Não era nada mais do que um tropeço

Não era nada mais do que um tropeço, um soluço, um engasgo. Um passo adiante da poça d’água para continuar, incessantemente, na sua ânsia desesperada de um depois, de uma chance, de novo dia, o reencontrar-se, alguma coisa advinda, um olho a piscar, a flor que nascer, a dor que morrer, um sabor que se adocicasse o desencanto, um espanto, uma surpresa, uma riqueza, uma gestação, a próxima estação, o porvir, insistente e condolente, crianças nascidas e as renascidas, quem sabe o abraço, descanso do cansaço, uma palavra que seja tocante, uma correspondência, descobertas, um novo lugar, o transpor, um copo de água, um beijo, o depois amor, então, na máquina de escrever, o tilintar continua e para o escritor e poeta, pensamento do sentimento itinerante, o ponto final nunca foi nada além. Apenas um suspiro, um prender de respiração, diante da sua própria vida dilacerada. Nem ponto e nem fim de livro são conclusão. E refolheando a gente descobre tantas outras coisas, sentidos de outra cor, vazios preenchidos e senhas para frases ocultas dentro de tudo que achamos ser suficiente ter sido escrito. Ponto final que nada! Tudo ainda pode ser…

Mara Romaro 22/06/2017

 

 

Divagações no mundo paralelo

Divagações no mundo paralelo

 

Tudo me passa na mente, toma frente no caminho e vejo que tenho que correr.

A despeito de inspirar, o ar me entra lúcido, obeso, eu sorvo coordenadamente dos seus átomos, mas logo cuspo fora o caroço.

Desta forma me iludo, sei que adentro um túnel, um túnel de vida, com percalços saindo em contramão.

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Carta aos números

Carta aos números

 

Aos quatro do mês cinco de dois mil e sete, vinte horas de hoje. Fração do relógio. Fico pensando o que faço com a sexagésima parte do minuto?

Lanço meus passos binários de um pé após o outro, com o foco do olhar abrindo 180 graus de milhares de pessoas trilhando o tempo que elas pensam ter.

Desço degraus de noventa graus, com os meus dez dedos dos dois pés flexionando em busca do plano a zero graus.

A altitudes de 1000 acima do mar, na cidade dos bilhões.

Um. Uma. Aqui paralelizando meus decanos de pensamentos para pulverizar a 360 graus.

Minha vida que se leva, acelera a velocidades incríveis de 50 nós a estibordo, decolando os zilhões de fios de cabelos de espirais de DNA do cromossomo 21.

Séculos de vezes que tentamos decifrar as senhas da vida, e entrar para o universo de todas as latitudes.

Busco abrir sua janela de fronte a via láctea zerando todos os nulos, vazios e vácuos. Tantos alqueires para te dizer, e reservo meu lugar na mão infinita de Deus, nesta abóbada em curvatura de 360 dimensões.

Onde estava quando pingou a última e prima gota de orvalho dos céus inquietos e repletos dos mistérios da álgebra e relatividade?

Equações de x e y para obtermos o âmago de nosso tamanho.

Ventos a 10 jardas e 5 pés, impulsionam o pulsar de batimentos de 120 ao minuto que inicia a marco zero.

Aos três de doze que nasci, nove meses e luas.

Aos três filhos e doze filhos que eu e mãe tivemos, e das vidas subtraídas.

Aos 4 quilos chorei, aos nove quilos andei, nove engordei quando engravidei, pesei muitas vezes as reveses e erros, onde me enganei?

Uma em um milhão probabilidades de te ver, centenas de chances de perder o próximo ônibus.

Sentar na poltrona três, são chances diminutas.

Mergulhadores em taxas e percentuais desreferenciados das frações do tempo que lhe resta. Já comeu um oitavo? Dois oitavos? 3 ou 4 da pizza da sua vida?

Plural é para os outros.

Você é único, a voar a velocidade do som, cair pela gravidade dos fatos e fatores multiplicadores geralmente de problemas.

Tudo que eu queria era 1 miligrama de probabilidade de ser mais valiosa que d9nheiros, cifras , ganhos.

Sou doze avos da família onde meu pai diverge sua paternidade para mais filhos, netos, bisnetos de geração dos infames.

Décima geração.

Raiz quadrada de dois é um casal, que se multiplica em cinco.

E quantos mais virão?

E quantos mais precisarão morrer para você viver sua única vida?

Uma?

Tem certeza?

 

Mara Romaro

Verso da folha                                              Carta aos Números

[4/5/07 20:30 ]

Rodoviária em sexta-feira, fervendo de gente.

Quando vi a placa de inauguração : «Aos três…» tive a idéia, e as palavras estavam passando em minha mente. Bateu o desespero de perder as palavras, esperei 20 minutos até poder entrar no ônibus e escrevi com o ônibus andando.

 

Manifesto de Resistência da Literatura (minha humilde visão)

Manifesto de Resistência da Literatura

 

Eu, Mara, não sou ninguém, nada assim importante ou relevante. Apenas escrevo desde os sete anos.  Mas, nesta vida, em todos esses anos, vejo e percebo nas veias todas as dificuldades, que devem ser muito comuns a todos autores, escritores, poetas e poetisas, dramaturgos, jornalistas até.

Tem sido, desde sempre, incrivelmente difícil chegar a publicar os livros, receber o devido apoio a seus projetos, vencer o anonimato, vencer o público distante e não manifesto. E ser lido.

Outras artes contam com eventos de exposições, shows, apresentações, popularidade e a literatura é a solidão.

Pensando em tirar a literatura deste sarcófago, do conhecimento póstumo, trazer espaço na atualidade aos atuais, proponho algumas coisas mais abaixo.

Pensando na solidão, nas depressões comuns a escritores, questões até de pobreza, faço esta humilde reflexão, junto à comunidade que respeita a literatura, como preserva sua história, dá o sangue em nada em troca, engole em seco todas as ignoradas que recebe, inclusive dos seus.

Sim, também me afeto destes menosprezos e falta de espaço, e condições de sobrevivência, também fico no breu cada vez que se dá espaço aos já famosos, ou daqueles que nada tem a ver com a literatura e ocupam seus espaços.

Ainda que temos a internet, porém pouco se consegue sobreviver financeiramente da arte e conseguir se livrar do estigma de uma coisa sem importância, como se fosse um hobby, como se fizesse joguinho de palavras para as pessoas nem sequer pararem para ler, pensarem sobre o conteúdo.

A combater minha própria depressão, preocupo-me com todos escritores, em preservarmos a memória futura desta arte, não para os sarcófagos, mas para o respeito próprio e o respeito à cultura atual em tempo de viver.

Adoro os clássicos, mas pouco sei do que estão escrevendo atualmente, então, passei a dedicar meu tempo aos novos escritos e doei meus antigos livros para que outras pessoas pudessem ler.

Ainda , temos a mais difícil barreira… as pessoas estão parando de ler. Restam poucas e pouco deste hábito. Como se posts com frases feitas fossem em si suficientes. Não são.

 

Ações de preservação da literatura (e seus autores) e práticas de disseminação:

  1. Incentivar os projetos de outros escritores. Lendo por completo, comentando parte de conteúdo. Todo músico recebe aplausos, nós queremos opiniões, trechos que gostaram e porque gostaram.
  2. A cada texto, poema, conto, ensaio publicado na internet, tenha lido ao menos cinco de outros escritores, que não sejam os grandes já conhecidos.
  3. Ao comprar livros, a cada três livros, prefira dois de autores desconhecidos.
  4. Apoie emocionalmente e psicologicamente outros autores. Preservaremos vidas e literaturas futuras.
  5. Infelizmente ainda impera “santo de casa não faz milagre”, mas quebrar este paradigma requer um esforço sobre-humano. É comum que nossos próximos não consigam dar a devida atenção, apoio, respeito, nos momentos e durante as fases que mais precisamos acreditar. Muitos não irão nos enxergar como escritores. É importante que se encontre ouvidos caridosos que nos ouça. Então, o apoio mútuo entre escritores precisa ser uma Rede de Resistência (tal qual aquela na França…) para vencer uma ‘guerra’ de desânimo e crises internas que enfraqueçam a literatura.
  6. Está se sentindo desta ou aquela forma, de empolgado a estraçalhado: Escreva.
  7. Organize e preserve sua obra. Sim, está criando uma obra, então, precisa de sistemáticos backups, de acomodar todos seus manuscritos em um local reunindo-os. Gaste este tempo, evitará insanidade.
  8. Crie um registro de ideias, um caderno, arquivo, esboço, como quiser. Mas guarde. Reavalie.
  9. Estabeleça projetos futuros e os planeje. É motivador.
  10. Façamos uma nova rede de amigos escritores, e devemos encontrar um (ou uns) que possam ser nossos Anjos da Guarda da Literatura. Quando tudo parecer perdido e devastado, possamos falar e encontrar quem nos ampare e que saiba do que estamos falando.
  11. Não presenteie suas obras. As pessoas devem adquiri-las para valorizar o trabalho.
  12. Para as iniciativas de baixa tiragem, sugira nas dedicatórias o compartilhamento da obra com outros leitores.
  13. Façamos Sarais em nossas casas. Um chá e café, bolachinhas, nada de grandes produções. Assim, as pessoas começarão parar para ler e ouvir literatura.

#ApoieLiteratura #VamosLer #Leia poesia #EnviecomentariosaosEscritores #NãoCurtaOQueNãoLeu #SoudaResistenciadaLiteratura

 

Mara Romaro

24/02/2017