Diário dos dias nebulosos – Precipitações

| 01 Março 2019 12: 20 –  14H ininterruptamente, correções 14:30| Estímulos: observação chuva em momentos longos, chá, cotidiano, música e áudio 20190222 shabbat* | 22 graus célsius, chuvas intensas em dia chuvoso continuado de ontem, tempestades alternadas com chuva branda e pequenas interrupções. | Mezanino. E.D.N.C.| Músicas: My Silent Mystery – Tigerforest, Loud – Tim Hicks, Vulcano – Francesca Michielin,Tonbko – Nyusha, Nazreh Mili –kaya project ,The love dance- Mystic Diversions

 

 

Fez um silêncio do rugido das precipitações. Um hiato onde as plantas espreguiçaram. Pétalas derrubaram de si as gotas excessivas e as corredeiras minguaram deixando ainda um rastro de partes de plantas e resíduos vestidos de grânulos arenosos de terra ferida.

Ainda no crepúsculo da noite emudecida sem luar, um céu esquecido, a escuridão em uma espécie de espelhamento da voz apagada do ser que se diluiu e desapareceu, refletia luminosidade lúgubre do luzeiro sem ilusões, distraído em seu próprio aquário estava em meu lumiar branco amarelado, da casa no momento do jantar, a mesa de toalha esticada, olhávamos silentes nosso pão dormente, ele cortava cebolas e eu lentamente dançava colher pequena a capturar um mingau grosso fora de ponto, com as pernas estiradas diante da mesinha de centro, vendo desfocadas as imagens de TV sem perceber mais nada, engolindo com dificuldade, tentando pensar na dor da perna não no meu coração. Havia uma temperatura morna refrescada, as janelas luziam a montanha vestida de nuvens baixas, e era um momento de estiar da chuva fina, que me acompanhou os serviços da casa, me observando meu desalento e atrapalhação.

Extenuada, não me cabia mais desalento, esquecimento, andar em círculos, cansada do sumo do cigarro, do rangido de abrir de portas, do meu cabelo esquecido em despentear mechas sobre a testa e face, lágrimas que ressequidas rolavam como grãos de areias ao chão lustroso no ar perfumado das roupas que secavam na ilusão de sombra.

Havia um resto da sensação de abrigo, que tanto me aprazia, de um teto sobre meu infortúnio, a expectativa de um ar que me abraçava, e de um prazer estranho que me fazia sentir poder de não estar no relento da chuva da vida precipitada sobre a cabeça como pedregulhos rolantes do céu, ou meteoros apagados, ou um cometa suicidado, que me perfurasse e de mim arrancasse. Arrancasse. Arrancasse mais um bocado.

Desejosa de bolos, de acalento de sentar lado a lado, imersos em nossos olhos caídos desse momento, me arrastei a dormir, ou o que o sono me doava a cada vez mais menos de seu olá, de seu manto azul morno de estrelas de cores novas que jamais poderia descrever.

A extremidade das telhas gotejava mansamente, enquanto eu me despertava todas as vezes, em cantarolar que avolumava, com mãos gélidas da real percepção e a sua própria imaterialidade, do esquecimento sem razão.

Eu rememoriava a voz, o riso, uma frondosa risada de cume das folhas em vento forte. Rememoriava enquanto poderia, pois logo na precipitação o som evadiria. Não saberia mais os rastros das enxurradas acabadas e apagadas por um sol que retornaria e o vento apagaria aquele caminho escavado, com seu esculpir cingido no meu coração. Assim a vida me moldaria como falésia, como rochedo que despedaça e se torna desfiladeiro alto e intocável, com árvores que nascem sobre ele sem nenhuma mão que as toquem ou as ameacem.

Na madrugada nos goles a sede me retorceu, e o estampido do choque de grandes pingos socados contra o chão em estampido de uma explosão frusta, eu perambulava com pernas de pano, sem firmeza, na escuridão roubada de uma pequena lâmpada, com o seguir dos olhos e orelhas felinas, a porta de vidro me impunha a solidão suprema, nos ares enfumaçados da nuvem chorosa, com lágrimas incessantes e rugido de pranto na madrugada com um vento que assopra as frestas como flauta desafinada de alma penada.

Eu sentia o formigamento no lado esquerdo da cabeça, como mãos de dedos longos que me acariciassem os cabelos negros reunidos em madeixas onduladas e desorganizadas como água de mar. Sentia a água não desanuviar minha tristeza e a noção da falta de caminho para cada próximo passo. Abismo canyon com marcas sedimentares e cortadas das eras de águas precipitadas pelos milênios de ilusão de viver.

Uma cortina branca se formava da continuidade de queda d’água, transbordante calha de enganos, de meu tropeço, de minhas buscas e meu totem de verdade. A rudeza fazia meu rosto incrustado de aspereza e rugas do tempo.

Dormi, só pude abafar aquele fio d’água incessante, lembrando um colo que hipoteticamente eu construía como uma gruta de acolhimento, nos instantes mais abruptos da tempestade.

Tentando me distrair na hipnose dessa ilusória solidão abrandada, pulava pequenos intervalos da noite, conferindo os esbravejos da tempestade, inaudíveis pássaros de amanhecer, inaudíveis cricrilares afogados, inaudíveis respirações guturais, inaudíveis gelos cortando as vidraças, desenhando rastro de poeira roubada da tarde de verão.

Um chá fica prometido para a manhã, quiçá em abrir de brechas em luzes escapadas do desfiladeiro, trotando a descida da planície com o recolher progressivo das sombras da noite, em cor verde amarelada de alegre girassol.

A chuva intensificava nos braços mornos do acordar de voz doce e de terna compaixão, olhos e brilho cinza, furtivamente saíram pela porta, encostando delicadamente para não despertar minha dor, eu a apatia me comia viva. Cada pedaço já arrancado do coração, das silhuetas indecifravam no virar das esquinas enevoadas do dia que acordado sonolento em embriaguez lembrava as entranhas de bile congestionada em dor de estomago espalhada.

Sem vontade, engoli quieta os ponteiros gelados do relógio, como chocolate duro enrijecido, olhando sem foco migalhas caminhando nas costas de fileiras de formigas miudinhas, e na porta do quintal desfilavam gotas e gotas caindo das águas do rancho ruminando a falta de oportunidade, o decorrer do tempo nas águas que seguem seu destino sem aviso prévio, sem negação, um desfilar de memórias como gestos típicos e trejeitos característicos da singularidade de cada gota, como fantasmas, como entes queridos que me mandam gestos de lenços despedidos.

O cansaço me engole em leite gelado, gosto insosso e desconhecido, sem perceber do que passa na boca, nem palavras murmuradas dessa umidade que invade os tecidos da casa, pequenas manchas emboloradas nos cantos das paredes, um orvalhar miúdo no canto do vidro, água fervente de chaleira que encanta dança de bonecos indescritíveis na fumaça que se eleva com vigor, entre sons das borbulhas quentes, espirrando farpas de queimar o pensamento do coração ferido.

Após a saída do carro, o portão se fechou, encortinado pela chuva intensa, meu horror como um casaco grosso me revestiu, nas andanças baratinadas sem destino dentro da casa, com as coisas sendo arrumadas, mas esquecidas a toda mão, nada que pudesse continuar, a não ser as águas deste recém-nascido Março, antes cheio de luz, de inúmeras fantasias para colorir alegrias, mas agora, a chuva estrala o silêncio mortal de choque elétrico que percorrido nos tendões e músculos, deixa-os retesados e trincados, com um formigamento que relembra a vida pulsando as veias, as têmporas, o nariz que se arreganha aos aromas do vento calado, a boca que franze a dor do tempo, e a testa que amortece as luzes do dia esvaído no frio antecipado, arrepio dos braços, uma garrafa reluzente com chá quente, caneca com depósitos de açúcar sobrevivente da dissolução, os livros espanados, as janelas arejadas, mas o mais presente cinza dos dias do meu coração.

Longamente entre um gole quente, com florada de jasmim que tremulava entre meus dentes, ou o gosto pastoso da bolacha deglutida de farpas de coco, tudo me fazia um anzol espetando uma lembrança no pensamento, deste ou aquele espectro líquido de luz morna andando no ar da casa, com a luz elétrica que para e volta, com um barulho, um desabar inesperado, uma janela que é esbofeteada com rajada de vento de vácuo.

Só as precipitações podem dizer, murmúrios das almas amigas que não possuo. Só as precipitações podem me levar mansamente nessa lavanda, dores e ferimentos em soros purulentos das atitudes mortas, em ramas quebradas, em partes feridas de folhas, em poderosa força de continuidade me mostrar os caminhos dos vales, que florescerão.

Entre as páginas e pensamentos fugazes sobre os destinos do meu livro secreto, eu deslizava os dedos nas linhas escritas magistralmente, frases em elegante postura e andar bonito, palavra de som sorridente, pontuação adequada ao tempo que viveu, os dizeres precisos a dar conta de todos os lugares que pela minha mão me levou, nos meus recônditos pensamentos tentando conter o vapor das esperanças em bico de chaleira deposta de lado em parapeito de granito verde escuro, e os aromas tentavam me impulsionar os olhos para cima e frente, e voar, como ser efusiva, estonteante diante da beleza e fascinada na doce melancolia desse partir, os fantasmas dançavam em visões de correntes como água congelada translúcida, e meu ser despiu-se. Transparente ficou. O pensamento permaneceu vívido, sentado em roda de fogueira de deserto noturno, em grandes presenças florais e verdes encavernando meu caminho, uma montanha de pedra que a cortina é-se puxada e a visão forte, desse fortalecer e o poder de ensinar o aprender, tudo se enxerga ao longe e em sempre, no desanuviar da alma mais sofrida, que paciente se suporta.

Fez-se silêncio das águas. Fez-se um carinho de interrupção da chuva intensa. As águas pingavam miudinho e parando.

Ouviu-se então um piar, um cricrilar, um latido, um miado, o rosnar do meu olho de lobo, os dentes mostrando fibra, salivas contidas de olho vidrado, prestes a abocanhar a presa.

Ouviu-se um galho se curvar, a folha cair, o pingo descer corrente, a gota se soltar da extremidade da flor da ave-do-paraíso, a porta ranger, a vidraça do vizinho abrir, um tapete ser batido, um guarda-chuvas chacoalhado, as unhas do gato riscarem a telha quando pulou ao telhado, um batido de asas, o bicar do pica-pau no dorso da árvore, os pés da abelha tocando o pólen como grão de ouro, o passe de mágica a cortar os ares no voo das asas da borboleta dançando ao redor da árvore murcha e corcunda em folhas entristecidas, o farfalhar de cada folha da grama soltando as gotas e se arrepiando aos céus, a taturana dançando contorcida subindo na parede – se ouvia – ranger de meus dentes e o equilibrar da louça fina no antebraço de meu passo, galgando degraus dos novos tempos feridos. Ouvia-se, o ferimento se achegando de mais uma pancada de chuva, se aproximando como gato para atacar um pássaro distraído, ouvia-se estalidos dos ossos da coluna, das articulações dos dedos, desse despertar de força interior que ela tanto nos contagiava, dessa presença de alegria, desse tilintar de refeições em mesa rodeada de festivas pessoas e comedorias – ouvia-se, meu respirar aflito dessa consciência de trezentos e sessenta graus de um radar distante em presença do mundo, apesar da minha pobre vida, ouvia-se-me, esse murmúrio de estrondosa precipitação de pérolas de águas contidas, represadas da linda existência dos meus entes perdidos, carregados nos braços das águas, deixando na continuidade da precipitação, sua imensa sabedoria, essa dor mutilada de parte de si amputada, nessa sedimentação na planície com as cores lindamente sabidas.

Ouve-se a chuva, intensa, real, imensa, poderosa, curativa e destruidora, sentido sem sentido, caminho indefinido da vida, acachoeirada, destino misterioso elucidado no seu indecifrar.  Esse doar infinito, maior do que preciso, me recorda seus gestos, nunca retribuídos em suficiência de minha gratidão. Silêncio meu que ouço, as vozes que agonizam as faltas dos seres encolhidos e recolhidos nesse desaguar, águas, águas vertidas, foz e mar.

Ouço, minhas palavras, as coisas que não disse, as novidades, as coisas que nos falaríamos em conversa longa, por telefone, até que a orelha doesse como se tivesse a cair, por horas, em risos e falas entrecortadas, em tanta coisa que no fim de exaustão nos despediríamos já combinando de nos falar, eu chorava isso, ouvia essa sensação na chuva que açoitava o chão, meu ser deitado sob essas dores de granizos.

Que, na vida, as memórias são a consciência do vivido, e de alegria e dor, dor estacada em espada transpassada nesse coração de alma perdida, sozinha, nessa floresta de ilusão, sem esperança, tentando, tentando, seguir as informações ouvidas na estiagem, nas fagulhas divinas, luzes fugazes de encanto e esclarecimento. Que o esquecimento é o melhor antídoto.

Precipitações na noite que em dia se propaga, me encasulo, me recolho em meus braços, me agarro a voz terna de filha, me agarro a qualquer coisa que não me deixe levar, me agarro nos aromas da presença que perfuma a casa, mesma voz rude, mas mãos que pousam em meu rosto na desilusão, no momento dessa partida, me acarinha, me guarda no peito e no amor insone sonâmbulo.

E no primeiro sol que corta, as emanações da terra empapada de água suam vapores e dançam todos os fantasmas, junto ao meu âmago perdido de meu corpo. Ouço. Percebo a presença que se desfaz o encanto.

 

(c) Mara Romaro