Olhos que se

Olhos que se beijam

 

É algo que grita silenciosamente, dentro da minha garganta.

Sangra meus olhos.

Adormece no prelúdio de seu colo.

E durante o sono açoita minha vida.

Em madrugada de névoa elucida um quebra-cabeça de peças perdidas.

O despir dos olhos escuros nos brilhos perdidos em um dia que vem para me machucar, como se a música em seus movimentos aos poucos revelasse tudo para que tanto me ceguei.

Não há recomeçar. Não passa de um dia onde muito pouco se resolveu.

E o desejo vem à noite a me desafiar.

Percebo que não há amanhãs, nem os nuncas serão silenciados.

Onde se esvaiu a miragem?

Por que tanto medo do olho no olho?

Isto pareço instintivamente saber.

Onde a contenção irá se romper?

Achava que eram dois olhares. Descubro finalmente o terceiro?

Recuso-me ao meu martírio e ledo engano.

Não adiantou esconder em si, um dia um fato acerta a picareta

e tudo aflora em nascente.

O que era vertente verdade.

Mara Romaro

11/12/15 23:15

 

Nosso par

Nosso par

 

Das coisas que fiz na vida

Fiz ter você

Era guardar um ramo de alfazema no peito

Um cobertor em dois

Passeios

Mãos dadas, sempre guardadas na gaveta

Enquanto eu estava sozinha

Revisava seus carinhos guardados para mim

Dia vinte e três, era sempre uma proposta

Uma resposta

Um estar sem tempo para acabar

Era dia de chuva no mesmo guarda-chuva

Duas mordidas no meu churros

Passeio na garupa da vespa

Passeios onde não há nenhuma besta

Ah, e tantos assuntos

conversar sem rumo

um copinho de cognac

cosquinhas e massagem

Sabia que não era de passagem

Sorrisos trocados na carteira

Poucos centavos na feira

Filho

Filhas

Tanto amor e ao mesmo tempo problemas

Nunca quis deixar este esquema

As rusgas de fato, ciúmes

Sim, porque só eu sei

o que passei

E no fim, você foi meu crédito

meu rédito

E nossa cumplicidade de jardim de mato

flores de arbustos

Não sei como dizer

Como contar dos anos da vida

como contar quantas vezes me salvou o dia

como saber lhe dar o amor da melhor forma

que você precisa

E nossas barracas, nossas conversas de fogueira

O céu que nos abraçou das dificuldades

Nosso par foi meu grande bem estar

Foi um grande bem estar de viver

interrompidos nos dias de desentendimentos

com uma sofreguidão insuportável

E hoje sinto uma paz agradável

ao estar ao seu lado

e ter vivido com você

 

Mara Romaro

12/05/2017 11:40

 

 

 

Carta ao Vento II

Enquanto as primaveras ainda sorriam para mim, com seus dentes purpúreos, brancos ou pêssego; eu sentia o vento das folhas com cheiro de musgo, com céu que levanta para eu ir embora.

Eu ainda tinha que ir e você a arrastar as folhas pautadas por escrever, que estavam sobre a escrivaninha da minha mente.

Você sacudia a cortina semiaberta da janela posta sobre meus olhos.

Havia uma temperatura fresca como o bater de asas do beija-flor, sobre as flores brancas insistentes do meu jardim.

Um dia para se deitar no gramado molhado da densa chuva, a sentir você passar sobre meu rosto, embaraçar meu cabelo, sem a pretensão de trazer grãos de poeira ao meu olhar.

Assim, desfalecida a ver o céu abrindo as nuvens desfeitas.

Céu azul maestro dos seus gestos, estende seu braço carinhoso sobre meu rosto, no seu dedo leva as lágrimas que se perderam do meu coração. Pérolas órfãs de sentimentos, que você carrega para suas nuvens.

Vou indo, vou indo.

E quando as folhas verdes que você sacode, vão ficando prá trás; fico com o ouvido percebendo o rufar de sua respiração.

 

Vento que limpa meu céu de hoje,

meus olhos de agora

e transpiro o desejo de viver,

de sentir

o afeto da vida por mim

nas suas mãos.

 

 

Mara Romaro

II [09-02-2007 8:27 / 8:39]

O andar

O andar

Parece com o rugir da carroça. Vejo-me externa ao tempo, ao corpo, ao sopro.

Mesmo que eu ame a terra, flores, e o branco; não há mais nuvens desenhadas para mim.

As palavras nem me confortam tanto.

O que é verde me alegra, me revive, me revoluciona.

O que não há é pensamento que soluciona.

Me parece apropriado o que eu disse, que “o invisível é o pensar do sentir”.

Mas acredite, não há sinônimos, antônimos, Antônios ou Marias, nem água morna ou fria, que traduza fielmente o abstrato do sentimento. O que pensamos saber, na verdade não sabíamos. O que pensamos entender não entendemos.

E dos mistérios, encantos da vida, o dia que te oferece as mãos para o caminhar, soa-me tão errante, o caminho de beco, labirintos de rosa de ventos.

As palavras não me agasalham para o outono que se anuncia, nos ventos calados, nas três Marias, nas oportunidades que nunca chegam para amornar este frio.

As palavras… consigo-as no escrito, no entanto o que habito, são hálitos aflitos de não saber mais dizer, e poder no diálogo encontrar motivos para o que eu acredito.

Palavras têm almas, mas são amputadas de ações que estas nos cabem.

Só vejo agora uma forma de solução. O preço é tão alto, mas para quem está descalço o que é uma bolha no pé que mais tropeça na vida que vive pregando esta peça.

Enfrento o descanso, enfrento a procrastinação e continuo sem a devida luz do dia que nasce igual para todos.

Perco meu tempo às pessoas ilidas, que atropelam parágrafos, mas tem olhos atentos em inúmeros insignificantes momentos.

Queria por vezes desistir, ter pontes de abismo, porém de labirintos não há ponto de retorno, caminho feliz, como sair dele sem encontrar o caminho certo.

Risco palavras para não as repetir a mim mesma, palavras que a vida não me traz e não me sussurra… apenas o eco.

Não há como extinguir o infinito dizer.

Ainda bem que trago no bolso, alguns amuletos, que me remetem a uma visão distante, mas nítida, que com seu fascínio me conduz por florestas bonitas.

Diversos significados convergem à mesma coisa, são as pessoas que distorcem e maculam o branco. E daquilo que se quer acreditar nasce o néscio e destrói as cores vivas dos gestos da alma Sentir.

Mara Romaro 16/01/17

 

Prefirolesa de creme de baunilha e doce de laranja

Ainda que seja tarde

A meia-noite ainda não rompeu

A dúvida promete o brilho

Repensar ou verificar as sombras escondidas

É crucial para nos livrar do mal das máscaras

Deste teatro Kabuki

 

Ainda que sejam muitas palavras

Prefiro ao silêncio da morte

Silêncio da omissão e da rejeição

Sinceridades podem ser sempre conferidas no olhar

Pena que desviamos tanto, olhando o nada

que os arredores distraem

 

Ainda que seja sua intenção

tão mal julgada

Prefiro tê-las a passar o tempo enganando com razões vazias

Prefiro apertar as mãos sem gelo

Prefiro um sorriso vadio

 

Ainda que o tempo passe

Sigo com minhas queridas recordações

Certamente a mesma dor nunca pode trazer a mesma compreensão

Nas demais pessoas quando elas se fecham

Mas nem por isso eu esteja tão errada

 

Ainda que minha luz se apague,

Minha prece pode ser ouvida,

Meu sono não desvanece

O novo dia amanhece

Sempre  é possível ver a vida, as coisas, as pessoas

Com novos olhos que se abrem neste dia, com o sentimento que há dentro destas 24 horas.

 

As decisões que não se atrasem quanto adiantem

Muitos sentimentos e pensamentos serão as melhores cores das lâmpadas

Há o tempo certo para pegar a romã

Mas suas folhas brotam a cada nova estação

 

Ainda que o melhor lhe pareça

É sempre bom pensar se este não é o pior de alguém

O melhor caminho é o momento do coração sincero e de paz.

 

Mara Romaro

Verso da Folha:

20/11/15 12:13

Silêncio com barulho

A tristeza do não perene

do Caderno das Nascentes e Vertentes

Glossário

Prefirolesa – neologismo para um doce imaginário de sfogliatelle recheado com creme de baunilha, geleia de laranja e açúcar de confeiteiro para nevar de diálogo, esperança e a humildade permitirem que as pessoas corram o risco de vencer seus obstáculos e se darem mais a mão. Um doce para se servir quente do forno com café da tarde, para sorrir nos olhos e pensar quanto tempo perdido duvidando da verdade e do bom coração…

 

 

 

 

 

Projeções

Desse momento só quero guardar a lembrança.
A sensação da pele, da expressão do olho.
As sombras dos cabelos sobre seu rosto.
Desse momento só gostaria de guardar o gosto.
De um beijo mordido, de mãos seguras,
pensamentos acolhidos
no seu dorso.
Desse momento eu queria resgatar a sensação.
Ela estava dentro dos nossos rostos encontrados.
No toque da textura das peles desenhadas.
Nesse momento, encontros e passagens,
idas e vindas da vida,
filhos que vieram.
Mas o sentimento parece se reencontrar com o começo,
de uma paixão que acertou nossas árvores com seus raios.
E eu rememoriava outras transas no enquanto.
Seu rosto parecia outro.
Sua boca me cegou, seu amor me construiu.
E nossas mãos ainda estavam em nossos rostos.
O calor manso e a intensidade profunda
elas se projetavam em cores submersas de luzes.
Os suores esquecidos,
as nuvens se deitavam sobre minhas costas.
Rodopiamos e nenhum vento nos tocou.
Como se nos cobríssemos de nosso amor
Esquecidos do mundo e tempo.
Deste momento mais do que perdido, extremamente fugaz.
Quanta paz.
09/12/15 13:32
Mara Romaro

Caleidoscópio de Sabores

Sabor de acordar

parece o sabor de amar.

Quando você pensa que já sabe o gosto de tudo

sempre aparecem novos vapores.

Eu gostava de azeitona.

Encontrava tranquilidade em tomates.

Achava que nada poderia ser melhor,

até experimentar…

Mãe sempre conseguia colocar mágica naquilo que fazia.

Eu pensava que amizade parecia com pudim de num sei o quê.

Que os tropeços engraçados de uma amizade se pareciam àquela bala em pó de estralinho,

que um namoro de criança se parecia com guaraná.

Uma brincadeira de roda, amarelinha eram pirulitos de framboesa.

De repente, quando adolescente, pude entender a profundidade de um chocolate.

Esse era o sabor da felicidade. Nada poderia ser melhor.

 

Mas então, quando conheci sorvete, principalmente aqueles sorvetes de morango,

em casquinhas de cinema de matinê…

Um chá era canção de ninar mais predileta que eu tinha. Eu sonhava com anjos.

Enquanto mamãe amassava os ingredientes do pão de minuto,

seu amor diminuto estava em mim, em todo aquele aroma

adocicado da baunilha.

Nada mais sincero que uma baunilha.

Nos dias de infância tinha arroz doce, com a incrível intromissão da canela.

A janela aberta, com o vento sacudindo as abas da cortina,

o aroma do pêssego em calda de mamãe. Era um panelão imenso.

Quando passei um tempo com minhas nêsperas, enquanto eu as despia,

lembrava mamãe descascando os pêssegos.

Nunca pude entender os pêssegos.

E passava gritante a pamonha. Essa eu conheço de perto e de longa molenga data.

Mas, encontrei o amor, sabores mais ácidos, mais amargos, intensos. Sabores vermelhos.

Nem sei qual o descreve melhor.

Então, eu conversei com maçãs, a opinião delas era tenuemente adocicada.

Mas queria mesmo uma entrevista com a pimenta vermelha. Essa passava intensa e efêmera,

ardia e esquecia logo depois. O rocoto relleno era quase, mas não tanto.

Não podia traduzir o beijo.

Que temperatura era aquilo?

Então, conheci a cereja, mas ela era pequena e rápida.

Tive que esperar, sentir todos os aromas e vida se cozinhando em almoços e jantares desencontrados.

Por fim, achei a receita. Sim, aquilo era receita. Com principal e coadjuvante.

Contrastante sabor.

Mal pude esperar o natal de experimentar.

O aroma se levantava como alma dançante sobre o fogão,

A fervura era linda que se fazia esquecer a labuta.

Lá na geladeira o pudim alemão, carinhoso como cetim gelado nos dias de calor.

Mas a cor rubra da pele essa se intensificava na pele destemida de cada pera imersa naquela calda, vermelha intensa, com a consistência de calda antes de se formar uma geleia.

Aquelas peras em vinho sim, aquilo sim podia dizer profunda e verdadeiramente o sabor do beijo de amor.

Eu penso e sinto isso, cada vez me lembro e esse gosto invade minha pele, ela se aquece e se torna asas.

As paredes se abrasam, acendem em pequenos candelabros, inebriantes luzes de vinho tinto diluído em cor de groselha.

 

Mara Romaro

24/9/15 13:50

Quase perdi as palavras por três interrupções.

Nem sei que música. Segurei com unhas de felino atiçado e bravo para não perder esse fio de meada que queria escrever.

 

 

 

Cavalo

12.02.02 8.51

 

Nos meus desejos, quero poder montar no cavalo para cavalgar pela liberdade.

Nos movimentos do trote,

em harmonia,

saber que se complementa com um fiel amigo, que nada pode dizer.

Que sua forma de machucar

doe muito menos que o desprezo, a fuga, o abandono,  o preconceito.

No cavalgar sentir voar,

arrastando todas as desilusões para os pântanos,

derrubando todo fel sobre as pedras nos caminhos.

Abrindo as cortinas das paisagens longínquas,

pescando-as com as linhas do olhar profundo, da visão multidimensional,

com todas as cores

a selar

meu amor

pelo viver.

Poder ir sem retornos,

para o por do sol de minha vida,

sem carregar pesos,

a deixar flores e sutis poemas,

presos nas maçãs

do seu pomar.


Mara Romaro

Página em Branco

 

O tempo que vem é como a próxima página em branco,

que vou escrever.

Pode ser tudo, porque ainda é pura, é branca.

É como a bruma da madrugada, feito uma cortina

que se abrirá por minhas mãos.

Os feixes de luz, como reluzentes espadas de luz

estarão a abrir seu caminho,

através dos golpes desbravadores de seu ânimo.

Por um caminho branco haverei de andar para ouvir o

estrilar dos pedriscos, sentindo na brisa,

que tudo que está no meu colo é mais leve

do que poderia ser.

Os reflexos brancos e o som rítmico e contagiante

somente poderá advir dos brilhos dos dentes brancos

de possíveis sorrisos e risadas

que se ouvirão através dos cantos.

O pássaro que sobrevoa minha cabeça é

um branco de paz,

paz  tentada, pensada, desejada,

concedida nos atos e nas mãos estendidas.

Sejam abraços.

Sejam tempos de ventos em brisa.

Sejam eternos os amigos.

Sejam felizes os dias de sóis e luares.

Sejam amores encontrados, dentre os perdidos.

Sejam possibilidades, mas o encontrar.

Seja assim, seus bons tempos de agora até depois.

 

Mara Romaro

 

Verso da Página

28.12.2008 22:15 22:32

Para todos, amigos, irmãos, próximos e distantes,

ligados , amados, seus e meus entes.

cantus: Eros – L’aurora