Carta a alguém do Vivarium

Atibaia, 1 de Outubro de 2017. 10:24 H.

 

Carta a alguém do Vivarium

 

Provavelmente eu possa tropeçar nas palavras, já que o que eu pensei ontem, dificilmente lembrarei das palavras exatas. Mas meu pensamento esteve desde que Read More

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Café amigo

Café amigo

 

20 de Março de 2017. 14:34.

 

Convido a entrar. Pode sentar. Diga como está. Pode deixar a bolsa em qualquer lugar, não repare nossa casa. Aqui moramos sem grandes alazões, sem porteiras, sem sombras de álamos, sem pássaros em gaiolas.

Ainda sobram poucas flores neste jardim envelhecido, tantos anos com minha sombra de esperança vencida pelas estações. Andei atordoada de tanta coisa, andei enjoada de virar de um lado para o outro na noite, nesses dias que vem se somando, após convites amigos.

Eu supus que estender a mão sem defesas ou artimanhas, com meu sorriso de saudade bastaria para adoçar uma xícara de café. Eu me tatuei de promessas a Deus, recebi olhares de Maria, e cada dia a benção de viver resistindo minhas piores dores, mas ainda me lembro que tantas vezes convidei para minha hospitalidade.

Pensei que seria mágico, que minhas promessas de estender minha amizade em um tapete infinito do seu caminho, poderia ser tão morno, para os dias mais distantes e nas horas mais estranhas.

Ainda tomo cada xícara de café, por vezes ele esfria no quão lento se faz meu gesto, enquanto como bolachas imaginárias de amizade.

Eu ainda espero. Acordo e me visto para a vida.

Ainda acredito ser tão possível, que pudesse ver os tantos medicamentos a que tive de me submeter e não me ajudaram. Ainda prossigo andando por estas vias, estas pessoas da minha pequena cidade, algumas me dizem alguma coisa, levo como um sorriso e me alegro.

Sinto tanta vontade de tomar um café, só para sentar e conversar em riso e surpresa, estender os olhos para seu viver e poder oferecer um abraço de alma.

Venha se sentar junto a essa mesa, podemos falar de poesia, de alegria, trocar amparo, eu nunca negaria isso, certamente desenho promessas sem dívidas, cobranças, restrições, tenho tanta coisa legal para contar.

Nossa, ninguém me falaria isso. Eu acabo de beber o restolho do café na caneca, resfriado do esquecimento. Cabe uma colher de lamento doce como mel de abelhas polinizadoras de laranjeira.

Em casa, tem lugar para sentar em um sofá, completamente pobre, sem tempo certo, mas olhos atentos para lhe ouvir, coisa que já é rara. Tantas coisas que poderiam ser alegremente feitas em um bom passeio ao ar livre ensolaradas pela velha amizade que existia, eu acreditei e vi o sol que estava ali.

Em meu armário algumas xícaras estão dormindo seus desenhos e estampas, à espera estiveram por séculos que tenho vivido e sempre esperando você para este café amigo, este fim de semana amigo, este passeio amigo, esta possibilidade amiga, esta vida amiga…

É absolutamente imprescindível olhar nos olhos. Estou aqui disposta a responder, rir, contar, andar, superar, ajudar, ceder afeto, discreta dentro do meu sonho da madrugada, abrindo as portas de casa ao amanhecer, com as vidraças limpas, uma toalha limpa, meu olhar sincero e minhas rugas atentas de uma auspiciosa ansiedade de rever e poder abraçá-la como amiga, de hoje e sempre.

A realidade amanheceu, o lindo amanhecer clareou, mas o ar frio foi o que me vestiu. Senti a decepção minha de cada dia tornar insosso qualquer pão, mas engulo e sigo meus passos para meu trabalho. Quem sabe ela amanhã recebe meu convite Café Amigo outra vez e reabre o seu sorriso…

 

Mara Romaro

Uma resposta de carta

Uma resposta de carta

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente uma herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Carta de Giovanna
“Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.”
Gi Romaro