Vinho Branco em Monsaraz e Noite Alentejo

Vinho Branco em Monsaraz

 

Estava a pensar nas safras, nas lavras e nas terras que quase nos consome.

Com uma emoção tomada em minha garganta, eu reli as cartas das uvas que escrevi – a mim, a ti, a ela.

Penso nas paisagens além, onde me perdi, pensei em ti.

Olhava em torno desejando um derradeiro reencontro como se tivéssemos nos prometido quando jovens, retomarmos nossas mãos, nossas bocas e em um lugar replantarmos nossa casta, deixarmos herdades aos nossos filhos com folhas verdes, diversas barricas arrumadas em caves.

Eu sentei imaginando nossa antiga casa, nos sonhos que tivéramos pensando em fugir para a vida, a encontrar o céu que prometemos observar em uma abertura no nosso teto, que nunca foi possível. O tempo passou, os céus giraram nem tão devagar.

Neste separar sinto em mim a busca, quero então mergulhar. Céu profundo e noite de cetim, nas terras ancestrais, nas aldeias de mim.

Viver o ar enfumaçado do fogo de lenha, cozer o pão que sovei minhas sinas.

Olhar dentro do braseiro, sozinha em casas seculares de pedra, seja ela em cercanias, em quintas ou na cidade de Marfim.

Eu quero colher palavras, novo pronunciar, novo balbuciar, tu estarás em mim.

Caminhando, viajante de comboios, por sobre morros e colinas, buscarei encontrar.

Colunata romana erigida e persistida.

Ruas calçadas a suor. Paredes caiadas de nuvem. Dormirei em estalagem antiga, com dormentes pintados de azul. Janelas brancas.

Trilhos de trens, apitos que me estremeçam pela manhã.

Uma xícara de café brasileiro – disto não abrirei mão, tostas emplastadas de compotas feitas à mão.

Andanças e lembranças. Anciãs tecelãs.

Vou me perder nas estradas de vinhas, chegar a adegas nas paragens do sul, vou escutar como é o piado dos Alcaravões e Cartachos, sentada à beira de barragens.

Descerei ao litoral a ver as vinhas de ares marítimos, vinhos frescos e longevos de herdade d’ajuda.

Busco as profundezas do céu infinito, além dos meus sussurrares, longe das minhas ruínas, da minha vida amargada pelas perdas.

Vou comer todo esse verde de campinas e vinhas, vou tornar meu sangue tinto de casta Aragonez.

Vou me escondendo em cada nova adega, me perdendo de mim e meus antigos paladares das adegas que perdemos, das vinhas secas e suas raízes.

Dormirei em tulhas abandonadas, dormirei meus sonhos, dormirei as saudades do sol de casa, de seu morno acordar. Dormirei em garrafas, sonharei com olarias onde estaria pintando cerâmicas diferentes das marajoaras que conheci.

Seguirei caminho de vida. Uma peregrinação perdida, em igrejinhas, capelas, conventos, santos de todos os meus dias. Esvaziarei do gosto aflito e encontrarei o vinho perfeito de Marfim.

Água em meus pés, frescor luso, ar ingênuo dos lugares que nunca vi.

Por fim quando quis me ir, para reencontrar-te além-mar, meu íntimo dizia isso ser impossível.

Tudo que escrevi e contei, tão difícil, eu escolhi o lugar do céu, dos vinhos, da secular tranquilidade, das estrelas a caírem sobre mim.

Encontrei em Reguengos de Monsaraz os monolíticos lugares antigos e seculares povos que ali se encontraram sob este mesmo céu.

Decidi que ia ali tomar os vinhos proibidos envasados em garrafas cerâmicas, inebriar na noite, encontrada em mim e perdida de ti.

Vagando planícies alentejanas, minha vida, minha busca de paz, se fez em solidão na noite nos monólitos de Cromeleques do Xerez, a respirar o ar dos mesmos que ali estiveram seis mil anos atrás.

Enquanto caminhar por entre os menires, certamente lembrarei os céus que mostraste para mim, colherei esperanças nas uvas crianças. Sentirei todos os amores impregnados em ti.

Esperarei que o novo dia nasça com os que amo perto de mim, nestes sonhos nas terras do Alentejo, nos caminhos de Évora, Portalegre e Reguengos do Monsaraz.

Percebo que nem tenho torras, nem café e o céu continua escondido por aqui, enquanto as palavras Moscatel me embebedavam de desejo.

 

 

Noite Alentejo

 

Sob o céu escuro de Monsaraz

As profundezas da minha procura

ou de minha busca de paz

 

Encontro um vulto

Perdida em monolíticas planícies

Rosto de sombra

Iluminado dos reflexos de uma nebulosa

 

Olhos de frutos das Vinhas

Brilhos da vinha

Vinha a mim

Boca tinta

Vinho em mim

Língua com aspereza de Mosto

de gosto,

perdida de espírito de carvalho

Vinha de mim

mãos que colhiam cachos de pensamentos

espremiam sentimentos perenes

Além deste viver

Além deste lago

Além dos rios e longas planícies

Muito além beijo

Além desejo

 

Beijos mornos de pães

Amor do moldar do barro

nas cinturas de argila

A noite acontece

Tece em lanifício

as cores dos vinhos

Bagaceiras de magnitude

Vasquinho adocicado

 

As estrelas chovem

sobre mim

sobre ti

Em teus olhos guardo

vejo além vejo

o beijo também

Olhos azeitados de oliva

Olhos frutados de uvas verdes

Castas Arinto

Vinhos brancos e tintos

Juntos brindamos à noite

à profundeza do céu enfim

tão longe das nossas vidas comuns

unimos amores

neste reencontro

desse desejo

 

Mara Romaro

27/04/2017 13:19

{ Estes dois textos – são um dueto em continuação-  foram descartados por mim no livro 005, mas são parte das cartas das uvas. Dueto composto para Do Mosto à Palavra da editora Chiado, os textos não venceram mas foram selecionados para o livro Do Mosto à Palavra- Vol I. }