Diário dos dias nebulosos – Condensação noturna

| 26 de fevereiro de 2019 | 12:58|Músicas: Path 17, Dream 0, The end of all our exploring, On the nature of Daylight – Max Richter |Ida a Joinville, dia após a lua cheia

 

 

Deslizavam o chão, as árvores, as luzes, como rastros intocáveis permaneciam em um átimo, entre uma fala que se abafava longínqua, em pequenos ecos desapercebidos por detrás da cortina de tristeza. Minúsculas gotículas alteravam o vidro em sua transmissão.

A lua então se calara. Rosto que me sorriu decrescia os tempos, retroagindo os momentos recolhidos nos rastros de pneu que porventura meus olhos percebessem que se formassem.

A noite me recebeu, sem braços, sem morno xale de finezas, apenas um soprar cortado dos ares na estrada da ida, em constelações que murmuravam seus pedidos em desejos, da visão mais impossível, com aquele aleitamento lentamente recolhendo os espíritos do hálito da voz lunar, ainda reverberava últimas sílabas e timbre apagando-se em reflexos amarelos pálidos.

Adensava, no temor das cumeeiras de serras entrecortadas, por lembranças quebradas em vidros, filetes de brilhos ofuscados, no fugidio ar gotificado.

Em libação evolada, partículas se reuniam e se abraçavam em brancas fumaças, como vestes de anjos se movendo em outra dimensão de tempo, em passos de nuvens, e aos poucos sua presença ia se ocultando por trás dessa névoa, de uma espécie de mar revolto parado, sabia que ali navegavam os ares, ao lugar mágico infinito; ia, deslizava, mais adiante do que minha vida e meus olhos poderiam alcançar.

Então essa presença, sem precipitação, ainda suava os vidros, nossos portos de desilusão chegavam-nos e iam, nos acomodávamos sem saber grau da dor, sem saber o começo e fim dela, sem caber o firmamento.

Água e um leite morno, um olhar macio de amparo, para todas nossas mãos inábeis caídas como galhos, estrada sem flores, estrada sem nada, apenas o céu que em mar nos afogava, as palavras proferidas em automatismo e as pupilas desfocadas.

Em um túnel de infinito perseguimos a luz oculta, os passos dissolvidos na condensação da água do mundo, e todas as coisas sólidas porém ocas, num profundo vibrar em denso som do tempo partido, dos prantos colhidos, brilhos ósseos fraturados, em nossas bocas secas e olhos furados e vazios.

Deslizamos, à sombra da luz, à margem da silhueta das roupas sem vulto, no caminho do adeus profundo abafado na neblina condensada na meia-noite à deriva. E o ser correu, se afastou, afundou-se na névoa condensada, sem breve, sem cabeça voltada para trás, sem decifrar o semblante, sem reconhecer o andar, o sorrir, o perfume, o olhar, misturada à uma neve líquida fervida, desapareceu-se o encanto, a alma cativa, as mãos dos gestos, a ternura mais querida.

Houve o momento mais perene que duradoura noite, nos chibatando os suores e os encantos, nas paisagens mortas e esse manto condensado de algodão, era o que meus olhos apercebiam, de um encanto olhar de víbora cobra, numa trajetória na qual nos deixamos levar inertes em nosso exasperar e exaustão. A exaustão essa que se plantava em solas dos pés, nas barrigas dos dedos, no músculo do enfoque do olhar e em nossos membros. Vestimos a cegueira fresca da noite, por momentos de chuva de cristal, ora orvalhos não mais intactos. Até que no final, sem mais veículos, nossa solidão comungava os fatos, entre nosso silêncio sonâmbulo, numa busca inexata e malograda, porque queríamos nos agarrar a uma imagem refletida, que ora ocorrida estava esvaziada e irreconhecível, como os lumiares estranhamente boreais, nas nuances dançantes, alegria revoada içada nos oceanos pairados nessa bruma adormecida.

Uma cor pasma, uma cor apagada, acordava, que na última parada, mal-estar me arrefecia, bem longe na margem baixa do horizonte, nascia, em pequena brecha dessa cortina que nos separa. Adaga viva de fogo brando contorcendo-se ao inverso do fogo, uma espada de luz me cortou o pulso de agonia, numa estranha promessa, a luz prometida, lugar de âncora, de mansidão enternecida, com olhos marejados e sombrosas olheiras fitei o sangue dessa voz calada, ainda morna e fria.

Dia que nascia nas fronteiras de nossa despedida.

Uma brisa descabelava, pequenos fios recordando vida, uma luz pintava as maçãs e a revoada acordada de libélulas de luar vítreo, com uma espécie de encanto hipnótico, como beleza de mágica distraída.

Por um instante, estava em casa, estava em mim, tudo era calmo, tudo era o antes, mas era um instante ilusionista pelas mãos prestímanas de algo absoluto, a nuvem logo ali oferecida.

Como oferenda de nossos prantos e rogo aos santos dias já idos.

E meu reencontro com esperança, não se desenhou, não amanheceu, não se projetou de sombra em árvore, só o vento que cortou e nos fez ouvir a fratura de nós mesmos.

 

©Mara Romaro