Tenho que falar de Julieta de Almodóvar e Alice Munro

Tenho que falar de Julieta de Almodóvar e Alice Munro

 

Por sorte sentei-me a ver este filme desde a primeira cena, aquela cena já me mostrou a excelência da fotografia, cada quadro um retrato, uma composição artística elaborada desde o contraste da roupa mediante o ambiente. Percebe-se que o ambiente não é envolto em desfocar, justamente cada quadro, cada objeto da cena compõe beleza e austeridade da cena.

Não quero adiantar nada sobre enredo, aliás baseado no livro de Alice Munro, autora premiada, “Destino”, “Pronto” y “Silêncio”; que se baseia nos relatos de Julieta.

Enquanto assistia, um crescente suspense se movia para minha direção, as cores, as expressões dos atores, a imersão em sentimento cobriu-me por completo, como se eu pertencesse a tudo aquilo.

Senti-me completamente a Julieta começando a escrever sua estória, repleta de sentimento, de algo profundo e impactante.

Poucos filmes posso dizer – impactantes. Este é um. O melhor que vi recentemente.

Por ter sido cuidadoso na elaboração do script, sem perder o tom literário, completando-se na fotografia e locações primorosas.

O elenco foi maravilhoso, todas as cenas são reais, expressões de veracidade para mostrar a dúvida, a ânsia, a paixão, o amor, relações familiares, ar de reprovação, amor maduro, amizade, ruptura, desolação, consternação, e muitos outros sentimentos. Os atores foram incríveis encarnados nos papéis, sem usarem expressões cacoetes de escolas de teatro, uma naturalidade incrível.

Para o design chamo atenção, é obra de arte genial, tudo exatamente pensado, do ângulo, dos retratos, figurino maravilhoso, do quase psicodelismo e cores concedendo incrível equilíbrio no desenrolar, tudo muito bem concebido a dar-nos a sensação de imersão em um mundo sentimental.

Toca-me demais a temática, sinto-me dentro, mas de forma invertida, ademais conheço pessoas a viverem algo muito muito similar. É um tema muito importante para não ter sido escrito, e por estar tão próximo, acho que me reviveu coisas. Julieta escrevendo, nossa, fiquei arrepiada, como se fosse eu escrevendo recentemente meu livro.

Há uma beleza indescritível ao mostrar o amor e a feminilidade da mulher de cinquenta anos. Incrivelmente mostrada desde a alegria até sua consternação mais devastadora. Uma cena de sexo de imagem refletida muito intensa.

Locação da casa beira-mar é de precisão absoluta, sem ser uma casa caiada, ela contrasta as flores do canteiro, com mar ao fundo.

Suas janelas são molduras da intensidade dos sentimentos e viver.

É preciso viver Julieta de Almodóvar e depois disso, estou ávida a ler o livro de Alice Munro.

Logo no início mostra-se álbum de Ryuichi Sakamoto, este incrível compositor, cuja música do álbum de 2009, confere perfeito deslizar dos sentimentos, deslizar da angústia e do suspense, e cores de Almodóvar.

 

Mara Romaro

29/05/2017

Carta aos números

Carta aos números

 

Aos quatro do mês cinco de dois mil e sete, vinte horas de hoje. Fração do relógio. Fico pensando o que faço com a sexagésima parte do minuto?

Lanço meus passos binários de um pé após o outro, com o foco do olhar abrindo 180 graus de milhares de pessoas trilhando o tempo que elas pensam ter.

Desço degraus de noventa graus, com os meus dez dedos dos dois pés flexionando em busca do plano a zero graus.

A altitudes de 1000 acima do mar, na cidade dos bilhões.

Um. Uma. Aqui paralelizando meus decanos de pensamentos para pulverizar a 360 graus.

Minha vida que se leva, acelera a velocidades incríveis de 50 nós a estibordo, decolando os zilhões de fios de cabelos de espirais de DNA do cromossomo 21.

Séculos de vezes que tentamos decifrar as senhas da vida, e entrar para o universo de todas as latitudes.

Busco abrir sua janela de fronte a via láctea zerando todos os nulos, vazios e vácuos. Tantos alqueires para te dizer, e reservo meu lugar na mão infinita de Deus, nesta abóbada em curvatura de 360 dimensões.

Onde estava quando pingou a última e prima gota de orvalho dos céus inquietos e repletos dos mistérios da álgebra e relatividade?

Equações de x e y para obtermos o âmago de nosso tamanho.

Ventos a 10 jardas e 5 pés, impulsionam o pulsar de batimentos de 120 ao minuto que inicia a marco zero.

Aos três de doze que nasci, nove meses e luas.

Aos três filhos e doze filhos que eu e mãe tivemos, e das vidas subtraídas.

Aos 4 quilos chorei, aos nove quilos andei, nove engordei quando engravidei, pesei muitas vezes as reveses e erros, onde me enganei?

Uma em um milhão probabilidades de te ver, centenas de chances de perder o próximo ônibus.

Sentar na poltrona três, são chances diminutas.

Mergulhadores em taxas e percentuais desreferenciados das frações do tempo que lhe resta. Já comeu um oitavo? Dois oitavos? 3 ou 4 da pizza da sua vida?

Plural é para os outros.

Você é único, a voar a velocidade do som, cair pela gravidade dos fatos e fatores multiplicadores geralmente de problemas.

Tudo que eu queria era 1 miligrama de probabilidade de ser mais valiosa que d9nheiros, cifras , ganhos.

Sou doze avos da família onde meu pai diverge sua paternidade para mais filhos, netos, bisnetos de geração dos infames.

Décima geração.

Raiz quadrada de dois é um casal, que se multiplica em cinco.

E quantos mais virão?

E quantos mais precisarão morrer para você viver sua única vida?

Uma?

Tem certeza?

 

Mara Romaro

Verso da folha                                              Carta aos Números

[4/5/07 20:30 ]

Rodoviária em sexta-feira, fervendo de gente.

Quando vi a placa de inauguração : «Aos três…» tive a idéia, e as palavras estavam passando em minha mente. Bateu o desespero de perder as palavras, esperei 20 minutos até poder entrar no ônibus e escrevi com o ônibus andando.

 

Manifesto de Resistência da Literatura (minha humilde visão)

Manifesto de Resistência da Literatura

 

Eu, Mara, não sou ninguém, nada assim importante ou relevante. Apenas escrevo desde os sete anos.  Mas, nesta vida, em todos esses anos, vejo e percebo nas veias todas as dificuldades, que devem ser muito comuns a todos autores, escritores, poetas e poetisas, dramaturgos, jornalistas até.

Tem sido, desde sempre, incrivelmente difícil chegar a publicar os livros, receber o devido apoio a seus projetos, vencer o anonimato, vencer o público distante e não manifesto. E ser lido.

Outras artes contam com eventos de exposições, shows, apresentações, popularidade e a literatura é a solidão.

Pensando em tirar a literatura deste sarcófago, do conhecimento póstumo, trazer espaço na atualidade aos atuais, proponho algumas coisas mais abaixo.

Pensando na solidão, nas depressões comuns a escritores, questões até de pobreza, faço esta humilde reflexão, junto à comunidade que respeita a literatura, como preserva sua história, dá o sangue em nada em troca, engole em seco todas as ignoradas que recebe, inclusive dos seus.

Sim, também me afeto destes menosprezos e falta de espaço, e condições de sobrevivência, também fico no breu cada vez que se dá espaço aos já famosos, ou daqueles que nada tem a ver com a literatura e ocupam seus espaços.

Ainda que temos a internet, porém pouco se consegue sobreviver financeiramente da arte e conseguir se livrar do estigma de uma coisa sem importância, como se fosse um hobby, como se fizesse joguinho de palavras para as pessoas nem sequer pararem para ler, pensarem sobre o conteúdo.

A combater minha própria depressão, preocupo-me com todos escritores, em preservarmos a memória futura desta arte, não para os sarcófagos, mas para o respeito próprio e o respeito à cultura atual em tempo de viver.

Adoro os clássicos, mas pouco sei do que estão escrevendo atualmente, então, passei a dedicar meu tempo aos novos escritos e doei meus antigos livros para que outras pessoas pudessem ler.

Ainda , temos a mais difícil barreira… as pessoas estão parando de ler. Restam poucas e pouco deste hábito. Como se posts com frases feitas fossem em si suficientes. Não são.

 

Ações de preservação da literatura (e seus autores) e práticas de disseminação:

  1. Incentivar os projetos de outros escritores. Lendo por completo, comentando parte de conteúdo. Todo músico recebe aplausos, nós queremos opiniões, trechos que gostaram e porque gostaram.
  2. A cada texto, poema, conto, ensaio publicado na internet, tenha lido ao menos cinco de outros escritores, que não sejam os grandes já conhecidos.
  3. Ao comprar livros, a cada três livros, prefira dois de autores desconhecidos.
  4. Apoie emocionalmente e psicologicamente outros autores. Preservaremos vidas e literaturas futuras.
  5. Infelizmente ainda impera “santo de casa não faz milagre”, mas quebrar este paradigma requer um esforço sobre-humano. É comum que nossos próximos não consigam dar a devida atenção, apoio, respeito, nos momentos e durante as fases que mais precisamos acreditar. Muitos não irão nos enxergar como escritores. É importante que se encontre ouvidos caridosos que nos ouça. Então, o apoio mútuo entre escritores precisa ser uma Rede de Resistência (tal qual aquela na França…) para vencer uma ‘guerra’ de desânimo e crises internas que enfraqueçam a literatura.
  6. Está se sentindo desta ou aquela forma, de empolgado a estraçalhado: Escreva.
  7. Organize e preserve sua obra. Sim, está criando uma obra, então, precisa de sistemáticos backups, de acomodar todos seus manuscritos em um local reunindo-os. Gaste este tempo, evitará insanidade.
  8. Crie um registro de ideias, um caderno, arquivo, esboço, como quiser. Mas guarde. Reavalie.
  9. Estabeleça projetos futuros e os planeje. É motivador.
  10. Façamos uma nova rede de amigos escritores, e devemos encontrar um (ou uns) que possam ser nossos Anjos da Guarda da Literatura. Quando tudo parecer perdido e devastado, possamos falar e encontrar quem nos ampare e que saiba do que estamos falando.
  11. Não presenteie suas obras. As pessoas devem adquiri-las para valorizar o trabalho.
  12. Para as iniciativas de baixa tiragem, sugira nas dedicatórias o compartilhamento da obra com outros leitores.
  13. Façamos Sarais em nossas casas. Um chá e café, bolachinhas, nada de grandes produções. Assim, as pessoas começarão parar para ler e ouvir literatura.

#ApoieLiteratura #VamosLer #Leia poesia #EnviecomentariosaosEscritores #NãoCurtaOQueNãoLeu #SoudaResistenciadaLiteratura

 

Mara Romaro

24/02/2017

Fim do começo

Fim do começo

 

Foi depois do antes

que percebi o fim do começo,

daquele vazio infinito,

parecia que não tinha havido nada,

não pude saber os abismos daquela horizontal,

pois não havia ponto de fuga em meu amanhã.

Das incoerências, a maior era estar viva,

dos mistérios o menor era permanecer viva.

A angústia maior era a pequena dúvida,

a esperança me impelia a continuar com qualquer coisa,

a insistência dos erros me barrava os novos caminhos,

o olhar quebrava a coragem de saber as respostas, não haverá ânimo para se dar passos sem saber a verdade. Em quantos buracos atolarei ainda meu pé?

No escuro ainda procurará estrelas,

no claro procurará nuvens.

Não restará outra coisa a não ser procurar.

Não haverá mapas, nem guias, nem caminhos, nem pé, nem cabeça.

Não haverá eu, nem ninguém, nem nada para segurar, a não ser uma enorme agonia que arrebentará o peito, e nem lágrimas caberão em seu enorme vazio.

Não existirá.

Foi porque antes do depois não coube amor no infinito mesquinho humano.

 

Mara Monteiro da Costa

Verso da Folha                                        Fim do começo

[05-09-1986/ 20:40H]

Quantas inquietações! Não sei como profetizei minha vida; somente agora posso compreender o que escrevi.

Das antigas páginas do diário “Verbo ad Verbum”.

 

Fluir

Palavras da semana:
Fluir – (Lat. fluire – fluir, escorrer), em esperanto é fluo.
transitivo indireto e intransitivo
correr com certa abundância ou em fio (a propósito de líquido); manar.

Ao colocar os pés na água de um riacho, a água que passa não fica, não traz, não leva, fisicamente não, porém não há quem não sinta este fluir. É um princípio básico da harmonia, não havendo a distinção do ruim ou bom, o equilíbrio se dá de ambos. A fluidez nos conscientiza do tempo, inspira e incentiva a produzir algo a ser emanado sem a escolha de onde irá ou para quem.

Mara Romaro

06/02/2017

Dia Moco

O dia começa estranho

Esqueço em casa os óculos

Para meus olhos não castanhos

Por conta do meu pensamento moco

Chuva me atrasa um tanto

Quando me deparo com um obstáculo

Duas enormes galinhas ciscando ao barranco

E eu feito um idiota cocho

Logo cedo correndo atrás de frango

 

Mara Romaro

16/01/17 10:30

Dedicado ao dia que começa bobo ao meu esposo, nada mal para uma segunda-feira.

 

 

Tempo de se preparar

Interrompi meu olhar quando percebi os ventos. Eles tremeram a porta. As roupas pareciam se curvar ao céu sugadas com violência. Percebi com estranheza os coqueiros ao fundo que eles curvavam suas folhagens para o lado. Apenas o cacho de coquinho parecia enfrentar corajosamente os ventos.

Uma intensa luz amarelada refletia um facho de sol nas partículas de poeira, mas o céu temível e negro, revolto junto com nosso olhar inseguro.

Roupas amontoadas na cadeira, freneticamente eu andava daqui ali, para guardar isso ou aquilo no rancho. Quantas folhas se curvavam que me fez temer pelo pinheiro.

De repente parecia que como marteladas, gotas pesadas começavam a bater, antecipadamente ao nosso sobreaviso.

Pus me adentro, enquanto por um momento apenas uma leva de chuva pesada chegou ruidosamente ao gramado crescido, o vento calou-se. Apenas o peso da água raivosa curvava as folhas curvas da palmeira e lhe arrancou a mais ressequida.  As romãs nem amadureceram e já estavam estragadas.

Enfim, naquela janela eu podia ver a tempestade dançar em ventos e pequenas revoadas brancas como se os pingos fossem pássaros. Havia splash enorme da água caindo das calhas e eu com meus pensamentos me reformulando para os dias seguintes e a enorme dificuldade que se aproxima.

Devo fazer dos meus dias o libertar dos pássaros, não esperar que coem meu café, que me abracem com sinceridade, ou que reconheçam minha expressão mais incalculável do olhar.

Não posso esperar que todo tempo passe tão calado, ou que as palavras me divirtam sem seriedade.

Preciso pintar as palavras e escrever melhor os desenhos, preciso mergulhar neles que nesse afogamento salvar meu íntimo.

Eu poderia molhar-me agora e dessa chuva, arrancar essa permanência. Os temores poderiam ser de álcool e evaporar. E se eu quiser posso ser melhor do que essa insônia ou essa nevralgia.

Não posso esperar que alguém venha consertar o quebrado, alinhar as curvas, decifrar meu desenho, satisfazer meu sonho e cozinhar minha comida. Eu preciso encontrar força que me deixe fazer mais sem tanta ilusão, sem pensar nas pessoas e seus anseios, traduzir esse emaranhado de plantas que nascem e morrem sem ter nascido.

Ainda que sozinha no meu espírito, quero caminhar o dia com essas dores mesmo, aproveitar a vista do morro, e percebo tanto. Tanto capto com meus sentidos que nunca consigo exprimir nas minhas obras e mesmo que eu pense delas serem tão insensatas, quero prosseguir sem destruí-las mais. Não mais.

A chuva parou seu ar destruidor em meu momento de olhar, a luz interrompida com o fim do dia caindo e o contraste se iniciando num silêncio impiedoso.

Estivemos por dado instante, agradecidos que fizéramos tudo antes e também por eu ficar ali alisando a barba dele por momentos sem tamanho, cada um com seu pensamento e com sua própria conversa.

E o jeito foi acender uma vela, comermos uma comida simples e tímida, ter esperança de amanhã. Quando a manhã de domingo, só nos coube tirar pragas e cortar a grama. Extenuados de nossa condição e concentrados naquele afazer, eu tentava fugir de qualquer conversa que nos levasse a reclamar. Descobri então flores da azálea asfixiadas das samambaias e quebra-pedra que lhes invadiu o espaço. Havia flores ocultas esquecidas e nunca vistas.

E depois de tudo, fui cuidar dos espinhos e feridas em minhas mãos. Assim foi mais um dia.

 

Mara Romaro

14/12/15 10:42

Música: Visitation, Opening – Carol movie Soundtrack

Minhas percepções da tempestade de sábado e cotidiano. Pensamentos.