Mensagem na garrafa

11 de janeiro de 2018. 20:55 H.

Fiquei observando o esgotar do incenso, gosto de pensar na presença que ele me concede em amplo frescor, um prolongamento da tarde, gosto de sentir que após os anos idos, ele nutre uma espécie de sabedoria da sutileza, ou a delicadeza para adentrar meu fundo de olho com aroma brando.

Observo, minha própria recordação, da tarde anciã, vestida de casaco de pele de urso polar, com os rostos voltados para mim em perfeito véu, como uma noiva nunca acontecida, que de tempos em tempos, adentra um cômodo e prova seu vestido jamais visto por olhos algum.

E o frescor de uma garoa mansa, reconduzia as sensações do fim do meu banho, uma furtiva sensação de arrepio, com meu olhar na presença viva daquilo que melhor me poderia agasalhar a alma resfriada, as dores e toda minha impotência diante de tudo.

Recordei que percebera, umas poucas folhas nas árvores, darem um empalidecimento ou na verdade, amarronzaram, repentinamente algumas folhas perderam a clorofila, mesmo com estes dias de sol com o verão brandindo sua espada para cima.

Permito-me registrar, que quando meus olhos se derretiam, clarões silenciosos esbranquiçaram puramente o cimo das nuvens, onde eu não pudesse saber o fim de suas cortinas, mas refletiam os relâmpagos longínquos a me perturbar a falta de condição para me pôr a caminho, qualquer que fosse.

Na minha insaciedade, na minha ânsia indescritível, adentrei o degrau que margeia a sala envidraçada com o terraço. Recuei qualquer que fosse o ímpeto, a pegar a pena, descrever sucintamente meus dias, ou adentrar furtivamente nas palavras filosóficas, ou relembrar glórias de dias passados, ah, houveram?

Percebia minha imaginação querer alçar voo, fugir com meus novos chinelos, e toda minha vontade não se traduzia em gesto, movimento de algo, só meu pensamento permanecia em seu habitual movimento de redemoinho, as salivas agrediam os dentes, as últimas peles das chagas de minha boca queimada ao comer o milho fervente soltaram e um alívio esquisito e fugaz me permitiu dar sossego à língua e meu lábio inferior.

Mas isso não poderia exemplificar minha sensação de inutilidade, minha condição como um todo de estar em um beco, ou andando em círculos, ou perdida dentro de mim mesma, com inúmeras decepções e se por um lado parecendo um tanto resignada, havia um lado tão inquieto e perigoso, daquele brilho incontido que ressalta o olhar, um olhar similar a zombeteiro, pois não, na verdade olhar de profundidade do interior mais profundo da alma, cruzando todas as informações colhidas e catalogadas em ordem, para encontrar em seu âmago algo mais que seu sentir, mas uma necessidade de fazer e nesse fazer conseguir curar esta dor mortífera.

Logo o dia apagou, restaram miúdos gotejamentos da telha, o marasmo felino, uma mesa posta para uma ceia estranhamente silenciosa de minha parte, para depois eu me recolher aqui no meu estábulo, nessa luz tênue que quis acender sem focos nem holofote demasiado azulado e me recolher nesse acolhimento da lamparina verde e sua paciente queima que conversasse com minha timidez dos atos, com minha paralisia diante da vida e pudesse me pôr na frente uma vista diametralmente oposta para que me fizesse chocar com sua espetacular novidade e me levasse um novo amor ao coração. Um amor que me abraçasse.

Um amor que me cuidasse, com mãos limpas, com suavidade na voz macia e me disse coisas novas totalmente incríveis que me fizesse ver, que me renascesse agora para uma vida nova, uma alma lavada e uma força alimentada de muitos manjares perfeitamente feitos do cetim do coco.

Tanto ouso querer, que a imagem se confunde ao meu vazio, vou me alimentando das minhas ilusões para acordar manhãs frias com meus pés doloridos com a dor do gelo, ou os joelhos incomodados da friagem dos sonhos estranhos que me avisam nas falas de um golfinho, que vem retirar parte da minha alma, como se ela fosse fatiável, e pudesse se fazer incisões para extirpar meu mal.

Incrivelmente eu sinto uma plenitude, de um vento que não me pertence mas me veste, de um ar respirado tranquilo, no remanso da rede, no balanço de minutos e na minha mais completa nudez de tudo que já me vestiu, eu planejo voar.

Eu planejo andar sem dizer aonde, permanecer contemplativa no estranho, no profundo monólogo da solidão, e posso quem sabe, um dia, pegar uma forquilha para me apoiar, ou me aventurar nos deslizes que tanto gosto de surfar.

Esperarei a noite, no receio mais possante da existência humana, o aproximar do céu e dos raios, ou o medo de uma serpente, uma aranha, o medo do medo úmido embolorado, e dos pensamentos rudes e tão insensatos. Não sei qual escolher… Estou pensando ainda se fico com meu medo paralisante, ou se sinto o gosto do medo da morte, uma coisa mais próxima da sobrevivência, porque sinto que aqui cheguei, neste momento, depois de tudo que passei, de tudo que lembrei, de tudo do que me conscientizei, e nada posso, nada tenho, simplesmente é inútil tudo.

Tudo que já escrevi, é tão insignificante, eu sei o que estou sentindo, e essa mescla do guisado, esse enorme tacho na fervura dos meus cinquenta e hum anos, penso no quão grande é o teor do meu coração e o quão massacrado ele está, seus sinais vitais enlouquecidos já perderam os ponteiros, e fisicamente, eu me sinto exatamente como minha vida chegou até aqui.
É simples. Atabalhoadamente.

A luz da vela pequena, dá sinais do cansaço, eu sinto doer pelas peripécias de hoje, pela minha impaciência, e um prenúncio que me escandaliza os olhos do pensar, a sensação de que as palavras estão para secar, porque percebo que o que me movia, talvez fosse imaterial, ou volátil, ou simplesmente não consegue me alimentar mais, isso nunca poderia ser alguém, precisava que viesse de meu intelecto e do meu sentimento, mas concluo, sei de onde vem, mas sei que as nascentes dão mostra deste estio.

©Mara Romaro

Término 21:45

\escrito no computador \ Cartas proibidas

Precursor do DN

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