Diário do Universo Paralelo – Dimensão da Incumbência [6]

Dia 27 de janeiro de 2018. 10:30. Retiro das fontes. Sábado.  Waves – Max Richter

Este é um momento real, um vento que se afasta do solstício, há um farfalhar mais eloquente, as formigas voam e caem sobre mim. Isto é realidade, a sensação profunda das minhas limitações, meus cabelos desobedecem, meu sentimento acerca do sentimento. Isto não é pele ferida, mas uma sensação de múltiplas coisas, necessidades, ambições, ardência e convulsão.

O chão de caminho é assentado de pedras esguias de mesma matéria dos paralelepípedos, concede a amplitude do campo, a temperatura proferida do outono, libélulas pousaram no meu caderno, estavam acopladas, uma árvore, nada mais era do que uma música, de sinetas que chacoalhavam.

Ei!  Hoje aqui e agora, penso nos profundos abismos, o que são, significam e por que não pude os transpor.

Quando eu desejei uma segunda chance, eu pensava, deveria ser assim. Deveria tanta coisa, que não possuía fim, essa conjectura me pode certificar que além de todos os aspectos difíceis e miscigenados, uma ânsia gigantesca configurava duas coisas, percebo agora: o tempo centenário e o sentimento obsessivo.

Entre as paredes digitais de uma breve amizade, certamente breve como a amizade inicial, ambas, em sua restrição inerente, essas paredes sólidas de muralhas feudais, são o suficiente para dar certeza do medo.

E o medo me agride o afeto. Sou espancada pela distorção.

No final é sincero admitir que minha falta de cuidado, minha persistência e sinceridade de  novo momento deram mais lenha.

Agora, o que posso ser?

O que as palavras podem realmente?

Por tantas vezes fiz da poesia algo de concreto a oferecer algo materializado, gerei ideias que personificaram ideais, mas não pode, me alimentar visceralmente com o maná que eu tentei colher do orvalho no amanhecer.

Faltou uma percepção, entender a língua das entrelinhas e das pausas do silêncio, saber que para aquela palavra, havia em si uma intensidade significativa por se tratar de algo tão recolhido à sua esfera coração e mente.

Eu precisava ter entendido, que a voz inaudível devia amplificar, aquilo que vazou do seu ar reservado significava muito mais do que minha ânsia podia degustar.

Hoje, o alento de um som, o toque imperceptível de um fio de cabelo que se desprendeu, eu deveria ter me regozijado das pequenas atitudes.

Contudo, o agora contém, uma essência concentrada, do que se soma, se evapora, de todo transpirar, das lágrimas secas, da saliva grossa sedenta, do sangue grosso, da ruga ou cicatriz do tempo e a consciência continua mais certeza do que a intuição, mais cobrança que o não cumprimento do dever.

Há a certeza, a visão do horizonte agora, com céu claro, nuvens no deposto longínquo e algodões esticados estirados em rarefeitas nuvens acima das copas das árvores. Essa certeza é que há uma incumbência, mais de uma, aliás.

E talvez seja uma delas nunca possível que ainda lança essas chamas a me queimar. Aquilo que está impedido por todas as barreiras, tempo, lugar, distância, querer, poder.

Tudo não é somente loucura, é algo simples, depende da predisposição, fé e conhecimento. Depende com quais olhos vai olhar.

Eu sei em mim, que preciso me ligar, através do meu cordão umbilical a uma luz divina que me apazigue a orfandade profunda da alma. Da alma.

Eu entendi que ao dar amor, demonstração valorosa de amizade poderia de alguma forma levar o amor simplesmente no voo da borboleta até o orvalho da flor.

Achei que tivesse feito. Houve um momento que quase senti esse êxito, mas a dúvida do distanciamento, e do fato que tudo nos carimbos nos selos, podem não ter chegado ao destinatário.

A sensação de mensagem em garrafa no mar atormentou as noites e os dias.

Já em certo momento de minha tormenta infindável, tanto que pergunto a D’us:  Por quê?

Não arrefeceu a sensação da incumbência. Há algo que da minha parte preciso ainda dizer? Talvez. Aliás, sim, as cigarras me respondem afirmativamente.

Enquanto escrevi o Diário do Universo Paralelo surgiram contos do absurdo, os devaneios, as fantasias e os sonhos e as conversas com o inconsciente e o próprio Universo Paralelo.

Quero induzir um ensaio, uma conexão espiritual que me certifique, nesse campo me surge uma lembrança de um devaneio composto de uma ânsia desesperada com o final de nossa vida.

Era talvez manhã, talvez uns anos adiante, uma década, ou um infeliz acaso. Ela, a mulher estava no hospital, numa cama, seriamente doente. Sua família nas suas ocupações demandando algum momento a ela.

Neste momento, a mulher percebe o fim do trilho, sua caminhada só, com os bolsos vazios, suas mãos procuram carta. Ela gostaria de reler uma daquelas e através de lê-las ter um alento para sua incapacidade de ter sido no mínimo adequada, no mínimo respeitosa.

Era um dia calmo, ao abrir os olhos para sua doença grave se deu conta de um desespero latente e da incumbência urgente de rever e ficar em paz com desafeto de alguém. Não pode postergar mais.

Mas se houvesse a recusa? Tantas vezes recusou tudo em relação à mesma.

Estava inteiramente no efeito de remédios, mas queria o seio de sua casa, o alento das pessoas, umas que já partiram.

Será que ela ainda está viva?

Pediu contato, falando com sua filha, cheia de expressão de preocupação e descontentamento. Porém acatou e foi pesquisar e buscar achar o desafeto.

Apesar de fraca intuição naquela fase da vida, ela a pessoa que fora largamente rejeitada, estava resignada com sua família, com suas poucas possibilidades.

Se assustou e o lodo remexido e ferida reaberta. Lembrou seu sinal de alerta que falta algo.

Não é o simples reencontro. Nem palavras de carinho.

Ao se reverem ficou claro.

Era o cuidar.

– Eu poderia cuidar de você se precisar.

Equivalia dizer: – Eu teria cuidado de você naquele tempo.

Isso precisava ser dito, olho no olho, sendo ou não sendo, não importa porque de fato, até sempre o elo de filha está fundido na alma dela.

E olhou com amor calmo, um pequeno alento morno de alívio iluminou os rostos. Pelo sim, pelo não, digo, agora, nesse momento real aqui, no jardim esquecido, onde sou uma pessoa sem meu pai e minha mãe, que me fizeram ir por todo caminho com minha vontade, minha honestidade, sem eles eu me ressinto nessa falta de uma mãe, alguém que pelo ponto de vista psicológico elegi, mas me recusou mesmo que sua vontade mais íntima fosse outra.

O agora, o que abraço é o fato de eu ter três filhos, muito desejados e amados, eu ser mãe com esse peito aberto ao que vem, ao que aparece, esse é o tipo de amor que quero para mim.

©Mara Romaro

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