Céu rasgado

(26/02/2018 15H)

Estou tentando ser eu
cada dia sem as vísceras do que me comeu
Estou tentando seu eu
em céu rasgado, em noite resfriada
sem café respingado, ou uma roupa mal costurada
Estou tentando ludibriar meu eu
Fazer de conta que não sou nada
ou que as contas eu possa entregar
como cartas de céus rasgados
um perfume que jaz decantado
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Diário do Universo Paralelo – Magnificência de Polaris [8]

Diário do Universo Paralelo – Magnificência de Polaris
Dia 26 Fevereiro 2018. 11:58H.

Por diversos dias, nesse exercício empírico imaterial, por vezes eu me vi confusa, o pensamento girava com as informações e se desprendia da última adriça, eu percebi a necessidade de registrar os detalhes, antes que os esquecesse, algumas anotações foram em garrancho para um caderninho minúsculo para minha preocupação. Comecei a recordar algumas coisas pelas quais passara, não houvera tido o cuidado de anotar devidamente o ocorrido, serviria para me esclarecer agora. Eu me programei para datilografar na velha máquina de meu pai, para isso não constar em uma mídia, porque somavam-se vislumbres que de certa forma perturbavam.

Por outros dias, estive lendo assuntos antagônicos, o lado da psicologia sobre Sugestão Read More

BeijoTe

BeijoTe

|23 Fev 18 12h | Música: Marisi – Cantoma, Anew – Ed Carslen | à meia voz, à meia luz, à meia-noite

 

No leite morno da noite

                         uma calda debruça

                                me olha dentro

               de uma folha penumbra

um lacrimejo gemido destemido

     nas minhas orlas manguezais

Lençóis de nuvens – Canção de ninar

Meus ouvidos acariciados como couro de bumbo

e grunhidos das águas areais

Minha borboleta rubi pousa nos cílios

sem encostar a nuca

BeijoTe                         em linha de contorno

BeijoTe            sussurros de concha acústica
Pés de borboleta

Sou farfalhar de voo macio

Planta aos pés do ouvido um arrepio

Águas correntes – Fios tonalizados de crepúsculo

BeijoTe  a superfície da água de cabelos escuros

Argila não se molda à mão

Uma atmosfera distante

Percorrida no trotar do trovão

Clarões noturnos insones

_                      Bolhas de sabão

BeijoTe                 o calor        das           mãos

o desenrolar do antebraço

o soluço        do    cotovelo

a nascente    do          peito

Em uma febril sexta estação

redemoinhos das caldas do sono

borbulha etéreo

esse amor

EvaporaMe suores de desenhos

sedimenta o alto céu

de sementes brancas

Meus lábios despetalam-se

voam bico de beija-flor

BeijoTe     de   amor

Canto em quatro vozes do rouxinol do coração

Dessa febre convulsa

Nascente as salivas te ofertam presentes

vinho de úvula

acidulante de poeira de lua

BeijoTe frescor hortelã em folha

as esculturas torneadas

que sustentam seu olhar

Repouso a curva à beira do abismo

dos desenhos sinuosos

o amendoar desse círculo brilhante

que traga a fumaça do meu amar

BeijoTe   espelho d’água – submirjo

_  encontro os reflexos fossilizados

_              no âmbar de mim mesma

BeijoTe nas imagens que te farei enxergar

Aninho o pé com as mãos

Levo um pulsar

Boca nas pontas macias do dedo

_         irão tocar o pisar

_  andar dos dias e a represa de sentimento

Minhas mãos aninham

esse corpo de flor

sorrisos de brilho

das matizes desse calor

BeijoTe

Penetro o jardim secreto

de grama japonesa marsala

Um canteiro em ferradura

nascem lírios brancos

da espuma das salivas

Uma coroa de copos-de-leite

plantada em hálito moreno de café

BeijoTe             e transmuto as cores

A uva rubi macera vinho

metamorfose dos mares

esse encontro de labaredas

de líquidos de comunhão

BeijoTe       Transpasso o chão

presa em labirinto

das cordas vocais do violão

neste licor me embriago de ilusão

Nessa abóbada celeste

constelação de flores

os desenhos de tormenta

se depuseram em pó de giz

no carinho da minha mão

e como eu amava Completamente

auscutava essas batidas

ritmadas no atabaque

abafado dentro do peito

E uma emoção serena

_          tão serena como esse crepuscular

BeijoTe meu amor

sem te enxergar

porque misteriosamente escuto

essa música sonhada do som

_                  das suas palavras

©Mara Romaro

Verso da Folha

Neste poema faço uma analogia visceral com diversos simbolismos que traçam as linhas desenhadas na noite, das ânsias, eu queria que o texto fosse simultaneamente completamente delicado e exprimisse a voracidade da ânsia. No texto as representações visam identificar cada parte do rosto, corpo, detalhes que o beijo toca. A música referencia a melodiosa voz humana, um som capaz de dar personalidade e tocar com sua vibração. Eu faço referência à cerâmica, na verdade é objetivo de um outro poema, mas que dá a impressão correta do pressionar da pele em seu querer.  As tempestades noturnas são parte da mesma sinfonia desse ato, e como não existiria uma estação climática que pudesse representar o tipo exato desse calor delicado, nem mesmo o veranico, cito uma sexta estação fazendo o paralelo com sexto sentido, dado que estou falando em termos imateriais.

O desejo de estar acima de todo esse mundo, ser como uma poeira de leite, e o despetalar, demonstra o envio desse gesto. Seja no voo, seja na luz de um raio, seja na cor da nuvem, seja no tom do céu, de dia ou de noite.

Certa parte do poema, ele se centra à boca, em seu interior, representando o ato como uma comunhão entre as pessoas, dos sentimentos representados nos elementos de um jardim, tanto para as partes como o sentido.

E nesse devaneio o abismo me envolve em seu limite máximo.

Há o beijo relacionado aos olhos, ao olhar, a apreciação da vida, e a imersão das almas envolvidas nesse tocar completamente etéreo.

O beijo se transpõe aos membros, fazendo-se existir no toque do carinho.

E  que não enxerga é olhos fechados, mas também todo universo existente para dentro dessa porta, e tudo que se sente acaba constituído de uma verdade real interna.

Desespero da bolha de sabão

(15 fevereiro 2018 14 – 14:48 H)

O respirar não tem seu gosto
Há uma maresia calada
Uma frieza de lâmina guia
Tenho olhos absorvidos em uma pedra
Derretem em noite de prata

Oxidam na manhã adormecida
Tenho surdez do cotidiano
Uma esfera de lucidez
cresce em uma bolha de sabão

Assume suas cores perdidas
Sua fronteira é cântico
do tocar de sua mão
Bolha estoura o caviar de emoção
Desejos passam
nos dorsos coloridos de cavalos marinhos
presos em um carrossel invisível
Voando um céu impossível
O céu manto do seu lençol
Quero ser mão de verdade
E meu caminho ser linha da vida
Estirada nas palmas
em asas de almas
em dias salvos
das dores da sua falta
Quero estar na sua boca
ouvir arpa vocal
Ser o som mantido sublingual
Desejo saber o tom
do sangue quente
Eles podem se dizer tudo
no transcorrer bombeado
da cabeça aos pés
em uma gota de pacto
Coração despedaçado intacto
Preciso, sempre
que me cubra
com o prazer de tudo que dei
Serenidade esquecida
à tarde marina
ao luar do farol
em cama de cetim das marés
um colorido de água marinha
pincelada com minha língua
dos rostos encontrados perdidos
no capuz de sonhos
Sinta minha boca
em batom vinho
na poesia recitada
dentro dos seus olhos fechados
Na maré mansa da hora desafiada
embarque nas vitórias régias
cubra-se dos seus tecidos
deixe camuflado os beijos antigos
Dobre com os dedos músicos
Envie em envelopes de papel
Os perfumes destilados para mim

Preciso
Sua voz baixa
sombra de vulto sob cortina
voz indecisa
que me fale língua sibilante
injete antígeno
Teça bordados na cicatriz do seu pseudônimo
Preciso
do espalmar, do nadar, do contorcer,
do voar, do prender, do bater,
do gostar, do poder
Preciso do seu ser

Mara Romaro

Carta Nascente

Carta Nascente

Dia 13 de Fevereiro de 2018. 14:45H.

Minhas pontas de dedos roçaram o teclado por um tempo procurando um rumo, desde um tempo, uma nascente emergida, não esperava ter que pensar em conter essa água, que nada tinha de ferruginosa, embora eu tentasse encontrar vestígios lodosos para poder enterrá-la.
Não, as coisas na vida tomam seu rumo, por vezes respondem à nossa vontade, ou de
alguém, e por vezes, correm sozinhas, na manhã recém-nascida, nota-se o vestígio das cores da noite, nota-se a vontade do dia, que nasce, intensas cores quando as janelas do Read More

Diário de navegação – navegar [1]

Diário de navegação – navegar
12 de fevereiro de 2018. 11:45 H. Pç do Retiro | [1]

 

Hoje, cada passo reverberava o som do pisado, em uma dor esquecida, nas nozes do sacro, nas nozes da cabeça do fêmur. Ainda recordava dores lancinantes, do coração
queimado na fogueira da noite, hoje eu teria de recolher pepitas de carvão, quem sabe serviria para marcar meu caminho perdido.

O pica-pau catava coquinho, eu escutei seu piado, era diferente, cada o é.

Os coquinhos caídos, minhas lágrimas sangradas, uma tristeza continuada das mãos Read More

Diário do Universo Paralelo – Regressão [7]

Diário do Universo Paralelo – Regressão
Dia 31 de janeiro de 2018. 16:16 a 23:47 H. [Desenhos por Mara, caderno sketchbook, grafite kooh-I-Noor, lapiseira 0,5 e gravurizado à nanquim chinês em poucos traços.- recordações colhidas nas sessões.]

Sabidamente lido com meu inconformismo, lido teimosamente, talvez até estupidamente. A questão é que uma substância corrosiva, impertinente me alcança, talvez um ser que se alimenta das vísceras, talvez uma substância radioativa, fato que encontro um marco na vida, o qual já refleti quantas esquinas poderia ter dobrado para não chegar a ele.

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