O bule chinês 中国茶壶

O bule chinês 中国茶壶

( 16/01/2018 17 – 18:04)

 

Meu coração despontou ao leste

o despertar turvo e amarelo

sol nevado como Loess

depositado cuidadosamente

pelo espírito do ar

nas encostas do Huang He

Um som flamejou a seda

das minhas vestes desta manhã

Minha visão pormenorizou

desenhos do bule de chá

uma jangada de bambu em porto de aldeia

um grande junco carregado

no eriçar da vela ao vento

música de um choroso erhu

tocado por um arco de crina

 

Meu olhar terra amarela

sobrevoa campos de arroz e painço

tremulando vestes de dragão no pássaro Hua Chong

dentro de campos floridos de peônias

pintadas na Bei

que sorvo a fumaça do pensamento

um chá servido a Shen Nung

de camélia sinensis

pintada de azul cobalto

da pintura Qinghua

 

Desejei ter todas as insígnias

da veste imperial

me concedendo inteligência do dragão

a contar antigas lendas

do grande Yu a domar as cheias

a aplacar longos anos de inundação

Será que haveria diques

para conter minha voz rouxinol?

 

Chá verde, Oolong ou Hong Pao?

O que vou tomar?

Minha vida regada a chá

vindo das proximidades da montanha Wugi

um calor manso e breve

na ausência do sol

na ausência do amor

na ausência do ânimo

 

Entre meus dedos

a casca de ovo frágil

translúcida porcelana

a frágil delicadeza

permeada do feldspato

dos desenhos dos filetes

das imagens dos decalques

espadachins em suas fardagens

com mangas enormes

e o espírito grandioso do dragão

A história dos homens simples

carregando cargas em balança

suspensa em uma haste no ombro

 

Eu mergulhei na promessa

na cor dourada

os desenhos do bule

os canhões, as carroças

os barcos carracas

abarcados da porcelana de Jindezhen

suas formas, suas esculturas

seus desenhos filetados

de riquezas supostas

nunca vista pelo táoyì

nem imaginadas

na queima das fornalhas

nem na seda da mortalha

 

Meu olhar ferido sangrado

no voo da fênix chinesa

a que falei

da angústia do Yu

que ao combater inundações

não cruzava a soleira da porta

pelas três vezes que ali regressou

enquanto houvesse gente desolada

ele voltada a calejar sua mão

inchar seus pés

imersos na água dourada

com brilhos de inocentes mortos

da fúria daquelas vagas

E dessa coragem e força

preciso dar meus olhos

aos dragões que voam

para calar a selvageria do fogo

que me acaricia com suas línguas

e mortal me faz sua sangria

 

O bule entardece resfriado e vazio

Sem perfeição das mãos do oleiro

só o desenho perfeito das lamparinas

acesas no céu da noite ajoelhada

aos pés dos cumes de montanhas

apunhaladas do gelo

Olhar silencioso na ola do rio

Jaz o amor moço

jaz o olhar (des)esperançoso

embebendo a imensidão dos arrozais

ou talvez um campo de artemísia

ou a verdejante plantação de chá

e um coração fumado na brasa do incensário

 

Mara Romaro

(16/01/2018 17 – 18:04 H mezanino)

 

Verso da Folha

Horas de leitura: 11 a 17H

Anotações de referência no caderno de bolso Herbarium.

Caderno couro azul \ para —-

Música: Silent Moon, Xinglin Hupan – Jia Peng Fang; Orchid- Shao Rong; Chinese Lantern – Jaya Satria

Bule de chá de louça ganhado de D. Jeanette, no dia do chá literário.

Glossário:

Loess: sedimento amarelo depositado pelo vento existente no vale do rio amarelo na China.

Huang He: Rio amarelo da China, cheias provocada pelo degelo.

Erhu: Instrumento musical chinês de duas cordas, tocado por um arco de crina de cavalo.

Painço: milhete, milho miúdo cultivado na China.

Vestes de dragão: Vestimenta imperial, com desenhos afrescos originalmente contendo dragão voador amarelo desenhado circularmente, existente na dinastia Xia, mas desenho permaneceu juntando-se mais outros nas vestes do imperador, da imperatriz, e em vestes de pessoas, mas foram inseridos desenhos insígnias que simbolizavam diversas qualidades que o imperador possuía. Geralmente a veste era azul simbolizando o céu e amarelo o dragão, que simbolizava a terra amarelada do rio amarelo. Um desses desenhos simbolizava o arroz, o Fu, machado com dois lados curvos que simboliza a decisão, distingue o bem e o mal; Zong Yi, aparelho de sacrifício; Montanhas para representar a calma; o Hua Chong representando a literatura e erudição.

Hua Chong: Pássaro chinês, desenhado nas vestes, uma espécie de fênix chinês que simbolizava o talento da literatura e a erudição.

Peônia: Flores assim como os crisântemos, habitualmente representadas em desenhos nas xícaras e porcelanas chinesas.

Bei: chinês – xícara.

Shen Nung (Shennong): Imperador que reza a lenda ter criado a regra de se ferver a água para antes de seu consumo, que acidentalmente se deixou cair três folhas de arbusto que deram cor amarronzada à água, que ele experimentou e aprovou, dando origem ao chá. Em 2037 a.c.

Camelia Sinensis: planta do chá, sinensis do latim é originário da china. Na China, é popular o consumo de Chá verde (feito dos brotos do chá fermentado), Chá preto ou vermelho, Wulong que é azul e não fermentado, chá branco que é o chá verde não fermentado. Há o ideograma para o chá (茶 – chá), encontrei referência como /Tú/ ou chá, possuindo um triangulo, com três riscos abaixo e uma travessa sobre este triângulo cortada por dois traços.

Qinghua: pintura tradicional chinesa em azul e branco.

Yu, o grande: imperador da dinastia Xia, 21 séculos a.c., que lutou 13 anos contra forte inundação, governava em Yang, famoso e considerado uma divindade, por ter empreendido a obra de diversos diques no rio amarelo com canais de alívio para as fortes inundações, chamadas Portas de Yu, que ao se casar, passou quatro dias com a esposa, deixando para ir enfrentar o combate às inundações, cujos retornos à sua casa foram três neste período, sem passar a linha da porta, enquanto tivessem pessoas desabrigadas, ele não se permitiu ter-se em seu lar. Nascido no ano do Dragão, 2059 a.c., trouxe grande força ao Dragão. Seus diques foram importantes no controle das cheias, originando o ditado: ‘Não somos peixes graças a Yu’.

Oolong: Chá azul muito apreciado na China.

Hong Pao: Chá largamente consumido, originado da província Fujian próximo a montanha Wugi, com sabor frutal de pêssego e orquídeas, de sabor suave.

Wugi:  montanha na província Fujian cujas proximidades é produzido o chá Hong Pao.

Carracas: do árabe Harraqa, navio mercantes portugueses de velas redondas que comercializavam entre outras coisas a porcelana chinesa Kraak (casca de ovo) na Europa do séc XV.

Jindezhen: Local no sudeste da China, província Jiangxi, produtor de porcelana desde os primórdios (dinastia Han em 206 a.c.), iniciada com a queima de cerâmica em temperatura certa, conferindo-lhe um aspecto translúcido, originando a tão admirada porcelana, por seu brilho, cor, densidade e delicadeza.

Porcelana: cerâmica feita de argila, quartzo, caulino e feldspato, em proporção certa era gerada uma massa, deixada para curar, e uma massa pastosa que sofre filtragem e envelhecimento, modelagem, primeira queima de 900 graus C – chamado biscoito, é aplicado verniz feito de mesma matéria prima em outras proporções, onde as peças são mergulhadas, após serem colocados cabos e adereços que se queira, e nova queima a 1300 graus C aproximadamente que pode durar até 31 horas. São depois aplicados decalques, transfer, pintura artesanal e filetes. Técnica desenvolvida na China, copiada na Europa, à princípio grotescamente, na Alemanha, França, Itália e Inglaterra.

Táoyì: ceramista.

Artemísia: floração campestre europeia, podendo ser chamada suas flores de barbotina, que significa a massa da porcelana, e também o botão, flor não desabrochada da artemísia e flor do Absintho. Menção a artemísia neste texto está vinculada a porcelana.

 

 

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Diário do Universo Paralelo – Realidade alternativa

Diário do Universo Paralelo –  Realidade alternativa

12/01/2018 19:45

 

Larguei-me, não porque precisava descansar, mas porque olhar a moldura da janela, com a textura tramada sobre as pinceladas da nuvem parecia cobrir meus olhos de um tecido, fino, leve, eu desejei não estar aqui, não viver assim, sobravam-me pequenos resíduos de aroma da banana que eu caramelizei com glacê de limão, segredos meus em gotas, e uma xícara de café, neste momento, já não sei a cronologia.

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Mensagem na garrafa

Mensagem na garrafa

11 de janeiro de 2018. 20:55 H.

 

Fiquei observando o esgotar do incenso, gosto de pensar na presença que ele me concede em amplo frescor, um prolongamento da tarde, gosto de sentir que após os anos idos, ele nutre uma espécie de sabedoria da sutileza, ou a delicadeza para adentrar meu fundo de olho com aroma brando.

Observo, minha própria recordação, da tarde anciã, vestida de casaco de pele de urso polar, com os rostos voltados para mim em perfeito véu, como uma noiva nunca acontecida, que de tempos em tempos, adentra um cômodo e prova seu vestido jamais visto por olhos algum.

E o frescor de uma garoa mansa, reconduzia as sensações do fim do meu banho, uma furtiva sensação de arrepio, com meu olhar na presença viva daquilo que melhor me poderia agasalhar a alma resfriada, as dores e toda minha impotência diante de tudo.

Recordei que percebera, umas poucas folhas nas árvores, darem um empalidecimento ou na verdade, amarronzaram, repentinamente algumas folhas perderam a clorofila, mesmo com estes dias de sol com o verão brandindo sua espada para cima.

 

Permito-me registrar, que quando meus olhos se derretiam, clarões silenciosos esbranquiçaram puramente o cimo das nuvens, onde eu não pudesse saber o fim de suas cortinas, mas refletiam os relâmpagos longínquos a me perturbar a falta de condição para me pôr a caminho, qualquer que fosse.

Na minha insaciedade, na minha ânsia indescritível, adentrei o degrau que margeia a sala envidraçada com o terraço. Recuei qualquer que fosse o ímpeto, a pegar a pena, descrever sucintamente meus dias, ou adentrar furtivamente nas palavras filosóficas, ou relembrar glórias de dias passados, ah, houveram?

Percebia minha imaginação querer alçar voo, fugir com meus novos chinelos, e toda minha vontade não se traduzia em gesto, movimento de algo, só meu pensamento permanecia em seu habitual movimento de redemoinho, as salivas agrediam os dentes, as últimas peles das chagas de minha boca queimada ao comer o milho fervente soltaram e um alívio esquisito e fugaz me permitiu dar sossego à língua e meu lábio inferior.

Mas isso não poderia exemplificar minha sensação de inutilidade, minha condição como um todo de estar em um beco, ou andando em círculos, ou perdida dentro de mim mesma, com inúmeras decepções e se por um lado parecendo um tanto resignada, havia um lado tão inquieto e perigoso, daquele brilho incontido que ressalta o olhar, um olhar similar a zombeteiro, pois não, na verdade olhar de profundidade do interior mais profundo da alma, cruzando todas as informações colhidas e catalogadas em ordem, para encontrar em seu âmago algo mais que seu sentir, mas uma necessidade de fazer e nesse fazer conseguir curar esta dor mortífera.

Logo o dia apagou, restaram miúdos gotejamentos da telha, o marasmo felino, uma mesa posta para uma ceia estranhamente silenciosa de minha parte, para depois eu me recolher aqui no meu estábulo, nessa luz tênue que quis acender sem focos nem holofote demasiado azulado e me recolher nesse acolhimento da lamparina verde e sua paciente queima que conversasse com minha timidez dos atos, com minha paralisia diante da vida e pudesse me pôr na frente uma vista diametralmente oposta para que me fizesse chocar com sua espetacular novidade e me levasse um novo amor ao coração. Um amor que me abraçasse.

Um amor que me cuidasse, com mãos limpas, com suavidade na voz macia e me disse coisas novas totalmente incríveis que me fizesse ver, que me renascesse agora para uma vida nova, uma alma lavada e uma força alimentada de muitos manjares perfeitamente feitos do cetim do coco.

Tanto ouso querer, que a imagem se confunde ao meu vazio, vou me alimentando das minhas ilusões para acordar manhãs frias com meus pés doloridos com a dor do gelo, ou os joelhos incomodados da friagem dos sonhos estranhos que me avisam nas falas de um golfinho, que vem retirar parte da minha alma, como se ela fosse fatiável, e pudesse se fazer incisões para extirpar meu mal.

Incrivelmente eu sinto uma plenitude, de um vento que não me pertence mas me veste, de um ar respirado tranquilo, no remanso da rede, no balanço de minutos e na minha mais completa nudez de tudo que já me vestiu, eu planejo voar.

Eu planejo andar sem dizer aonde, permanecer contemplativa no estranho, no profundo monólogo da solidão, e posso quem sabe, um dia, pegar uma forquilha para me apoiar, ou me aventurar nos deslizes que tanto gosto de surfar.

Esperarei a noite, no receio mais possante da existência humana, o aproximar do céu e dos raios, ou o medo de uma serpente, uma aranha, o medo do medo úmido embolorado, e dos pensamentos rudes e tão insensatos. Não sei qual escolher… Estou pensando ainda se fico com meu medo paralisante, ou se sinto o gosto do medo da morte, uma coisa mais próxima da sobrevivência, porque sinto que aqui cheguei, neste momento, depois de tudo que passei, de tudo que lembrei, de tudo do que me conscientizei, e nada posso, nada tenho, simplesmente é inútil tudo.

Tudo que já escrevi, é tão insignificante, eu sei o que estou sentindo, e essa mescla do guisado, esse enorme tacho na fervura dos meus cinquenta e hum anos, penso no quão grande é o teor do meu coração e o quão massacrado ele está, seus sinais vitais enlouquecidos já perderam os ponteiros, e fisicamente, eu me sinto exatamente como minha vida chegou até aqui.
É simples. Atabalhoadamente.

A luz da vela pequena, dá sinais do cansaço, eu sinto doer pelas peripécias de hoje, pela minha impaciência, e um prenúncio que me escandaliza os olhos do pensar, a sensação de que as palavras estão para secar, porque percebo que o que me movia, talvez fosse imaterial, ou volátil, ou simplesmente não consegue me alimentar mais, isso nunca poderia ser alguém, precisava que viesse de meu intelecto e do meu sentimento, mas concluo, sei de onde vem, mas sei que as nascentes dão mostra deste estio.

 

Mara Romaro

21:45

\escrito no computador \ Cartas proibidas

Diário do Universo Paralelo – nebulosa de Órion

Diário do Universo Paralelo – nebulosa de Órion

 

Sábado, 06 de janeiro de 2018. 20:58 h.

 

Não. Nunca basta começar algo, que simplesmente eu não sinta que tenho que prosseguir. Ontem, um clarão foi percebido no negrume da noite pelo meu esposo, eu acomodada nas almofadas do meu pensamento, ele me chamou a atenção para a lua que nasceria em instantes.

De fato, uma calma do ar, um reflexo da lua prenunciava seu nascimento, na silhueta silenciosa da montanha.

Ao ar da infância da noite, paramos e ficamos esperando a lua, que surgia lentamente enquanto a terra está se movendo, enquanto nós ficamos abraçados lado a lado, com nossos braços para a cintura do outro, observando e eu relembrava a lua de dias antes pois vimos um pirilampo voando e piscando tão alto, fato que jamais houvéramos visto.

Pois, tantas vezes estamos entretidos em banalidades, trocando palavras que não são proveitosas, sem podermos sequer perceber nossa presença.

Vem vindo, aquele vento, do ar da chuva, pela fresta da janela, eu apenas ouço o ventilador e os ruídos da chuva, rodeada de uma vontade de escrever uma carta, de escrever para estranhos, de escrever a voz do grito da ferida que não sangrou para fora, mas sangrou por dentro, hematoma que lentamente tem que ser absorvido pelo meu próprio sangue, pela minha própria alma, num exercício dificultoso de me recolher nos braços do nada, me recolher num canto sagrado, num altar qualquer, num beco sem saída, onde só posso olhar para o céu tentando reconhecer alguma coisa que me faça saber que estou aqui e aprendi algo. Mas vem a sensação da irrelevância, esta ampliada com as alfinetadas das palavras impensadas da filha, do olhar resignado do esposo, que contém uma espécie de suor de seu desgosto, de um olhar disperso e descontraído dos demais filhos, absortos em suas vontades momentâneas e decepcionados com a minha realidade. É bem verdade que mesmo eu sabendo que eles me amam, eles se acostumaram a minha pessoa relacionada ao que eu exerci muitos anos na tarefa de ser mãe, provedora e falsamente independente.

Porém a Mara que sou, tem aquela Mara, a que amadoramente escreve desde criança, que desenha amadoramente desde criança, que dançava amadoramente desde menina, e uma mulher que eles nem estão perto de conhecer, e o curioso, é que mesmo aceitando minha situação estranha, uma espécie de aposentadoria ou falência, mas na real, não podem compreender o que é a Mara hoje.

Ah, eu amo esse amadorismo meu, esse rudimentar afloramento espontâneo e surreal tanto quanto imaterial, no aspecto de não possuir remuneração. Eu penso nisso, não posso pagar pela arte que tento ver, tento apreciar, tento consultar e penso se as míseras pagas me dariam a dignidade? Não posso definir, não posso recusar me doar ilimitadamente, mas também assumir a miséria do quanto minha vida se torna dependente dos demais, estes mesmos, que não estão tão admirados assim, e não estarão com a liberdade da minha escrita.

Sinto esse dissabor, o da irritante tarefa de entenderem meu ato de escrever, minhas exigências de não perturbação, meus modos que tento moderar para ser mais tolerante, quando a vida sempre prepara ciladas e situações que dão murros no estômago ou situações do coração mais aflitivas do que isso, que fazem palpitar hiatos no coração. E se já tem vontades difíceis, momentos que a tristeza é o ser mais forte que conheço, há também uma batalha medieval de cavaleiros dentro de mim, travada em localidades meridionais, sangrenta e exaustiva, de um d’us contra o outro, de um pensamento tendência a outro sobrevivente.

Eu aposto meus instantes a procurar a nebulosa de Órion, no pouco que sei reconhecer, e apesar da vista já lenticular, eu ainda encontro com meus olhos nus, sua graça, seu encanto, seu mistério, seu sabor de cores impossíveis e de uma espécie de motivação alheia a tudo que me dispõe a ver um mundo possível diante dos meus dias e que eu poderia seguir um caminho diferente. A nebulosa estaria em meu reconhecimento, o luar estaria nos meus desertos, o céu me emprestaria os mares que não tenho.

E não quero, esquecer, que diante dessa janela, há um muro, sim, emblemáticos muros sintetizam os obstáculos inúmeros que venho me deparando. Sim param-me. Eu tenho a saber o que há, por detrás, mas não possuo mais a chance de galgar esses muros, tal como fazia quando criança, corria por cima de seus tijolos, com um equilíbrio de fazer inveja.

Eu, me deparei diante de uma recordação, inventada não sei, mas um momento especial, desde que perdi minha mãe, de certa forma, volta e meia eu pensava não tê-la abraçado, não ter dito que a amava, não ter deitado em seu regaço e cochilado no ventre de seu calor materno. Senti essa falta, que impossibilitada pela morte, foi uma coisa estranha. Desde que percebi amar como mãe, uma estimada pessoa, eu desejei viver o que ficou impossibilitado pelo muro da morte.

Mas além dessa, digamos conclusão, havia em mim, motivações espontâneas, reais, motivações de gratidão de receber nitidamente esse tipo de carinho tão necessitado por mim, porque era uma falta similar a um buraco negro.

Esse buraco negro, que vem engolindo, consome a matéria em seu redor, com voracidade de leão, como a propagação do fogo nas brasas acinzentadas em um papel recém incendiado.

A porta fez o ruído de se fechar, sem se saber, se fora empurrada, se o vento a bateu, se alguém adentrou. Outra porta se fechou, bateu com som seco, o impulso suficiente para engatilhar a fechadura.

O motor foi ligado. Ela estava inerte no banco, toda jogada, sem muita consciência, as pessoas estavam se falando, sobre onde a levar. Ela, teve sua cabeça acomodada nas pernas de alguém, que a puxou, que precisava sentar-se no banco traseiro. Ela não pode se recordar disso propriamente, este parece ser uma espécie de sonho do mais profundo inconsciente, já que sempre supôs que ela estivera no banco do passageiro, junto com o colega que dirigiu o carro.

Portanto, essa sensação, ela deflagrou uma sensação de colo materno, este momento certamente poderia haver uma presença imaterial de uma outra mãe, ou a lembrança que transitou no tempo, de um momento forte, de um colo materno.

Ela sentiu a mão sobre o ombro, outra tenuemente sobre a cabeça, e num instante estava em outra época, via claramente um raro momento afetuoso que jamais experimentara na vida.

E com o que sucedeu nesse acordar, as situações que já foram escritas num livro que ela pensava, pois havia esse momento que faltava descrever, durante o seu sono, sua inconsciência, ela esteve vivenciando um dia como se fosse verdadeiramente filha e mãe.

Ela nunca poderia saber, e saber se ocorrera de fato isso, e o que se passou com a amiga, o que teria sido, uma situação unilateral?  Teria sido de fato? Teria dado alguma reação afetiva?

Não. Nada. Não sabe. Todas as reações posteriores no pernoite em sua casa, cuidadosamente ofertado por ela, não fora solicitado. E cada atitude pareceu mais do que sua aparência poderia transparecer. Contudo, de certa forma embaraçoso, ela não pode ter nem mesmo o real prazer dessas dádivas, pois por certo foram além do seu limiar de consentimento.

Ela sentiu pesarosa porque as coisas não saíram bem, não se sentia bem tendo ido parar em hospital, tendo acordado de forma tão estranha.

Mas, o dia amanheceu, por mais breve que pareceu, cada gesto e cada pequena situação próxima, reforçava a sensação tátil do que sonhara. Era muita informação confusa para entender ou extrair algo compreensível. Por longo tempo, ficou aquela sensação de aroma, aquela sensação de estar em um lar que sua memória reconhece, mas que não é seu. A sensação de ter vivido por apenas um dia, como mãe e filha sem serem, por ter vivido por um dia ser de certa forma salva, cuidada, amparada, como se sua orfandade nunca tivesse acontecido.

E como um efeito de droga, após longo tempo, sumiu, evaporou-se.

Ela se deu conta que precisava, precisava desesperadamente daquilo que nunca soube se teve espontaneamente manifestado do coração sem que a pessoa tivesse percebido.

Depois sua análise foi se complicando, com memória perdida, com a sensação de inadequação, com a sensação de que não sabia o que poderia ter acontecido realmente.

A magia se desintegrou como um quebra-cabeça, que se desmonta com as mãos. E ela ficou com o desespero cravado no coração.

 

A chuva que amaina, o sol que aquece, os dias em que me transmigro de um acordar, um viver, e um simulacro de libertar, dentre as realidades, prefiro o céu que não me renega. Prefiro a luz que não me distingue. Prefiro a voz daqueles que não se esquecem de mim. Prefiro meu travesseiro e o perfume da minha casa, das palavras que me comovem, do abraçar.

E não compreendo, perdi algum fato da vida, porque sei que não deixei lacunas para minha querida mãe Myriam, recordei coisas tão afáveis, mas jamais consigo saber, se aquele sonho que sonho, se aquela memória que lembro, se tudo que pressinto é verdade ou é a lua.

Não me importo com meu viver, tento guardar meus sonhos, em uma gaveta de madeira de lei, limpa com pano úmido, com caixas trabalhadas, com latas ornamentadas, com aromas de sachês especiais, com delicados papéis de seda a embrulhar, como bonecas de louça de estimação ganhada dos natais mágicos da vó querida, ou quem sabe, uma caixa de cartões de lembrança, pequenos suvenires ou um presente único, ainda que estragado pelos anos idos, pela eternidade do afago, não renego, eu guardo.

 

 

Mara Romaro

são 22:12

Elucubrações dos sentimentos imaginados contra os sentimentos vividos, seus significados inconcebíveis ou incompreensíveis, e a dura realidade.

Os relógios

Os Relógios

Espectros de Luz Alpha Horologii

 

“ Eram 15:16 horas quando me perguntou que horas eram. Naquele instante um ponteiro estava sobre o outro e custei a ver que horas eram.

Ele me perguntou, quantas vezes ao dia o relógio parece ter um ponteiro apenas…” Read More