Flamingo Flamenco

Flamingo Flamenco

(17/10/2017 16h) [   > Vídeo – Cosita de la vida – gary b ]

 

No momento que eu não estiver aqui

à luz do escuro

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Ida

Ida

 

Em sol de céu, mergulho meus olhos desprendidos.

A algum lugar que nem sei quero me calar

Despeço-me destas árvores verdes em seu retorcido buscar de luz

Dos pássaros que me cantam antes do amanhecer

Das crianças que quero conhecer

Deixo para lá e para cá, rastro de palavras inexatas

Despeço-me do sentido único

Das mãos frias

De panelas vazias

Nado piscinas de ilusão e tomo café com espuma de nuvens

Visto minha ventania

Avisto paisagens imaginárias de onde não posso

Despeço-me de meu telhado das chuvas de verão ruidosas

Das roupas rotas e dispo-me das vontades

Despeço-me dos ausentes

Distribuo meus presentes

Compro passagem só de ida

Despeço-me das flores não nascidas

Do relógio parado

Do meu sorvete de creme

Sigo nem pensando em querer

Ando

Caminho

Coração queimado e calejado das distopias

Despeço-me da minha fronha predileta, lençóis e papos de anjo

Carrego minhas pimentas, uma caneta e um saco de ferimentos

Despeço-me dos meus sonhos

Das suas sombras e falsos prazeres

Despeço-me do meu calar de não

Do meu senão

Do meu sinal

Do meu punhal

Despeço-me de todos os conceitos pré-formados

Dos livros que não li

Da necessidade imposta

Despeço-me dos meus cartões de plástico

Despeço-me da inutilidade da minha formação

Dos amigos longínquos, porém ausentes

Despeço-me do meu chorar

Do meu angustiar

Das claras em neve

Dos pincéis a dançar

Das pontas quebradas dos lápis que estão para acabar

Das tintas secas

Da boca seca

E do gargalo da garrafa

Tirarei todas as roupas e me deitarei sobre a pedra

A não esperar mais você.

 

Mara Romaro

18/2/16

10:15

Tocar de fragrância verde jade

A hora da manhã

um ferrão de abelha

não me perdoou

não senti

não foi nada como hoje

o café da manhã

Nunca senti assim

um tato

o calor da xícara

nem se parecia ao calor

de minha mão

Animais coloridos de porcelana

Meu olhar

já de tanto voar

já de tanto doer

Hoje nunca senti tanto

Os hexágonos do favo

desmancharam-se na minha

coroa de marfim

Nunca senti tanto

este remanso de aconchego

tão perto

com um arrepio que me vestiu

a nudez esquerda

o suez direito

Nunca senti tanto poder

do sangue florescido

nas jades líquidas

emaranhadas nos rios

da palma de minha mão

Nunca senti tanto esse aroma

E nunca esteve tão perto de mim

Meu olho úmido marolava

na margem do açúcar do

fundilho de café

E a saudade que senti

veludo do corpo de abelha

que me esqueceu na friagem

em primeira hora da manhã

Nunca senti tamanha proximidade

aos sais do vértice do

oceano morto adormecido

Nunca senti

você como um tecido antigo

passar como sombra

com voz de sol guardado

me contornando

como a pena de nanquim

Justo quando

me encontro tão derramada

Senti uma emoção

quando o sol me apertou

contra o chão

de um mel de abelha

que se acaichoeirou

um misto de parede de cera

de algo tão imaterial

me esculpindo feito

quartzos de sangue

em alguma luz aquecida

de meu esquecido grito

de um pequeno alento insano

Exalava

Exalava essa memória

verde jade

como flor de madeira

e de um tocar quase tão

imperceptível

não tão forte como vento

nem quieto como folhagens

nem silencioso

como natureza morta

nem impermanente

como afago de arrepio transcendente

de insípido cortar da chama ao dedo

da ânsia urgente

fossilizada em favo âmbar

Mara Romaro

8/10/2017 11:13

nunca esteve tão em mim quanto eu em você.

Roda d’água sempre

Roda d’água sempre

 

27 de setembro de 2017. 11:12 H.

 

Não. Não me venhas agora. Não antes. Nem depois. Preciso um durante, um ar refrigerado da manhã, com o mergulhão se lançando verticalmente ao lago, voa em seguida e eu não consigo saber se ele pegou o peixe.

Eu, quando fraquejo, tento coisas, para não me render, deixar cair de costas, olhos cerrados à beira do precipício de queda d’água.

Por isso, lido com meu físico e preciso sorver a fumaça invisível que espalha o lago na saliva de um doce morango.

Não. Não me venhas, porque há enormes lacunas, e todos os buracos só estão cobertos de capim, ah! É uma armadilha quebra-perna neste pasto desolado.

Eu ouço teu chamado, mas evoco a meu Deus, e não é mais com o coração enjaulado, ou feridas de coroa de Cristo, é completamente diferente.

Ah, sim, tudo que disse, sim provavelmente eu senti, provavelmente ao tocar nestas palavras uma pequena ruga tenha mudado meu olhar. Possivelmente minha garganta se ressinta, de mais uma vez ter me ferido contigo tanto assim.

Ah, não venhas aquiescida, evasiva, crivada de receios. Não posso mais suportar a forma ardilosa com que montas uma frase ambígua, a forma como desconversas. Nem faço perguntas, já não reparaste?

Eu costumava pensar que bastaria sorrir e dizer: contes-me o que te faz bem.

Não sei. Não sei qual rosto eu teria. Nem se poderia estar tão livre das marcas do açoite.

Meu espelho é ar vago, zangão zanzando a meio metro, formiga que rasteja junto a meus pés. No ar frio derradeiro e azul pálido, os passantes correm chacoalhando suas dores e grunhindo suas insatisfações.

Apenas um pato misterioso, se faz capaz de me embevecer. Por ora, lembro desta palavra proferida úmida na tua boca. Com alegria de pouco. Eu com ânsia de infinito que desconhecia.

Não, não me recordes agora, os milhares de dias inúteis.

Nunca é meu relógio de pulso, que marca 11:27, do seu nunca prometido e ao mesmo tempo renegado, tanto quanto o seu sempre.

O que posso ter certeza e contar é com nada. Eu gosto do nada, ele não me diverte, mas não me fere a sola do pé, eu piso as folhas e vejo caindo coisas do céu, que só eu percebo assim como um chamado em meio ao meu sono, quase na calada da madrugada. Não, não me venhas insólito, não me fustigues a esperança que planto nos novos sóis que possuo agora como amuleto, seco, folheado e guardado dentro de minha caderneta. Não é cinza como esta música.

Por outro lado, há meu lado esquerdo, que é destro também, que me atinge com um som, com um engolir de emoção de algo que se faz sobreviver no solo sólido solidão, a única solidez que conheço na tez, na minha permanência, na espera que renego a mim.

Virias me ouvir? Porque seria diferente de todas as análises, ifthenelse e elucubrações foscas cobertas pela renda do medo.

Nada posso subtrair. Nem tampouco tocar, temo até formular uma frase em voz alta… Pássaros assustados, gato arisco, só faço afugentar.

E me nego pensar na ausência e falta, essa queimadura de bolha estourada, em uma cicatriz de respingos brancos por toda face traseira da perna.

 

Enfim, eu sei o nunca e sempre que se misturaram, como uma cor errada, a cor que não é meu céu, nem minha vida. Eu sei. Sou enormemente feliz com tudo que tenho, até mesmo tudo que percebo e sinto, mas estou pronta para a trincheira, minha própria vivência de cada maravilhoso dia, que pertence também ao meu nunca e ao meu sempre.

E mais nada é a ti, não, nenhum desejo. A boca se ressecou e meu viço da primavera é algo novo, é algo imaterial que somente permito ao meu lado direito mentir ao esquerdo, e não revelar nada sempre nunca a ninguém.

 

A roda d’água de água de cheiro de mim.

11:45 H.

 

Mara Romaro

Memória: Sede. Sol. Brisa. Caminhada. Contemplação. Pato. Mergulhão. Alongamento. Leitura de Sagarana. Serenidade e saudade. Brinco de rosas. Relógio branco. Alpargatas no pé. Música: Grey – Ed Carsten, So lost in your love – Gary B, Hundrede Taer – Ed Carsten, Rays of hope – Oneke, The mission: The Gabriel’s Oboe – Ennio Morricone. Olfativa: Morangos e Emerald bvlgari.

As vezes a importância de uma conversa sincera presencial poderia tudo, mas o timing se perde e se faz necessário viver outras esperanças e diluir algo que machuca tanto.