Carta de flor dipétalo

Carta de Flor dipétalo

 

| 15 Março 2020 18:38 | Ouça Without you-Gary B;  I think God Can Explain – Splender e recorde essa carta pela manhã. | O sentido de amor e permissão de ser e estar. Acalento à apreensão.

 

Amparo seu rosto, com cuia de amor, e pingos fartos de chuva, as oferendas dos meus sonhos, quando me entreguei todos os dias aos braços seus, os braços do colo, aos braços das flores acordadas em lindo amarelo, aos braços da cor morna esculpida, minha cabeça que depus no centro do broto que coto desenvolveu o ser, deito ouvidos no peito e me perco em seus braços, que brados de ar me trazem a manhã.

Que a claridade escorre para cima no céu, meus pés descalços caminham o sono para uma água de seu lábio, no tempo girado do céu desse nascimento. As cores que raras me ungiam, as cores que flores olores chovem por cima de minhas lágrimas. Um cobertor de brisa que me abrasa, entre cinzas e sedas, no discorrer de uma frase de um jardim plantado de pássaros.

Amado amor de meus dias, amanheceres pintados sobre tristeza, anunciam o farfalhar das penas e trejeitos imprecisos do gesto das flores, delicadas, agitadas, e esvoaçadas como asas sem voo. Cada adormecimento com sonhos de seus beijos os lugares palacianos de cristais caleidoscópicos traziam esse vapor do chá raspberry como um espírito de promessa desse abraçar tecido franzido sentido, em carinho e mansidão.

Esse jardim floriam gaivotas, e porque haviam flores e pássaros, elas riam nesse dia sem que fossem determinantes, gaivota-de-cabeça-escura, gaivota-de-costas-pretas e maria-velha, nos brejos de um nevoeiro gaivotinhas[1] brancas; naquela antecedência de um mar adormecido. Eu esperava dar em suas mãos, eu desejava as linhas dos pés, eu olhava cada curva de uma coroa que une pétalas de um amanhã.

Os aquênios[2] espigados como o congelar de um fato, como uma promessa de disseminação, iluminados pelo sol próprio. Ah meu amor, amor que minha língua percorre a textura do gosto. O rosto que tento o sonho, o rosto que a penumbra recolhe, a praia que encolhe, e o mar que nos cantarola.

O Sol içado em linhas acima para o teatro Dionísio, entre os assentos do silêncio e os minutos virgens daquele dia, o Sol que lentamente hasteado, domina o olhar do girassol-do-campo e do-mato.

O giratório da cabeça das flores que acordam, o giratório da valsa do desejo, o giratório dos meus braços envoltórios nas cores da sua aura, o giratório do desprender dos filhos do dente-de-leão, o giratório da alegria aleatória desperta, o giratório do sangue nos caminhos da mente, o circulatório de sensações que a extremidade de sua pétala me toca, ou seria reação das suas mãos descomuns ou duas plumas exóticas na crista de um cariz, uma flor dipétalo[3]?

Meu amor que procura, o vento… O vento da água que refresca. Vento adocicado que em filamentos deságua e dissolve.

Amor, amor da loucura de uma flor-pássaro, amor em duas agulhas esperando com a linha as mãos em borda do tecido da vida, entrelaçar suas cores alfim, que com desenhos dos olhos caibam os olhos dos olhos em um estranho jardim. Rouxinol e canário, e até o voo do avestruz, acasalamento de girassóis negros da noite e dentro desse aconchego eu beijo, intenso, a veia aparente do braço, um sinal caído do céu, e a grande explosão do cometa na minha perna é revelada pela luz do momento e beijo seus pensamentos transpirados na testa do véu.

Meu amor, da navegação náufraga, entre as cores irrespiráveis do mar profundo, enalteça minha respiração, oxigene o cortinado e os móbiles das sensações de amor do meu coração, que ressoe o batimento do seu coração nos movimentos desses tecidos de água verde e luz, como único som passado através da pele ao ouvido. Seu sedimento.

Pétalas como mãos de declamação do escorrer da poesia no arroio incólume ocluso de prazer intrépido no fremido interno.

Acorde-me com sua voz frutal nos espíritos das sombras frescas das folhas e o guizo contínuo dos seres da natureza. Acorde-me com o rosto de sua presença, sua pergunta, os brincos perdidos, os cabelos emaranhados no turbilhão de uma distância sofrida, acomodando minha cabeça nos travesseiros da sua ternura e mãos de colheita.

Do jardim tenho a fruta não escalavrada vestida de lanugem e perfume do frescor da madrugada, aguardando a saliva da mordida.

 

Chá Raspberry Ahmad

na xícara Sagitarius na flecha dos braços do centauro

e o gosto sangrado rubi do vinho italiano desse amor

O gelo que refresca o doce encanto

e Raspberries curtidas no licor

 

Desflorar dipétalo dos ventos contrários e boca sedenta.

©Mara Romaro

 

 

 

 

[1] Gaivotinha – Croton Nervosus, planta anual de flores brancas dos terrenos brejosos, com propriedades medicinais para tratamento de ulcerações.

[2] Aquênio – fruto do Dente-de-leão, terminado por papilhas de pelos brancos sedosos que são disseminadas pelo vento. Cipselas.

[3] Dipétalo – diz-se de flor que tem duas pétalas.