Diário Officio Scribere – Braseiro esquecido na madrugada

 

| 06 Abril 2019 3:17 |e.d.n.c Embers Max Richter

 

Deslizar dos passos que acobertam raízes de encanto, ensombradas em fumaças azeviches, em uma janela com restos de luz âmbar. Os minutos deslizaram-se como brincadeiras escorregadias de infância, entre um abrir de olhos fustigado de dores, em um cansaço espraiado em visão alumínio, de espelho d’água de passos[1]. Uma valsa de violinos suave assoprava o ar parado em um feitiço da noite preparando em tacho a neblina menina amparada em meus braços, esse meu ser com olhos em pedraria de ilusões, nas lembranças empoeiradas sentada diante de uma mesa de madeira de lei, com uma tinteiro e folhas de fichário, com a presteza de encaixar os furos da folha em um par reluzente de presilha feito algemas de um conjunto solto de escritos[2].

Ao passar andando sem tanta desenvoltura, parei diante do filtro de barro, e amparei um filete de água em uma caneca esquecida de meus prantos.

Carregava a sacola com os meus cadernos vai-vem das horas estranhas[3], a música que talvez me valsasse, ou que me desequilibrasse nos degraus de meu desvencilhar debalde; certificada de que levara deitado um pequeno bloco com as palavras rascunhadas, recordando as recordações das minhas palavras dos tempos antigos, do cheiro da tinta azul Parker, da caixa com tampa marchetada que guardava coisas das quais nem me lembro e o som senil aspirado do arrastar de abrir da gaveta de papéis e sonhos que se punham a borboletar pelos ares em voo de libertação de cativeiro[4].

Assim me acomodei entre livros, dicionários que folheava em olhar vazio, na espera de um encontro, de um sinal dos ventos que anunciassem a chegada de meus milhares de dias enterrados na profissão errada, ao mesmo passo que me apegava de mim mesma nas linhas de caligrafia esquecida, as letras moldadas e cingidas de grafismos inexatos e volubilidade[5] visível a olhos nus, me perfazendo os caminhos agora cravados para sempre, sem um desvio que pudesse trazer de volta aquilo que não fiz. Nesses dias idos do ano que passara, nos meus desencantos eu buscava, rever as coisas antigas, de lembranças às melhores palavras aparafusadas na madeira sextante, nelas me refugiei a me propor motivação a seguir meu caminho errante de escrita acreditando sobretudo em precípuo dom, cogitando a beleza mais pura de som enfitado colorido desfraldado ao vento assobiado em flautas doces.

Sempre nesses momentos, me demando preparo, um rito eu acho, de me despir e vestir das palavras, palavras de grande sonoridade, de senhores da pluma esvoaçados no peitoril das mãos, seu voo centenário contado de suas visões e intelecto, que nessas cordas agarro sobre meu desfiladeiro[6].

E nas horas abandonadas da noite me reencontro, no relento de dormir ao redor de fogo desfalecido, nas cinzas dançadas dos meus sentimentos, nos corredores invisíveis de correntes marítimas, arrancando meu eu de mim, entre um olhar empalidecido das brasas inarrefecíveis pulsantes em piscar de olhos mansos de amor empedrado em rochas ígneas, em remansos lagos ocultos nas cúspides do tempo.[7]

Há um instante das nuvens das dúvidas dos caminhos da escrita, dos desejos mais arrebatados, na transpiração profunda nas manhãs congeladas do meu desespero, das ânsias como lindas flores de floreira de janela, ditando vagamente palavras de suas pétalas de vento, de orvalho que me pulveriza as gotículas da saliva beijada, do suor colado, do amor impossível evaporado nas abóbadas sem fim.[8]

Na modorrência ébria e encarnada, no ardor queimado flamejante, do cortar das chamas ceifando os campos de trigo em sua cantoria de movimento, como dedos invisíveis que os aprofunda em toque deslizado, delicado em arrepio.

O dia que acasala dos suores secos, dos vapores do amor embebido, de agonia linda e maravilhada, das horas do dia badaladas, das coisas arrumadas uma a uma, na vida completamente revirada em avesso, em uma bizarra reluzente armadura de gelo prestes a cair e quebrar, contendo sob seu vidro, as luzes imortais de braseiro perene do amor.

Andei, me arcando dos pesos, através dos tempos sabendo as escritas que não pus a mão a talhar seu encanto, tentando domar com alpiste os vorazes pássaros de uma ficção que afugento, com meu eterno vício de poeta bêbado caído de calçada em calçada, a catar flores nas frestas das ervas daninhas, e fazer delas cama de ninho, e os papéis mágicos de bombons descascados amassados, a darem como marcadores nas folhas comidas de lagartas e suas sedas me aprisionando no céu de firmamento.

Nas horas adiantadas da madrugada, as palavras embalsamadas em letras capitulares e meus enigmas insensíveis a minha sofreguidão de saudade, sangrada nas chamas ocultas no coração do braseiro. Cogito. Nas músicas dançam as estrelas em órbita de meu ventre vazio em sangue estancado, na visão imaginada, as flores floreiam suas teias, dão-se mãos entrelaçadas de dedos no amor permitido nas horas altas de cruzeiro do sul poente.

Preparo-me para me recluir em minha tugurĭum [9]na angustura adiante de planícies e antigos abismos[10], recortados em cores das floradas da sexta estação perdida em constelação que está por nascer.[11] Preparo-me, com a insistência ineficaz, que me faz perdida nos beirais escarpados na inclinação máxima da queda, presa sem asas verdadeiras de mergulhar. As palavras encestadas nos vimes carcomidos, entre carunchos e manchas de fungos, se misturam em suas fantasias desparceiradas de carnavais antigos, que com as mãos sacudo-as de suas poeiras, e ressinto os perfumes de memoráveis, de milhares de rosas[12] sorrindo os encantos do amanhecer prometido aurora boreal do meu espírito partido.[13]

Sigo me vestindo em pijamas brancos de anjos falecidos, com esperanças desfeitas nas madeixas onduladas de trança desatada[14], ondas das águas que refrescam pés adoecidos, meu corpo automutilado de coração sofrido, da angustiante dor desse criar de palavras que pavoneiam voos incríveis longe de tudo, em fossas abissais ou estratosferas feridas de Himalaia sem compreensão de nenhum ser[15], sem alguém que pudesse comer dos confeitos, ou dividir meu manto e sombreiro, sem alguém que compreendesse o meus dilemas[16] de viver a morte e da morte me viver em sempre, do dilema do amor em significação de altitude, dos ecos surdos da visão de cumes de neves azuis e de céu de lençol acobertando meu sofrer, nos dias que somam a soma infinita dos dedos que tocam ares, que beijam as cores de Vênus em seu amanhecer, do amor que se perde entre as vagas de estrelas[17], que desaparece comigo no lado oculto de buracos negros, que confisca as dores, as cores, e tudo que orbita dentro de seu empuxo, para este meu eu compactado em um átomo.

Avento em mim, tecidos lavados da desilusão do escrever insano, pendurados frente ao vento das ventanias, que com fúria os ignora o avesso, o peso da água vertida, os pingos quebrados no piso frio. A vida passa imperceptível como água na sarjeta com seus barcos de papéis, embebidos e empapados, já com as linhas invisíveis dos cabelos negros, já sem a graça da alvura maculada do encardido de água enlameada, segue em queda livre de bueiros, as fumaças caçadas, as cinzas dissolvidas, a dor entrincheirada em sabres de brilho.[18]

Quando já beirando a hora do silêncio, dou-me conta do pássaro calado, com seus pescoço erguido, a me fitar os olhos de maçã[19], enfeitiçada dos venenos deglutidos, o amor vem e me abraça forte, em respirar parado, em um choque gigante de trovão que rasga os ares. Vem me rasga com seu êxtase de presença e toque e voz e doçura sentida nos palatos como palácios de um vestíbulo de janelas de vidro, dando vista para a montanha do verde puro, ferida, ferida em flores de bismuto.[20]

E de amor feito em manhã inata, e de amor feito em coração puro, os sumos cristalizam, petrificam, como uma mina misteriosa, brilha sua lembrança nos minutos vazios do dia.

A poesia vem e me conversa, me faz uma voz inaudível, conto em faceira face prosa, mas coloca a mão no meu rosto, como também outro toque de fumaça[21], olha-me no olho, no fogo de cortina, como suas asas de anjo, e me lambe com chamas os lábios pintados das cenas tórridas contorcidas, de pernas reviradas, olhos em semicírculo, e carnes de bocas macias amassadas contra si mesmas[22].

Há um pulsar, um acender e falso apagar, um piscar, um braseiro que percebe seu andar noturno, lumiar brando, o êxtase adormecido, em coração manso a espera de um dia verdadeiro em tinta sunset Caran d’ache.

 

© Mara Romaro

[1] A imagem evocadora de fotografia de praia, em areia de brilho de água, e vulto andando de braços de encanto, uma imagem de inspiração.

[2] Escrita de diário nos tempos dos anos 1980s.

[3] Cadernetas que carrego sempre comigo.

[4] Descrição de minha primeira escrivaninha de imbuia, emprestada, não me pertencia.

[5] A minha característica de caligrafia que possui diversas formas de escrita as mesmas letras.

[6] Meu hábito de leituras diversas antes de escrever.

[7] Referencio meu âmago de escrita revisitado para motivação e reencontro com minha essência, no fogo do amor impossível.

[8] Manhã que me aprisiona em solidão devaneio de amor carnal impossível.

[9] Lat. Cabana, choupana.

[10] Refiro-me à noção do abismo que desejo transpor, me libertar do amor a dar outros rumos à escrita.

[11] Reclusão prevista para escrever o livro de ficção, recuperado de antigo caderno, cujo pequeno plano morreu logo no primeiro capítulo.

[12] Tausend Rosen – música de Unreilig.

[13] Refiro-me à situação da escrita encerrada em sarcófago, sem viabilidade de publicação em livros e perenização.

[14] Marcas indeléveis que o amor deixa em mim, em minha vida.

[15] É um incrível horizonte, uma visão altiva e ampla, que o sentir do amor me faz, com a sensação do infinito.

[16] Contraposição de sentimentos por pessoas diferentes.

[17] Esse amor, que me move na escrita, de forma imensa conduz minha vida, me liberta, encarcera, me aviva e me adoece.

[18] Refiro-me à escrita da poesia, das poesias de amor, de sua insignificância quanto a atração, de seu apagamento a ser superado em nova poesia, como um pulsar de magnificência de estrela, como luz de braseiro de fogo eterno.

[19] Inspiração poética.

[20] Amor sentido fisicamente, materializando-se em prazer de um átimo.

[21] Outro toque, dado que considero ser tocada imaterialmente pelo amor impossível, sensação física de sua saudade.

[22] Poesia, um ser angelical que toma as sensações do amor consumado na ilusão.