra mãe, ou a lembrança que transitou no tempo, de um momento forte, de um colo materno.

Ela sentiu a mão sobre o ombro, outra tenuemente sobre a cabeça, e num instante estava em outra época, via claramente um raro momento afetuoso que jamais experimentara na vida.

E com o que sucedeu nesse acordar, as situações que já foram escritas num livro que ela pensava, pois havia esse momento que faltava descrever, durante o seu sono, sua inconsciência, ela esteve vivenciando um dia como se fosse verdadeiramente filha e mãe.

Ela nunca poderia saber, e saber se ocorrera de fato isso, e o que se passou com a amiga, o que teria sido, uma situação unilateral?  Teria sido de fato? Teria dado alguma reação afetiva?

Não. Nada. Não sabe. Todas as reações posteriores no pernoite em sua casa, cuidadosamente ofertado por ela, não fora solicitado. E cada atitude pareceu mais do que sua aparência poderia transparecer. Contudo, de certa forma embaraçoso, ela não pode ter nem mesmo o real prazer dessas dádivas, pois por certo foram além do seu limiar de consentimento.

Ela sentiu pesarosa porque as coisas não saíram bem, não se sentia bem tendo ido parar em hospital, tendo acordado de forma tão estranha.

Mas, o dia amanheceu, por mais breve que pareceu, cada gesto e cada pequena situação próxima, reforçava a sensação tátil do que sonhara. Era muita informação confusa para entender ou extrair algo compreensível. Por longo tempo, ficou aquela sensação de aroma, aquela sensação de estar em um lar que sua memória reconhece, mas que não é seu. A sensação de ter vivido por apenas um dia, como mãe e filha sem serem, por ter vivido por um dia ser de certa forma salva, cuidada, amparada, como se sua orfandade nunca tivesse acontecido.

E como um efeito de droga, após longo tempo, sumiu, evaporou-se.

Ela se deu conta que precisava, precisava desesperadamente daquilo que nunca soube se teve espontaneamente manifestado do coração sem que a pessoa tivesse percebido.

Depois sua análise foi se complicando, com memória perdida, com a sensação de inadequação, com a sensação de que não sabia o que poderia ter acontecido realmente.

A magia se desintegrou como um quebra-cabeça, que se desmonta com as mãos. E ela ficou com o desespero cravado no coração.

A chuva que amaina, o sol que aquece, os dias em que me transmigro de um acordar, um viver, e um simulacro de libertar, dentre as realidades, prefiro o céu que não me renega. Prefiro a luz que não me distingue. Prefiro a voz daqueles que não se esquecem de mim. Prefiro meu travesseiro e o perfume da minha casa, das palavras que me comovem, do abraçar.

E não compreendo, perdi algum fato da vida, porque sei que não deixei lacunas para minha querida mãe Myriam, recordei coisas tão afáveis, mas jamais consigo saber, se aquele sonho que sonho, se aquela memória que lembro, se tudo que pressinto é verdade ou é a lua.

Não me importo com meu viver, tento guardar meus sonhos, em uma gaveta de madeira de lei, limpa com pano úmido, com caixas trabalhadas, com latas ornamentadas, com aromas de sachês especiais, com delicados papéis de seda a embrulhar, como bonecas de louça de estimação ganhada dos natais mágicos da vó querida, ou quem sabe, uma caixa de cartões de lembrança, pequenos suvenires ou um presente único, ainda que estragado pelos anos idos, pela eternidade do afago, não renego, eu guardo.

© Mara Romaro

São 22:12

Elucubrações dos sentimentos imaginados contra os sentimentos vividos, seus significados inconcebíveis ou incompreensíveis, e a dura realidade.

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