Diário de Navegação – Travessia das cordilheiras de chumbo

Diário de Navegação – Travessia das cordilheiras de chumbo

 

Enquanto as folhas do caderno adernavam virando páginas feito leque, sem parar, não rapidamente, mas pausadamente, com alguns momentos de um sopro divino vigoroso, tentando dizer em qual momento sua sorte cairia; eu me apoderei de pena de ponta de estanho, ranhurada e chanfrada a dar serifas na fonte de letra caligráfica, para o livro de capa dura, com acabamento de couro nas abas em tom de severidade, escuro e envernizado – o diário de bordo – para transcrever anotações que jamais em vida, me proporia a grafar, para olhos nenhum passarem correndo em leitura silábica. Era uma pena presa em suporte em madeira alongada e torneada, mais bojuda à frente e estreita na ponta traseira, cuja pintura adornada eram misturas de cores de tintas, manchadas à deriva e o tinteiro vidro, era um Waterman Encre Bleu-noir, apropriadamente um tom de azul marinho, em anoitecer. As palavras doces do poema, foram cerradas naquele caderno, amarrado, cujo cordão de couro requeria um nó marinheiro. Mas, anotações que fizera, de verdade ficaram em rascunho, quando ontem, olhava para o cabeçalho e escrevia a data, enquanto acalmava a mente vasculhando o mapa da costa sul argentina, dando vistas para a entrada do estreito, e os solavancos das águas começaram a se fazer ouvir, e fiquei horas, olhando folhas em branco, sem capacidade de cifrar qualquer caráter do alfabeto.

 

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Diário de Navegação – Tempestade perfeita

[3 – Após – Libertar ]

 

Dia 2 de abril de 2018. 11:09 H.  Latitude 24° em direção sul.

A ilha não se avistava, apenas sabia pois não identificava mais grunhidos de aves, eu estava mareada, deixei-me entre o chão, os braços no assento em forro impermeável azul branco de um banco, era continuismo, de uma jornada que gerou enormes sacrifícios e cicatrizes, dos setecentos dias entre 2001 e 2003, estava prestes a adormecer no assoalho, com ligeiras poças que venceram as pequenas barreiras da embarcação, em pouco tempo eu dividia o gelatinoso dos olhos com esses pequenos tecidos da água de sal, e me misturava, tentando botar em brilhos pequenos, o início de uma purga, algo que eu vomitasse diferentemente, que as palavras não me salvaram. Escritos me retorciam, a caligrafia arrastada, por vezes recalcada de letras que saíram às avessas, ou reescritas palavras que adivinhava no ilegível rabiscado, e tudo aquilo parecia sombra na minha pele, trechos que sabia, e toda aquela significação ignorada me embriagou em tontura, a noite achegava-me, um lusco-fusco purpurinado, eu ainda ficava sentindo vestígios de beleza fantasmagórica de amor forte que me violentara a me fazer embrenhar nesta rota.

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As Pimentas

(29 Mar 2018. 21:30 a 22:10| Ao meu filho querido, herdeiro do gosto picante, boca bonita e palavras quentes.)

Se raiava o dia eu não sei
mas que rachava os acordes do cavaquinho
ah isso sim eu sei
Que no ar longe
Dona Carolina andava fumegante
fazendo sua carne assada picante
Eu num tinha comido fogo
Sempre tive meu fiapo de brasa
Guardado
Veio ao prato fatias grossas
Todas incrustadas de pimenta vermelha
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IV – Horto de Plantas Esculpidas

(Parte a – 18/09/2017 10:25)

Sempre que venho recostar os ombros aos pés da árvore, noto que tudo que está, há sempre um retoque, uma forma tangenciada pela mudança.

Caminho, a secar ao vento as águas pelas quais fui banhada. Avisto um pórtico, um lugar majestoso tocado pela esperança a dar-lhe uma nova forma nos vãos esculpidos pela cinzelação, concedeu frestas e versos apensos de onde se derramam plantas.

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II – Estátuas Humanas Estáticas

[após Esculturas submersas]

(06 de Setembro de 2017 14:27)

Em minha vida, já vira algumas coisas, trupes circenses, nossos próprios espetáculos de teatro e dança; eu não havia visto estátuas. Minha vida, eu a via como um rio misterioso.

Levava pelas mãos, minha filha e após comprar um sorvete que ela lambia em lambança, me mostrou um homem prateado, sob um pedestal a se assemelhar a um promontório granítico, falseado em sombreamento. Um chapéu calado solícito em vazio de moedas. O Read More

Lago verde

(22/03/2018 12:27)
Vens, querida raiz de musgo, visgo oculto em uma vida própria serpenteada. Tão linda vida.
Os mistérios me envenenam de estranhas fumaças, na noite, nos ares carregados na palha no bico de garça.
Mistérios em tapetes persas, em águas que fogem à temperatura, elas contrariam o curso natural, se esverdejam, se espalmam, conversam comigo na noite de mistérios.
Eu tento pegar seus brilhos, minhas mãos tocam paredes escondidas das costas revestidas por um robe atoalhado. E sinto uma textura morna, quando estendo dedos de
lamento.
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Uma frase a cada dia

Uma frase a cada dia

[Uns trinta dias de novas atitudes, fazer diferente, colher amuletos, sensações, percepções, poesia, ideias, atitudes renovadas, em uma frase, propósito de Desvício de pensamento, reerguer-se, evoluir. Descobrir coisas novas a fazer – sem dinheiro algum. Não use pretérito. Abstrações e Experiências. Coisas para ajudar-se e libertar-se dos pensamentos repetitivos. Melhorar o pensamento (equacionar como time sharing).] Em Jun a jul 2017.

[28] Mãos arrumaram os gravetos do ninho no canto alto da árvore, antes da chuva que se desenha.

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Tentorïum

Tentorïum (ilustração inacabada por Mara Romaro)

Que vento seria esse que me percorria pulsando?

Estava deitada, escutava o pulso, o batimento em meu pescoço. Sentia a nuca apoiada e o vento assobiar em meus ouvidos.

Alguns fios de cabelo foram acordando e lançavam feito flamejantes chamas.

Acima a cobertura se chacoalhava, inflando e expirando.

Percebi, ainda era noite.

Noite em silêncio profundo das árvores, do adormecido carvalho. Sem piados.

Do braseiro se erigiam um tufão de faíscas, que dançavam em redemoinho.

Agachei-me na minha tenda, retirei a coberta, joguei um cobertor sobre meus ombros.

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