Infinito Céu azálea

Infinito

Céu azálea     (06 Abr 2018 10:07, ilha do lago Major)

Um duelo de sons de cordas
O lago de céu aprisionado
Gaivotas de brilho derretido
O cálice dança nas mãos
Vinha o vinho amadurecido
em piruetas imperceptíveis

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Diário de Navegação – Calmaria turquesa

[ 4 – após Tempestade perfeita ]

Dia 06 de Abril de 2018. 12H. Latitude 42˚ 49’ 46’’ S, 745 milhas percorridas no último trecho.

 

Uma madrugada insone, sem chuva, sem nome, sem vento forte; e meus olhos decantavam, um copo rolava pelo chão em semi-círcunferência, apesar de estar franzina e meus olhos guardarem areias de prantos de últimas milhas, o corpo se levantou, como que um reflexo vivo.

Notara uma primeira alteração nos tons do céu, através da escotilha, esta quadrada de cantos arredondados, numa espécie de delicadeza, algo invisível à penumbra me eletrizou e um relâmpago de ânimo se fez em quebra de silêncio, a puxar um assobio musicado, uma relembrança esperançosa, e após uma distância quebra mar de nuances agrafitadas com um desenho displicente, borrado a dedos, sem intento aparente. Percebi-me em um céu diferente, quase um aquário suspenso, uma pintura sugestiva de seres, um movimento submerso fazia eu movimentar emoções, elas continham uma sensação tênue de tocar.

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Estrela Cadente

Estrela Cadente

(02 Abril 2018 0:17)

Um poema de amor para oceano celeste

Quando minha boca se tocou
Os gestos vazios no eco das ranhuras
de intrincadas texturas
Se fizeram em voos límpidos
em mim mesma
_                   ouvi a voz do desespero
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Diário de Navegação – Tempestade perfeita

[3 – Após – Libertar ]

 

Dia 2 de abril de 2018. 11:09 H.  Latitude 24° em direção sul.

A ilha não se avistava, apenas sabia pois não identificava mais grunhidos de aves, eu estava mareada, deixei-me entre o chão, os braços no assento em forro impermeável azul branco de um banco, era continuismo, de uma jornada que gerou enormes sacrifícios e cicatrizes, dos setecentos dias entre 2001 e 2003, estava prestes a adormecer no assoalho, com ligeiras poças que venceram as pequenas barreiras da embarcação, em pouco tempo eu dividia o gelatinoso dos olhos com esses pequenos tecidos da água de sal, e me misturava, tentando botar em brilhos pequenos, o início de uma purga, algo que eu vomitasse diferentemente, que as palavras não me salvaram. Escritos me retorciam, a caligrafia arrastada, por vezes recalcada de letras que saíram às avessas, ou reescritas palavras que adivinhava no ilegível rabiscado, e tudo aquilo parecia sombra na minha pele, trechos que sabia, e toda aquela significação ignorada me embriagou em tontura, a noite achegava-me, um lusco-fusco purpurinado, eu ainda ficava sentindo vestígios de beleza fantasmagórica de amor forte que me violentara a me fazer embrenhar nesta rota.

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As Pimentas

(29 Mar 2018. 21:30 a 22:10| Ao meu filho querido, herdeiro do gosto picante, boca bonita e palavras quentes.)

Se raiava o dia eu não sei
mas que rachava os acordes do cavaquinho
ah isso sim eu sei
Que no ar longe
Dona Carolina andava fumegante
fazendo sua carne assada picante
Eu num tinha comido fogo
Sempre tive meu fiapo de brasa
Guardado
Veio ao prato fatias grossas
Todas incrustadas de pimenta vermelha
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IV – Horto de Plantas Esculpidas

(Parte a – 18/09/2017 10:25)

Sempre que venho recostar os ombros aos pés da árvore, noto que tudo que está, há sempre um retoque, uma forma tangenciada pela mudança.

Caminho, a secar ao vento as águas pelas quais fui banhada. Avisto um pórtico, um lugar majestoso tocado pela esperança a dar-lhe uma nova forma nos vãos esculpidos pela cinzelação, concedeu frestas e versos apensos de onde se derramam plantas.

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Diário de navegação – Libertação

27 Março 2018. 19:32 H. Chuva. Latitude 23° 07’01’’ S, Longitude 46°33’01’’ O.

Incomum precipitação vem-me de encontro, como último assombro em retração das fibras apodrecidas das amarras, e os nós com esgotamento dos fiapos mais resistentes restantes na trama retorcida da corda mais antiga e mais longa, que me impunha peso e tensão.

As fibras naturais de sisal em arrebentação, deste último relâmpago de choque de umidade e repuxo. O pensamento desprende-se de seu antigo cativeiro, pois há no final da garganta coisas não faladas, nos braços, movimentos que contidos estão imensamente atrofiados nessa relutância, na mente o vento chegou para desfolhar as folhas soltas, borrar tudo, rescrever e deixar à queima, rascunhos sem serventia.

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III – Máscara Esculpida em Rosto

(12 de Setembro de /2017) [após estátuas humanas estáticas]

Mãos que conferem o entalhe da máscara, tateiam com seus dedos de cego, alisando e retirando as poeiras lixadas. Sendo vivaz, essencialmente tempo, reuniu partes de marfim marchetadas à madeira clara em formato alongado, um queixo distante, uma boca cujo lábio inferior era abundante.
Na cavidade ocular uma fissura retilínea na horizontal, curva nas laterais, permitia a visão estreita focada num ponto de intersecção. Aquela máscara, essencialmente inferiorizada, apesar de limitação, era a sua marca de contato visual.
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