Café amigo

Café amigo

 

20 de Março de 2017. 14:34.

 

Convido a entrar. Pode sentar. Diga como está. Pode deixar a bolsa em qualquer lugar, não repare nossa casa. Aqui moramos sem grandes alazões, sem porteiras, sem sombras de álamos, sem pássaros em gaiolas.

Ainda sobram poucas flores neste jardim envelhecido, tantos anos com minha sombra de esperança vencida pelas estações. Andei atordoada de tanta coisa, andei enjoada de virar de um lado para o outro na noite, nesses dias que vem se somando, após convites amigos.

Eu supus que estender a mão sem defesas ou artimanhas, com meu sorriso de saudade bastaria para adoçar uma xícara de café. Eu me tatuei de promessas a Deus, recebi olhares de Maria, e cada dia a benção de viver resistindo minhas piores dores, mas ainda me lembro que tantas vezes convidei para minha hospitalidade.

Pensei que seria mágico, que minhas promessas de estender minha amizade em um tapete infinito do seu caminho, poderia ser tão morno, para os dias mais distantes e nas horas mais estranhas.

Ainda tomo cada xícara de café, por vezes ele esfria no quão lento se faz meu gesto, enquanto como bolachas imaginárias de amizade.

Eu ainda espero. Acordo e me visto para a vida.

Ainda acredito ser tão possível, que pudesse ver os tantos medicamentos a que tive de me submeter e não me ajudaram. Ainda prossigo andando por estas vias, estas pessoas da minha pequena cidade, algumas me dizem alguma coisa, levo como um sorriso e me alegro.

Sinto tanta vontade de tomar um café, só para sentar e conversar em riso e surpresa, estender os olhos para seu viver e poder oferecer um abraço de alma.

Venha se sentar junto a essa mesa, podemos falar de poesia, de alegria, trocar amparo, eu nunca negaria isso, certamente desenho promessas sem dívidas, cobranças, restrições, tenho tanta coisa legal para contar.

Nossa, ninguém me falaria isso. Eu acabo de beber o restolho do café na caneca, resfriado do esquecimento. Cabe uma colher de lamento doce como mel de abelhas polinizadoras de laranjeira.

Em casa, tem lugar para sentar em um sofá, completamente pobre, sem tempo certo, mas olhos atentos para lhe ouvir, coisa que já é rara. Tantas coisas que poderiam ser alegremente feitas em um bom passeio ao ar livre ensolaradas pela velha amizade que existia, eu acreditei e vi o sol que estava ali.

Em meu armário algumas xícaras estão dormindo seus desenhos e estampas, à espera estiveram por séculos que tenho vivido e sempre esperando você para este café amigo, este fim de semana amigo, este passeio amigo, esta possibilidade amiga, esta vida amiga…

É absolutamente imprescindível olhar nos olhos. Estou aqui disposta a responder, rir, contar, andar, superar, ajudar, ceder afeto, discreta dentro do meu sonho da madrugada, abrindo as portas de casa ao amanhecer, com as vidraças limpas, uma toalha limpa, meu olhar sincero e minhas rugas atentas de uma auspiciosa ansiedade de rever e poder abraçá-la como amiga, de hoje e sempre.

A realidade amanheceu, o lindo amanhecer clareou, mas o ar frio foi o que me vestiu. Senti a decepção minha de cada dia tornar insosso qualquer pão, mas engulo e sigo meus passos para meu trabalho. Quem sabe ela amanhã recebe meu convite Café Amigo outra vez e reabre o seu sorriso…

 

Mara Romaro

Não

Não

 

Não se esquece daquilo que enternece

Não sei nada o que vem a passar

Água e Ar desaparecem em

_                                                 mim

Vida linda que não se pode

 

Distância cálida

_                             cala

Não se larga ao vazio

Pensamento no frio

_                                    Rio

Deságua n’alma

o que não se pode Viver

 

Enternece aquilo que não se vai esquecer

Guardam-se

_                      mãos pequenas a não perder

 

Não é o que não existe o que não se pode Ver

 

Não é                               Foi sendo acontecendo

 

Não

Chuvas incontáveis

Não se depende daquilo que independe

Não está                                                 Está

Esta

Miragem maquiagem dos meus olhos

Não viver                                             Viver

Conhecer                                     Acontecer

Não se acomete aquilo

que não estava para              acontecer

Acontece                                              Não

Abandono o não

_                             acontece o lembrar              a esquecer

Não aconteceu                        Está acontecendo

Não se perde o que não se deve                              perder

O que se abandona se arruína ao tempo

Não foi

 

Foi uma raiz cancerígena

entranhada nas razões misteriosas

 

Não se esquece

_                           nem mesmo não lembrando

Não se está perdido o que se busca

_           eternamente no entardecer

_             ternamente no enternecer

_           entendimento no acontecer

 

Não

Não se esquece daquilo que enternece

Não se perde parte do próprio coração

Não se vive com um ventrículo

 

Versículos que nada podem a eternidade

 

do não

 

Mara Romaro

14/02/2017 14:33

Cartas Proibidas – ao não

Música:

SOS d’un terrien

 

 

Lettera ritorno alla Mamma

myriam0002Mamãe

 

Eu queria dizer palavras que nunca conseguiram atravessar as barreiras do silêncio. Procurei o Sol todos os dias, para celebrar a sua vida.

Meu sangue pareceu gelo. Meu estômago era um vazio crânio.

Tentei delicadamente afastar os cabelos que cobriam o rosto da luz e em nuvens eles se transformaram.

Para todo lugar por onde caminhei, senti o frio desamparo do piano empoeirado desfalecido no silêncio.

Aos poucos sua voz se diluiu, eu quis lembrar, quis andar ao seu lado com o Toy e Risonha.

O tempo simplesmente se indefiniu.

Dedicava meu respirar à sua coragem, à sua força silenciosa.

Eu, vivendo de palavras, como pude sobreviver sem elas?

A música nos reaproximou.

A palavra que me houve recordado… a palavra que ouso pensar sobre você, a palavra que desenha sem traços o seu rosto.

A ausência nunca se cura.

E todo tempo sei que no sol esteve nos meus dias.

Especialmente agora. Toda essa agonia, sei que foi você que me abriu as portas. Sei que lá no jardim hei de te rever, para te dizer em partituras do seu idioma que finalmente li as palavras.

Sim, no fundo de alguma forma seu legado sempre me agasalhou do temor.

Lembro cada vez que estivemos no caminho, nas esquivas dos espinhos, conheço suas dores, sempre soube.

Eu sempre soube. E quando nos virmos, não precisarei ser esperança.

Levarei o piano no bolso.

As partituras no meu olho.

Suas mãos elegantes poderão tocar.

A luz rosa irá cobrir a Terra e a Sonata ao Luar tornará bater seu coração em raios do Sol do seu sorrir.

Espere-me.

Levarei o amor dos gatos e dos cães, na forma de coisas que nunca saberão.

Compreenderá. Compreendi.

Agradeço sua pequena carta.

Com amor eterno de nossas existências. Espere que levarei o piano, mãe.

 

Mara

08/02/2017 16:35

Música: Retornerò – Puppo.

Sui ciglio senza far rumore

 

 

 

 

 

 

Carta ao Leitor  

Eu não conheço, mas minhas palavras podem te conhecer. Tantas vezes pensei em contar um pouco da minha vida mais real, mas já aviso, não sou boa com a realidade. Não gosto dela.

O dia amanheceu para eu lutar muito. Este dia era aniversário de casamento da minha avó. Há um ano venci um dos meus medos e criei este blog.

Meus medos me acompanham desde criança. Morei em uma casa grande, pois éramos uma família de doze filhos e eu a caçula. Havia uma praça em frente. Brinquei muito nela.

Nasci no verão. Não sei porque não aceitei de forma alguma a amamentação de minha mãe. Com um mês de vida tive uma desidratação e naquela época diversos médicos me “desenganaram”. Ou seja, desistiram de tentar me salvar. Minha mãe enfrentou isso com garra, tomou atitude de me hidratar com Citrosodine, me alimentou com colherinha de café para evitar os vômitos em jato e me salvou pela dedicação e persistência.

Eu não gostava de comer e constantemente era forçada a isso. Jogava as comidas pela janela e meu bife até viajou até Itatiba na capota do carro do meu cunhado. Gostava de tomate, pastel, pamonha, leite, limonada, melancia, azeitona e chocolate. Minha paixão por café veio depois.

Tinha intolerância a ki-suco e passei algumas noites vomitando a noite toda por isso.

Meus irmãos brincavam comigo, mas eu me sentia sempre oprimida. Chegava em casa, tímida, me esgueirando, dava um pulinho no canto da escrivaninha do meu pai, e todos esperando davam uma fragorosa vaia e riam bem alto.

Na minha infância sofri alguns incidentes abusivos, desde então sentia um mal estar, os medos passaram a me apavorar à noite. E se estendeu à minha adolescência. Minha solidão começou aí.

Tinha uma forte ligação com meu irmão Marcos, chego a lembrar de estar num berço azul, debruçando para olhar e ver o Marcos se esconder e aparecer de baixo do berço. Lembro de tomar uma mamadeira já bem velha com um rombo no bico e no dia que minha irmã e madrinha Jane me comprou uma caneca para trocar pela mamadeira.

Na infância me apavorava com meu pai andando nervoso e brigando de noite. Eu estremecia cada vez que ele passava na porta do meu quarto.

Demorei a me acostumar, porque ele vivia trabalhando em outras cidades, quando se aposentou voltou e implicou muito com os momentos que minha mãe tocava piano. Depois do dia de enormes trabalhos, lá pelas quatro ou cinco horas, ela sentava ao piano, eu no sofá cinza e ficava vidrada a ouvi-la tocar. Mas esse tempo acabou, ela parou de tocar.

Quando morava na casa nova, comecei a pintar a óleo, fiz um quadrinho, fundo azul e uma árvore seca e sem folhas em preto. Mas havia quem me perturbasse e eu desisti de pintar e passei a escrever. Eu me sentia segura no meu quarto, onde estudava, lia e escrevia todo dia. Gostava de ver filmes e sempre acompanhava minha mãe.

Minha mãe sempre me incentivava a vencer meus medos. Marcos sempre me incentivava, ele tinha uma alegria contagiante, chegava empolgado, tinha um entusiasmo por coisas novas, esportes, literatura, música, cinema, artes, teatro. E teve uma enorme importância para mim, porque sem dúvida foi quem mais me respeitou e acreditou na minha capacidade.

Na escola, fui aluna mediana, me destaquei em português e matemática. Melhorei na escola, mas era de poucos amigos. Namorei colegas da escola. Infelizmente dois desses meninos, tempo depois morreram, um de acidente e o outro afogamento por ter tido uma congestão. O seguinte foi o primeiro amor e a maior decepção amorosa.

Então, surgiu meu marido e pai dos meus três filhos (duas meninas e um menino, que já são adultos). Começamos sem compromisso e estamos juntos nessa jornada até agora, com um relacionamento que amadureceu muito. Eu tinha um gênio difícil e quando irritada minhas palavras eram farpas de fogo.

Minha professora de português queria muito que eu seguisse estudando letras, mas eu fui estudar análise de sistemas. Ela por vezes, fazia alguém ler minha redação, e dava aula sobre escrever levando em conta. Eu até me encolhia na cadeira. E sabe, as pessoas na escola, às vezes eram ruins. Fiz um trabalho sobre moradia de educação artística, desenho a carvão em papel pardo, com uma toca de bruxa no penhasco. O desenho desapareceu. Para não ficar sem nota, desenhei a mesma coisa de novo igualzinho. Acharam meu desenho rasgado e amassado atrás do lixo. Na maquete, deste trabalho, fiz uma casinha de arame com fitas e sianinhas penduradas.

Eu tinha como sonho ter filhos, ter minha casa com vista para Pedra Grande, publicar um livro. Tive os filhos e essa casa de frente para a montanha. Uma casa simples que desenhamos juntos eu e meu esposo, pintamos de verde (por isso a chamo de castra spes – que casa esperança).

Trabalhei muitos anos em São Paulo, e aos poucos São Paulo me massacrou. Seu estilo de vida, comportamento das pessoas de lá, falta de dinheiro, mas eu escrevia nas horas de almoço, na volta para casa.

E nessa época com os filhos grandes eu percebi que minha escrita se desenvolveu. Senti que meu caminho havia sido um erro. Era minha alma, desenhar e escrever.

Perdi dois irmãos. Deca e Marcos. Gostava demais deles. E tempos depois minha avó e minha mãe.

Nessa época, tive uma experiência infeliz de amizade que veio a me machucar profundamente, nessa fase durante o luto da minha mãe, eu deprimida e muitos se afastaram. Aliás, muitas pessoas se afastaram durante minha vida.  Esta experiência me desequilibrou. E até hoje me entristece e ajuda a me jogar em depressão. Eu que me descuide, que afundo na tristeza, sensação de inutilidade, falta das pessoas queridas, solidão, e o terror que é ser escritor sem público, arte no vácuo, me perguntava “prá que? Prá quem?”. Neste mundo editorial sacana, que publica celebridades, famosos, gente que nada tem a ver com escrita, e poucos escritores conseguem chegar a você, meu caro leitor.

Esta ferramenta de blog na internet criou outras possibilidades, mas hoje em dia, cada vez mais as pessoas leem menos. Quase se confinam nas sete palavras que é o que o cérebro registra.

Atualmente, encontro-me desempregada, ajudo meu esposo, escrevo, desenho quando consigo (raramente), luto para conseguir continuar escrevendo e compor um livro, com meus poemas e tenho projetos pela metade (vários) que gostaria de terminar mas não me sinto a altura. Recentemente achei meus textos uma porcaria. Senti-me desanimada e durante o ano passado, passei uns meses sem escrever.

Tentei me reanimar a duras penas, voltar à minha forma de criar, “colocar ideias para dormir” no que chamo de semi-inconsciente. Eu memorizava uma frase de três ou quatro palavras para repescar a ideia, dormia mentalizando a ideia, e passava o tempo elas se tornavam (nem sempre) inspirações e textos. Percebi que muitas coisas que escrevi e me perguntava “como que escrevi isso?” eram ideias que eu esquecia na cabeça.

Mas havia inspirações de momento que nem sempre eu consegui capturar em preto no branco. Muitas vezes, sob grande esforço desta memória que mais me prega peças, escrevi parte da inspiração, saiu diferente, mas algo ficou.

Vivo tentando serenidade, paz, boa relação com as pessoas, suportar a pobreza, fazer o que é possível, cuidar mais de mim.

Sempre tive esse lado esotérico, essa ligação com o desconhecido e também esse mundo simbólico em que minha alma vive. Simbolismo vem de longa data.

A literatura por ser esta arte difícil, de baixo reconhecimento, ignorada pela maioria das pessoas próximas, cria um isolamento, um sentimento difícil de explicar que atormenta quase todos escritores. É a arte sem público e tem que se acostumar a isso. A música é cheia de aplausos. Escultura e pintura têm exposição e prestígio. Cinema então chega a todos. Sem me alongar mais, todos os escritores prezam seus leitores e até tentam adivinhar o que eles pensam ou sentem lendo.

Por isso, eu leio outros escritores, prestigio seu trabalho, entendendo seu mundo, e que possuem forma diferente de ver o mundo, às vezes mais agradável, às vezes mais ríspida, mas arte é assim. Provoca a mente.

Pensem e duvidem de tudo o que leem.

O jornalismo tem sido muito manipulado e manipulador. Muitos escritores sobrevivem do jornalismo, mas a realidade é que não é possível sobreviver da Literatura. Muitos escritores se mataram, por diversos motivos, mas o financeiro também.

Eu tento sobreviver. Eu tento escrever. Eu tento vencer medos. Tento suportar as ausências. Tento vencer a depressão.  Tento dar o melhor e demonstrar amor aos meus filhos e marido, permitindo a expressão dos sentimentos, que na minha educação eram tão reprimidos.

É isso, não acaba o que tenho para contar, mas hoje é isso. Valorizo cada leitor e espero que leiam de fato, ao menos um dos textos. Abraços fraternos e eternos!! Beijo na testa.

Com carinho e cordialmente,

Mara Romaro

06/01/2017

Uma resposta de carta

Uma resposta de carta

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente uma herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Carta de Giovanna
“Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.”
Gi Romaro

Carta ao Silêncio

27 setembro de 2016 14:49

Carta ao Silêncio:

 

Num certo momento da noite, eu cerrei os olhos. Pensamentos e palavras circundavam as montanhas enevoadas com o resto de inverno. Eu não ouvia nada, apenas a respiração reluzia em correntes de ar a espreita do luar.

Rememoriei o olhar vazio de minha mãe, seu vácuo de silêncio zumbiu. Ela se foi e junto levou tantos anos para eu conseguir olhar de volta as lembranças de amor que ela me deu. Mas um dia, após tantos anos, em meu olhar distraído voltei à cozinha com as panelas no fogo, eu descascava as batatas e minha mãe cantarolava. Era um silêncio de sonata, calma balançava as cortinas da janela, e o sol piscava os olhos iluminando-nos.

Na serenidade de um violão, a solidão batia na minha porta, naqueles dias frios, o vazio era inevitável. Mas o pior foi que naquele momento de perda, perdi amizade que se afogou em silêncio. Eu sabia que precisava me segurar em alguma árvore verde, mas me senti fraca. Neste momento eu penso que a amizade sempre será linda, como um beija-flor voando, mas não posso mais deixar de saber o tempo enorme do silêncio que me açoitou dia após dia, me arrastou em correnteza.

Acredito em sinceridades. A esperança se veste em terno amarelo e marrom do bem-te-vi que tece o ninho em meu pinheiro, antes que os ventos mudem de direção.

Eu deixei com o tempo, as fotos amareladas serem levadas pelo vento.  Sem me importar tanto, a calma nos meus pés fizeram um momento quieto, quando pisei descalça no gramado. Meus pés foram abraçados pela patinha da gata, suas unhas me faziam retrair, sorrir e pedir para parar.

Lá pela madrugada calada, minha gatinha vive meu acordar, seus grunhidos perdidos na sombra diluída da noite se amansa junto aos primeiros passarinhos que rompem seu silêncio.

No caminho de sol, da vida estive com amigos a me seguir, alguns ao lado, filhos e amado marido, mas pessoas só foram até certo momento. A voz que se cala, é sempre uma derrota.

Gosto tanto de contar, mas eu conto demais, as cores evaporam, os horizontes fogem de mãos dadas.

Não importa aonde isso vai dar, o som de voz, é o que eu queria mais lembrar de minha mãe. Talvez amiga perdida no tempo da sinfonia de silêncio. E o vento me avisou que vai chegar e trazer umas chuvas para curvar as folhas da árvore.

As ameixas que não deu para comer, os morcegos as cercavam na noite de uivo.

O tempo não se cala mais, ele dança um tango, meu cabelo é livre e meu sorriso até pode ser calado. Não preciso despertar todo dia na mesma hora. Posso chegar no quentinho de casa quieta antes que o sol se ponha.

A paciência volta a ser meu piscar de olhos. Meus olhos não são vazios e relembro os bons olhos de mãe e de amor próprio.

Confesso sem dizer que meu ceticismo sobre as pessoas aumentou, são nuvens no céu, mas algo não suporto mais, são as pessoas frias, frívolas, hipócritas, arrogantes, que choram de barriga cheia, e as que são silêncio da pobreza de diálogo. Ou são surdas ou são mudas.

Por isso, às vezes me recolho, prefiro um chá triste, mas amanhã vai ter bolo, ou na curva do rio encontrarei novas pessoas que pescam ilusão, igual este silêncio quebrado de meus íntimos pensamentos que na paz encontro o som perfeito de mim mesma.

 

Mara Romaro

 

Verso da folha

Pensei grande parte deste texto antes de dormir ontem. Queria vencer o bloqueio de voltar a escrever, vencer minha apatia e meu próprio silêncio.

Música: Um dia de Noviembre – Leo Brouwer