Diário de Navegação – Travessia das cordilheiras de chumbo [5]

Enquanto as folhas do caderno adernavam virando páginas feito leque, sem parar, não rapidamente, mas pausadamente, com alguns momentos de um sopro divino vigoroso, tentando dizer em qual momento sua sorte cairia; eu me apoderei de pena de ponta de estanho, ranhurada e chanfrada a dar serifas na fonte de letra caligráfica, para o livro de capa dura, com acabamento de couro nas abas em tom de severidade, escuro e envernizado – o diário de bordo – para transcrever anotações que jamais em vida, me proporia a grafar, para olhos nenhum passarem correndo em leitura silábica. Era uma pena presa em suporte em madeira alongada e torneada, mais bojuda à frente e estreita na ponta traseira, cuja pintura adornada eram misturas de cores de tintas, manchadas à deriva e o tinteiro vidro, era um Waterman Encre Bleu-noir, apropriadamente um tom de azul marinho, em anoitecer. As palavras doces do poema, foram cerradas naquele caderno, amarrado, cujo cordão de couro requeria um nó marinheiro. Mas, anotações que fizera, de verdade ficaram em rascunho, quando ontem, olhava para o cabeçalho e escrevia a data, enquanto acalmava a mente vasculhando o mapa da costa sul argentina, dando vistas para a entrada do estreito, e os solavancos das águas começaram a se fazer ouvir, e fiquei horas, olhando folhas em branco, sem capacidade de cifrar qualquer caráter do alfabeto.

Dia 09 de Abril de 2018.

Transcrevo – Oceano que nublava e anoitecia a cada milha, um enrugar próprio, algoz e Read More

Diário de Navegação – Tempestade perfeita [3]

Dia 2 de abril de 2018. 11:09 H.  Latitude 24° em direção sul.

A ilha não se avistava, apenas sabia pois não identificava mais grunhidos de aves, eu estava mareada, deixei-me entre o chão, os braços no assento em forro impermeável azul branco de um banco, era continuismo, de uma jornada que gerou enormes sacrifícios e cicatrizes, dos setecentos dias entre 2001 e 2003, estava prestes a adormecer no assoalho, com ligeiras poças que venceram as pequenas barreiras da embarcação, em pouco tempo eu dividia o gelatinoso dos olhos com esses pequenos tecidos da água de sal, e me misturava, tentando botar em brilhos pequenos, o início de uma purga, algo que eu vomitasse diferentemente, que as palavras não me salvaram. Escritos me retorciam, a caligrafia arrastada, por vezes recalcada de letras que saíram às avessas, ou reescritas palavras que adivinhava no ilegível rabiscado, e tudo aquilo parecia sombra na minha pele, trechos que sabia, e toda aquela significação ignorada me embriagou em Read More

Diário do Universo Paralelo – Magnificência de Polaris [8]

Diário do Universo Paralelo – Magnificência de Polaris
Dia 26 Fevereiro 2018. 11:58H.

Por diversos dias, nesse exercício empírico imaterial, por vezes eu me vi confusa, o pensamento girava com as informações e se desprendia da última adriça, eu percebi a necessidade de registrar os detalhes, antes que os esquecesse, algumas anotações foram em garrancho para um caderninho minúsculo para minha preocupação. Comecei a recordar algumas coisas pelas quais passara, não houvera tido o cuidado de anotar devidamente o ocorrido, serviria para me esclarecer agora. Eu me programei para datilografar na velha máquina de meu pai, para isso não constar em uma mídia, porque somavam-se vislumbres que de certa forma perturbavam.

Por outros dias, estive lendo assuntos antagônicos, o lado da psicologia sobre Sugestão Read More

Diário de navegação – navegar [1]

Diário de navegação – navegar
12 de fevereiro de 2018. 11:45 H. Pç do Retiro | [1]

 

Hoje, cada passo reverberava o som do pisado, em uma dor esquecida, nas nozes do sacro, nas nozes da cabeça do fêmur. Ainda recordava dores lancinantes, do coração
queimado na fogueira da noite, hoje eu teria de recolher pepitas de carvão, quem sabe serviria para marcar meu caminho perdido.

O pica-pau catava coquinho, eu escutei seu piado, era diferente, cada o é.

Os coquinhos caídos, minhas lágrimas sangradas, uma tristeza continuada das mãos Read More

Diário do Universo Paralelo – Regressão [7]

Diário do Universo Paralelo – Regressão
Dia 31 de janeiro de 2018. 16:16 a 23:47 H. [Desenhos por Mara, caderno sketchbook, grafite kooh-I-Noor, lapiseira 0,5 e gravurizado à nanquim chinês em poucos traços.- recordações colhidas nas sessões.]

Sabidamente lido com meu inconformismo, lido teimosamente, talvez até estupidamente. A questão é que uma substância corrosiva, impertinente me alcança, talvez um ser que se alimenta das vísceras, talvez uma substância radioativa, fato que encontro um marco na vida, o qual já refleti quantas esquinas poderia ter dobrado para não chegar a ele.

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Diário do Universo Paralelo – Dimensão da Incumbência [6]

Dia 27 de janeiro de 2018. 10:30. Retiro das fontes. Sábado.  Waves – Max Richter

Este é um momento real, um vento que se afasta do solstício, há um farfalhar mais eloquente, as formigas voam e caem sobre mim. Isto é realidade, a sensação profunda das minhas limitações, meus cabelos desobedecem, meu sentimento acerca do sentimento. Isto não é pele ferida, mas uma sensação de múltiplas coisas, necessidades, ambições, ardência e convulsão.

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Diário do Universo Paralelo – Realidade alternativa [3]

Diário do Universo Paralelo –  Realidade alternativa
(Término: 22:16 | Mezanino e vela acesa. Computador do Lincoln na mesa, caderno na prateleira inferior, caderno de anotações, celular, playlist preferidas da hora MCRomaro elaborada por mim, lista ao vivo do Hans Zimmer no show de Praga. Termino ouvindo Live it now de Gary B. Sentada na poltrona com os pés nas almofadas dobradas e empilhadas, um recipiente de cristal com as canetas de uso, papel post it, caderno de estudos, dicionário e estojo de óculos vermelhos. Hora de ir fazer o sorvete. Trocar de óculos e acostumar à vista.)
Dia 12 de Janeiro de 2018 19:45

Larguei-me, não porque precisava descansar, mas porque olhar a moldura da janela, com a textura tramada sobre as pinceladas da nuvem parecia cobrir meus olhos de um tecido, fino, leve, eu desejei não estar aqui, não viver assim, sobravam-me pequenos resíduos de aroma da banana que eu caramelizei com glacê de limão, segredos meus em gotas, e uma xícara de café, neste momento, já não sei a cronologia.

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Diário do Universo Paralelo – nebulosa de Órion [2]

Sábado, 06 de janeiro de 2018. 20:58 h.

Não. Nunca basta começar algo, que simplesmente eu não sinta que tenho que prosseguir. Ontem, um clarão foi percebido no negrume da noite pelo meu esposo, eu acomodada nas almofadas do meu pensamento, ele me chamou a atenção para a lua que nasceria em instantes.

De fato, uma calma do ar, um reflexo da lua prenunciava seu nascimento, na silhueta silenciosa da montanha.

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Diário do universo paralelo [1]

|30 Dez 2017 11:21 a 13:52 | Descrição de sonho lúcido da loucura, essa que devo regar e deixar em forma diariamente para poder ser a poetisa de eu mesma. | Música: Kissing – Bliss

Não posso esperar o milagre da cura. Não por sentir e seus efeitos colaterais. Não há tempo para espera, não seria maravilhoso que acontecessem expressões que não podem ser faladas?

Não obstante não devo ignorar que causas e efeitos puderam impulsionar um tipo de vela, mas fui eu que a conduzi em lugares que deveria conhecer bem, tantas vezes andando por estas rotas rodeada de perigos diversos. Como sonhos masoquistas de gostar do cheiro do risco, das prováveis sensações de cair em si com as mãos vazias, o suor da frustração da ausência, e pior, conhecer o comportamento que me fere, me fere sempre, e não desisto de me espetar em espinhos para tocar as rosas, as quais não tenho mais coragem de arrancar do pé e ver desfalecer o rosto corado e vivaz.
É engraçado, porque quem escreve vive das andanças nas sendas de ilusão, vive tecendo comparações e sentindo, numa espécie de oitavo sentido, uma percepção aguda de coisas nunca vistas, mas também de um nono sentido, o de projetar acontecimentos impossíveis, realidades além da fronteira, mas a descrição desses lugares, paradisíacos ou sendas do recanto macabro dos malogros e fantasmagóricas alegorias perdidas e depostas dos sonhos inacabados e destruídos, dos destroços levados em barlavento para litorais gélidos.

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