Diário do Universo Paralelo – Realidade alternativa [3]

Diário do Universo Paralelo –  Realidade alternativa
(Término: 22:16 | Mezanino e vela acesa. Computador do Lincoln na mesa, caderno na prateleira inferior, caderno de anotações, celular, playlist preferidas da hora MCRomaro elaborada por mim, lista ao vivo do Hans Zimmer no show de Praga. Termino ouvindo Live it now de Gary B. Sentada na poltrona com os pés nas almofadas dobradas e empilhadas, um recipiente de cristal com as canetas de uso, papel post it, caderno de estudos, dicionário e estojo de óculos vermelhos. Hora de ir fazer o sorvete. Trocar de óculos e acostumar à vista.)
Dia 12 de Janeiro de 2018 19:45

Larguei-me, não porque precisava descansar, mas porque olhar a moldura da janela, com a textura tramada sobre as pinceladas da nuvem parecia cobrir meus olhos de um tecido, fino, leve, eu desejei não estar aqui, não viver assim, sobravam-me pequenos resíduos de aroma da banana que eu caramelizei com glacê de limão, segredos meus em gotas, e uma xícara de café, neste momento, já não sei a cronologia.

Eu precisava me dar uma visão, a música de fundo, eu deixara em Max Richter, acomodei mais ao lado direito, a dor esquecida, os pássaros na gaiola da vizinhança, talvez o cacarejar do galo resvalava na montanha, de tão alto, que afugentava as andorinhas que me cercavam a coisa de cinquenta metros acima, fazendo seus mergulhos e investidas na tarde de ontem.

Eu estava e não estava intrigada com o que me ocorrera na noite. Estava claro para mim, no meu ponto do caminho, em cada adormecer fazendo um capítulo a mais nesse conscientizar, e abolindo análises superficiais a que me conviera, porém a cada vez mais, nem tudo parece ser o que aparenta, os personagens estranhos transeuntes de um tempo parado sem esfera de momento, e procurei substituir meu momento por outro, como se assim pudesse ter as rédeas, imaginadas na minha mente, enquanto o furdunço dos pássaros de gaiola se avolumava, como se eu estivesse dentro da gaiola.

Eu ainda estava recordando o sonho, o estranho momento que eu entrei em uma espécie de loja ou um colégio, um anfiteatro com uma banca de examinadores, mas no sonho, era um centro espiritual, como se eu quisesse conhecer novas razões para acreditar.

Havia um senhor em pé, com nariz esguio e protuberante, boca cortada em linha severa, idoso, magro e alto, um olho examinador atento. Alguém disse que uma presença estranha negativa estava entre a gente e todos passaram a me olhar, acusando de ser eu a portadora.

Eu gelei. O homem olhou ríspido ordenando algo aos correligionários da mesa, e o seu globo ocular transfigurou-se em vermelho, com a íris inteira preta. Eu então, quis me evadir imediatamente.

Soou meu alarme interior. Eu me vi paralisada, e pessoas estranhas se aproximaram a meu lado, meu corpo flutuou deitado, e eles me guiavam para uma sala, com cinco macas vazias, de estofamento vermelho desbotado, sem travesseiros ou tecidos.

Um deles tinha uma luz saindo do dedo indicador, como se fosse um bisturi, eu erguida apenas a cabeça e imóvel no restante do corpo, percebi que eles iriam fazer incisões espirituais e me apavorei diante da sensação de que me transplantariam um pedaço desconhecido, que parecia ser uma bola similar a fogo, mas um fogo branco sem nenhum vestígio de amarelo ou vermelho na cor. Eu, pensei, vou sair desse sonho agora, estarei na cama em casa, no meu quarto, olhando para cima, com minha mesa de cabeceira à esquerda.

E sim, eu estava, o quarto escuro, eu murmurei o nome do meu esposo, sem conseguir me mover, mas sentia um núcleo, no centro do meu peito, com a temperatura levemente mais aquecida que meu corpo, com parte dessa esfera dentro e metade fora do peito, como se a intervenção não tivesse completa. Eu senti prazer com esse calor presente no peito, com um formigamento semelhante ao relaxamento na nuca ao ser tocada.

Muito estranhamente, eu fiquei quieta vendo a penumbra do quarto, em tons mais marrons que o normal, sabia o que havia por detrás da minha cabeça, e tentei me mover, sem saber se ainda estava sonhando, pois neste instante o meu esposo murmurou palavras ininteligíveis que eu achei estar conversando mentalmente com ele, mas logo achei que somente se me sentasse poderia ir ao banheiro e estar com o controle de minha consciência e estar no aqui e agora, eu pensei firme ‘aqui e agora’, e me sentei e levantei, vesti o chinelo, meio trôpega fui ao banheiro desenvolta, voltei e fui dormir com um resto de calor esmorecido e esvaído, me questionando o estranho acordar que tive, falei com meu esposo mas ele dormia profundamente. Pela manhã perguntei se ele me escutou e se viu eu me levantar, mas ele não se recordava.

Eu me assustei com o parecer assustador de ter em mim uma parte sombria, que estava sendo submetida a uma espécie de júri, uma intervenção inimaginável, com olhar que mais parecia do mal e analisando o significado da minha meditação, escolhi como sentido, o fato que há um lado sombrio que tenho que extirpar de minha vida e de minha conduta. Qual defeito é assim relevante espiritualmente não sei, mas por outro lado, nas fronteiras do universo sonho que constantemente aparecem seres estranhos e situações das mais esquisitas, nem de longe vistas em filmes ou qualquer coisa.

O que me pus a fazer na tarde, era saber conscientemente abrir a porta, uma porta invisível, que aparece no ato mais aprofundado do meu devaneio, e entro no sono, como se pulasse através do tempo, e entrasse num estado entre o exercício da imaginação, com um que acontece além do que produzo, mas como uma mescla.

Em meu entardecer, sibilava um vento inexistente, porque eu estava tão angustiada que não queria que esse sentimento avançasse sobre meus olhos e o céu, que eu recusei olhar.

Eu pensei, imediatamente na praia, uma praia ideal, mansa, sem similaridade com a praia que passamos o trauma, portanto, não podia ter uma encosta alta arborizada ao final do lado direito, e havia uma faixa de areia generosa, sem muitas pessoas.

A beira-mar era um cinza ocre, com brilho branco da recente presença da água, com o espelho da luz do sol de poente.

Imaginava meus pés afundando com a água da onda se retirando, os pés afundando com o corpo em titubear de equilíbrio.

Havia uma casa de beira desta praia, era minha casa, minha vida havia sido diferente, eu tinha essa consciência tênue, eu estava morando nessa praia, havia comprado uns dois anos antes, no litoral paulista, eu tinha tido uma trajetória de vida inespecífica, mas não a real, não estava mais casada, e havia reformado esta casa cuidadosamente.

Aplicara lixa nas janelas, para que eliminasse resíduos das tintas, revelando a madeira, com um rústico resquício das tintas do passado, preservando seu ar de anos 50, uma varanda aberta para o jardim que dava a praia, reformulara o muro e um portão de ferro, desenhado com formas curvas delicadas, amparado por duas colunas de pedra, e uma placa esculpida na madeira com um escrito artístico, enumerando o nome nesse lintel.

Desenhara canteiros rasteiros, com três a cinco plantas de maior estatura, somente uma árvore, todas as plantas, da famigerada lista do caderno verde que eu possuía, numa realidade mista que pulou um pedaço enorme sofrido da minha vida. Eu plantei essas espécies de flores brancas, trouxe caixas de mudas, rasguei os sacos pretos onde elas estavam aninhadas, sulquei a terra, reguei com orgulho.

A reforma ia de vento em popa, eu recebi a estante de livros que mandara fazer para a sala, que dava a esta varandinha, uma estante de parede inteira, alguns nichos fechados com porta de vidro, um compartimento fechado com porta de madeira. Madeira escurecida e encerada, tomava a parte esquerda, ao se adentrar e ali haviam confortáveis lugares a se sentar.

A sala de leitura estava pronta, decorada com incríveis artesanatos, cerâmicas brasileiras ornamentadas, uma mesa robusta de centro, com livros grossos e grandes de arte, a estante foi preenchida de inúmeros livros, alguns de sebo, alguns novos, de assuntos diversos, romances, ficção, poesia, claro, com alguns meus no canto superior envidraçado, em local pouco acessível, esquecidos, pareciam ter sido publicados nas últimas décadas do século passado. Eram de poesia. Não vi como eram.

Eu havia arrumado o móvel de mamãe numa sala de jantar unida (sem portas) a uma cozinha simples, tudo nos moldes mais naturais e com ar melancólico que lembrava o resto dos anos 70. Eu olhei aquele local, franzindo os olhos e tentando me posicionar numa vida postiça, uma linha de caminho no tempo fora trilhada muito diferente, e eu nem havia lembranças de locais de SP, nem pessoas especificamente. Mas sabia que era sonho, eu olhava através da vidraça para o mar, e aquele jardim sem pragas, e pensava, isso só pode ser sonho, mas esse cheiro de maresia, esse gosto do café com leite e natas. Eu nem gostava de natas!

Havia uma pessoa, uma mulher que cuidava do lugar aberto para leitura e dos chás que eram servidos, e ela lavava a louça, as xícaras que herdei de mamãe, o bule, a chaleira preta era igual a de casa, a lata de chá, era uma que tive e há anos acabou, mas nesse momento, esse reconhecimento dessa vida paralela começou a me perturbar como se fosse loucura.

Como se eu nunca tivesse morado na casa em frente a montanha, e tido filhos. Coisas assim.

Como aquelas reações de chacoalhar a cabeça e afastar pensamentos desconexos, continuei arrumando as coisas. Eu tinha uma casa contígua onde residia e tinha meu escritório de escrever, em uma saleta no pavimento superior, envidraçado, com porta lateral para uma varandinha aberta com balaustrada de ferro pintada de branco.

Uma mesa de madeira, com livros, luminária, uma gaveta com puxador de ferro trabalhado, que continha uma caixa com canetas diversas, cadernos e papéis de carta.

Tinha um quarto que dava para a mesma varanda, unido ao banheiro sem as paredes. Uma cortina de voil branca, bem fina.

Tinha uma cozinha aberta, feito rancho, no lado esquerdo aberto do espaço de leitura e chá, que eram feitas refeições comunitárias quando vinham grupos para passar a tarde lendo, com uma mesa grossa de madeira.

A Dona Sei-lá-que-nome que cuidava de tudo, deixava à mesa, prato com pedaços de bolo, os tarteletes que eu fazia às quintas, salgado e doce.

Eu mandara fazer uma prateleira vitrine, para a copa, só para guardar minhas latas de chá a granel, que adorava. Mas normalmente ficava em minha casa, de pouco espaço, mas muito ajeitada.

Minha casa era azul claro, já o ‘espaço’ tinha uns detalhes coloridos claros, e paredes brancas.

Dentro da sala havia uma fileira de quadros de herbário, com as flores de mato que eu adorava, contendo raiz, caule, flor. Uma era um dente-de-leão florido com toda sua aura branca, meio despedaçada e umas cipselas caídas, papel já amarelado e marcas da goma-laca.

Por esses dias, o céu estava promessa de chuva, a areia se maquiava dessa certeza, poucas pessoas apareceram, a Dona Sei-lá-que-nome toda aprumada, sentava na mureta que dava ao jardim, dava ordens ao menino ajudante que ia buscar frutas em quitanda de esquinas.

Uma senhora, gordinha, não muito alta, com cabelo à altura dos ombros, emaranhado com assopros de vento, olhava o portão curiosa, lia palavras no lintel enquanto decidia timidamente, relutante adentrar o jardim, em sua hesitação, balançava a perna direita para frente e para trás apoiada na outra perna, dando com os olhos nas roseiras brancas, com rosas passadas, pétalas voadas ao chão, pedras achatadas de caminho sinuoso.

Seus pés postaram-se automaticamente um ante o outro, espalmando a planta dos pés girando contra o chão em cilíndrico movimento dos pés, com delicadeza acanhada ao adentrar.

Perguntou algumas coisas à mulher que gerenciava o local, se dirigiu a olhar a estante desviando o olhar para os quadros de herbário, especificamente um, uma vitrine mais bojuda, contendo uma estrelícia seca, com suas pétalas da coroa retorcidas para baixo, mantendo ainda verde o bico da flor, sua folha da planta retorcida espiral, ambas fincadas em areia branca, neste quadro de dois vidros paralelos para guardar a planta tão voluptuosa.

Pôs-se a escolher um livro para folhear, se deteve diante de livro de fotografia, grosso, lombada negra grafada em prata, retirou esse, sentou-se, mas de olho no jardim, pondo reparo em um tronco de árvore caído escavado um banco para se sentar, na sombra da única árvore de fato deste.

Servido o chá, na mesa com seis cadeiras, não havendo ninguém mais além dela, da Dona Sei-lá-que-nome, ela questionou o que eram aquelas ‘empadas’, sob olhar de censura da mulher, que a corrigiu, são tarteletes, feitos pela Dona do espaço, uma escritora, que passa temporada na casa ao lado. Normalmente não interage com as pessoas do espaço.

A mulher, sorvendo o chá, segurando um tartelete, mordeu um desses pela primeira vez, e seu rosto com um sorriso de boca fechada, assentiu com os olhos.

Havia um tubo conduíte, cuja extremidade, dava de uma casa à outra, na ponta, tinha um acabamento com um cone pequeno e furos redondos, onde se podia falar de um lado a outro, na cozinha, e havia uma sineta, era recíproco, para chamar. A sineta tilintou suavemente, e a senhora encostou a boca e perguntou: Pronto?

Eu, com uma voz suave, gutural um pouco enfraquecida disse: Oi! Ainda tem um pouco de chá? Estou meio indisposta, já chegou a chuva e achei que seria bom.

Ah, sim, claro, quer que eu leve? Ou quer vir? Tem chá e tudo mais de sempre. Tem uma pessoa, mas a chuva apertou, ela teve que esperar. Tem clarões de raios.

Houve um silêncio. Aquela hesitação no ar, a mulher de sobrancelha erguida esperando uma resposta.

Coloca uma xícara por favor, e eu pegarei ali na porta.

A mulher sentada agora na sala folheava o livro de fotografia, mas olhava de tempos em tempos ao redor, tentando saber se veria a pessoa.

Passados cinco minutos, ouviu-se um estalo, a maçaneta redonda girou, seu desenho denunciava, apareceu uma mão estendida, que amparou a xícara sobre o pires, e no esconderijo das sombras vislumbrava a pessoa lendo o livro, com uma sensação estranha de reconhecimento.

Porta que se fecha, som pesado da chuva, pássaros piando, alvoroçados pelo vento? O som de subir os degraus, uma sandália de couro artesanal, estrilando contra o piso frio de pedra granulada, degraus encerram a cena, o som dos pássaros aumenta, aumenta tanto que ela perturbada diz a si mesma, terei que acordar agora, ‘aqui e agora’.

Abrindo os olhos, com a aba da janela a bater contra o batente, a tarde reluzente de cor cinza, super cinza, na mesma janela de sempre, frente a montanha, o sonho acabou, e na mesma hora entendi que emendei meu devaneio ao sonho, enigmaticamente parecia estar na condição de espectadora de ambas as realidades.

Um estranho ar me acompanha a cabeça, era uma sensação de relembrar em segundos a vida real que tive, quem era, quem seria, e como a vida poderia ser tão diferente com uma mudança de rumo milimétrica em algum tempo.

©Mara Romaro

\e.n.c | para os diários do absurdo, ou uma coletânea dos diários do Universo Paralelo.

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