Diário de navegação – Libertação [2]

27 Março 2018. 19:32 H. Chuva. Latitude 23° 07’01’’ S, Longitude 46°33’01’’ O.

Incomum precipitação vem-me de encontro, como último assombro em retração das fibras apodrecidas das amarras, e os nós com esgotamento dos fiapos mais resistentes restantes na trama retorcida da corda mais antiga e mais longa, que me impunha peso e tensão.

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I – Castra Somnium

I – Castra Somnium

|22.08.2008 0:01 h.

Durante a vigília dormente, a porta da casa mágica se entreabre.

Ouço os filhotes dos cães, dezenas que escorregam pelos pés torneados do aparador, ganindo e mordiscando uns aos outros. Trôpegos em suas patas inábeis capotam e tentam arrastar o tapete fortemente preso sob o sofá.

No chão da cozinha há uma lajota branca madreperolada que se aleita, em líquido morno e todos os cachorrinhos se põem a lambiscar, espirrando gotículas de salivas de sorrisos caninos.

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A meu lindo e amado filho

Meu lindo e amado Filho, Lincoln,  para mim você sempre foi um milagre na minha vida, mais ainda pela pessoa valorosa que sempre tem sido, não conto mais com manifestações materiais, mas minhas energias boas, hoje são para você, para que se fortaleça como um rochedo, que se alegre como pinguins e filhotes de avestruz, que seja justo como preceitos que nós temos convicção, que seja amado, por todo carinho que nos
tem dado, que seja amigo, por tanto apoio e compreensão, os quais são alicerce de Read More

Lago verde

|22/03/2018 12:27

Vens, querida raiz de musgo, visgo oculto em uma vida própria serpenteada. Tão linda vida.
Os mistérios me envenenam de estranhas fumaças, na noite, nos ares carregados na palha no bico de garça.
Mistérios em tapetes persas, em águas que fogem à temperatura, elas contrariam o curso natural, se esverdeiam, se espalmam, conversam comigo na noite de mistérios.
Eu tento pegar seus brilhos, minhas mãos tocam paredes escondidas das costas revestidas por um robe atoalhado. E sinto uma textura morna, quando estendo dedos de
lamento.

Sinto meu rosto adentrar um lago vertical, rosto a rosto, águas do limiar vencido do meu viver, um viver sonâmbulo num concreto chão que se perdeu da gravidade.
Vens, apenas me deixo a ouvir o som do deglutir, eu sinto essas raízes que invadiram meu conseguir.
O dia sem horário, as coisas que transitam inúmeras, em algarismos riscados da ilusão.
Vens comigo, em meu toque imaterial, vem um pedaço do que restou de coração, ele se esqueceu nos pensamentos que presos pelas parasitas dos galhos, se revelam quando vestidos de prata.
Vens, como chuva, afogar todas as roupas de fibras imperceptíveis do meu viver, viver estranho dessas raízes ocultas de dor, de amor, de vida.
Vens como um rosto que se forma em entalhes, como um corpo que emerge dos mares, como uma raiz que se arranca e era um pulso de rubi, e todas as outras que eram flores lindas a nascer ao sol de um dia, a acontecer. Seja como tiver que ser, até mesmo uma raiz morta brotará.
Em meu viver, o depois me trouxe o antes, agora sei, o corpo do corpo do corpo, do todo, ou quase, do acontecido, do amortecido, do escondido bem no fundo das seivas desidratadas do núcleo mais importante da árvore, bem lá, onde poderia nascer verdade, nasceu o incontível, e o que era invisível, aflorou nas águas, nas pedras, no ar, no sangue, no peito, no cérebro, nos ninhos, na doença, no vigor, na intensidade, na idade; na verdade será?
E visível, palpável, morno, quente, incandescente, luz de sol, sorrir, amar, viver e morrer, ali, inerente, mais do que intrínseca dor, há o teor do sal, o milagre da água, a vivacidade do ar, o gosto do metal, e a temperatura com o tamanho que define, o que posso dizer do amor da minha vida… infinito.

Vens, não me sinto completa sem tocar de verdade. Mas os sonhos se encontram, se enamoram de olhares, nas águas que desaguam, em mesmo lago, em mesma foz, em mesma palavra não pronunciada, vens, como flor, que em vento plane, voe e recaia nessa água, e a raiz deixará em paz tudo que ainda nem se saiba, nem tenha sido revelado. Que as ânsias mais enterradas, sejam vivas. Que os desejos mais ignorados sejam verdes, tão frescos e lindos, nesse lago pairado, o momento sublime da vida, essa imersão do amor, que é o nutriente do ambiente mais reluzente, e as coisas maravilhosas, realmente então poderão ser livremente.

Vens.

©Mara Romaro
Para meu amor

Agonia

Impossível julgar a agonia alheia, algumas, as que são agonias de fato, só a morte pode com elas, ah, s’fossem roupas, s’fossem um machucado cicatrizante… E a pior surdez, é seu próprio grito emudecido e arrancado com mãos como se fossem ervas, e não cumpre seu aviso, seu desalento infindo. Assopro de vela, teia para borboletas, e no fundo a pior noção de sua consciência, que faz o sangue se converter em pedra.

17 mar 18

Mara Romaro