Carta Amor de Outono

|4 de Junho de 2019. 10:50. Lago – sentada no banco. 18 graus.

 

Como uma ventania eu queria
poder gritar Ser açoitada pelas
folhas caindo dos braços inertes
de árvores

Queria deitar ouvido no coração
dessa árvore e ouvir qualquer
sibilo existencial

Vem para mim. Vem desesperadamente
para um abraço sem fim

Tenho palavras para escrever
na folha em branco da sua pele
nos pequenos sulcares
nos detalhes de linhas No convexo
que no côncavo quero sonhar

Vem com vento frio Vem
com Sol relento Vem
com onda esquecida longínqua
Vem nos meus braços
que alento em atento amar

Como sabedoria eu queria
poder ouvir Ser abraçada
pelas suas narinas e dentes
solertes de mármores

Queria deitar boca na
mansidão pétrea feita de
amores insanos e sentir
algum estribilho magistral

Vem em cetim. Vem desesperada
amante para um beijar enfim
Tenho carinhos para fazer
não nessa folha ora em branco –
numa pele marfim
Vem aos meus amores
das ventanias calmas de manguezais

©Mara Romaro