Carta ao Vento II

Enquanto as primaveras ainda sorriam para mim, com seus dentes purpúreos, brancos ou pêssego; eu sentia o vento das folhas com cheiro de musgo, com céu que levanta para eu ir embora.

Eu ainda tinha que ir e você a arrastar as folhas pautadas por escrever, que estavam sobre a escrivaninha da minha mente.

Você sacudia a cortina semiaberta da janela posta sobre meus olhos.

Havia uma temperatura fresca como o bater de asas do beija-flor, sobre as flores brancas insistentes do meu jardim.

Um dia para se deitar no gramado molhado da densa chuva, a sentir você passar sobre meu rosto, embaraçar meu cabelo, sem a pretensão de trazer grãos de poeira ao meu olhar.

Assim, desfalecida a ver o céu abrindo as nuvens desfeitas.

Céu azul maestro dos seus gestos, estende seu braço carinhoso sobre meu rosto, no seu dedo leva as lágrimas que se perderam do meu coração. Pérolas órfãs de sentimentos, que você carrega para suas nuvens.

Vou indo, vou indo.

E quando as folhas verdes que você sacode, vão ficando prá trás; fico com o ouvido percebendo o rufar de sua respiração.

 

Vento que limpa meu céu de hoje,

meus olhos de agora

e transpiro o desejo de viver,

de sentir

o afeto da vida por mim

nas suas mãos.

 

 

Mara Romaro

II [09-02-2007 8:27 / 8:39]

Fim do começo

Fim do começo

 

Foi depois do antes

que percebi o fim do começo,

daquele vazio infinito,

parecia que não tinha havido nada,

não pude saber os abismos daquela horizontal,

pois não havia ponto de fuga em meu amanhã.

Das incoerências, a maior era estar viva,

dos mistérios o menor era permanecer viva.

A angústia maior era a pequena dúvida,

a esperança me impelia a continuar com qualquer coisa,

a insistência dos erros me barrava os novos caminhos,

o olhar quebrava a coragem de saber as respostas, não haverá ânimo para se dar passos sem saber a verdade. Em quantos buracos atolarei ainda meu pé?

No escuro ainda procurará estrelas,

no claro procurará nuvens.

Não restará outra coisa a não ser procurar.

Não haverá mapas, nem guias, nem caminhos, nem pé, nem cabeça.

Não haverá eu, nem ninguém, nem nada para segurar, a não ser uma enorme agonia que arrebentará o peito, e nem lágrimas caberão em seu enorme vazio.

Não existirá.

Foi porque antes do depois não coube amor no infinito mesquinho humano.

 

Mara Monteiro da Costa

Verso da Folha                                        Fim do começo

[05-09-1986/ 20:40H]

Quantas inquietações! Não sei como profetizei minha vida; somente agora posso compreender o que escrevi.

Das antigas páginas do diário “Verbo ad Verbum”.

 

Mágico Damião

“Respeitável público;

tenho a honra de apresentar,

o inestimável,

Mágico Damião”

 

Para toda manhã vazia,

há sempre uma ventania e

Aquele despertar.

E vem aquele Damião,

todo de fraque,

falta a cartola,

sobra coração.

Não é pelo café,

mas pela mão no meu ombro.

Não é pela fé,

mas pelo que tira do escombro.

 

Mágico Damião,

café com açúcar da sua voz,

e luz de lampião.

Rosto moreno,

sorriso de menino,

misto meiguice

e meninice,

espontâneo e raro.

 

Quando penso em dizer obrigado,

já se foi, feito uma mágica.

Na minha mente,

ressoam os aplausos.

 

 

Mágico Damião,

sem varinha,

nem capa,

como você pode então

evaporar minha solidão?

Dissipar minhas angústias?

Evaporar um cantinho de lágrima?

 

Mágico Damião,

como você pode,

apenas com sua mão,

me fazer sentir gente?

Me trazer um sorriso,

sem nem saber as minhas dores?

 

Mágico Damião,

de todos os amigos,

você foi aquele que eu não esperava,

não imaginava,

senão uma grande alegria,

por aquele café,

cheio de coração.

 

Então, todos meus “obrigados”,

são poucos demais,

para você saber

quão grande

é sua alma.

 

 

Mara Romaro

 

Verso da Folha                                 Mágico Damião

10/05/2006 23H.

Texto para meu amigo Damião, mestre do café quando trabalhava na Rua Verbo Divino. Café servido por uma pessoa especial e digna, que trazia aroma de ternura para meus dias. Eu sorrateiramente ia à copa roubar sempre sua simpatia e deixava secretamente um bombom. Saudade de gente assim humana de verdade.

 

Para você

Para você;

Eu queria que o dia fosse luz.

Que projetasse no chão, mais do que perspectivas inatingíveis.

Que quando acordasse tivesse os sonhos que quisera ter tido.

Na primeira hora da manhã, a revoada de pássaros formasse V no céu, diante do sol nascente.

Queria uma nascente de água serena, onde pudesse refrescar os pés, e ficasse pelo tempo que quisesse ficar.

Queria lhe dar o silêncio que curasse a dor de cabeça.

Para você, sempre haveria casa quentinha para voltar, com braços e abraços lhe esperando.

Queria que vendesse todos os amendoins quentes e pudesse entrar na padaria para comer um pão com mortadela.

Alguém que lhe tratasse como gente, independente de qual banheiro você limpa.

Que tivesse um monte de gente pra gritar o gol, a cesta, o kata-guruma,  o xeque-mate, torcendo de igual pelo seu filho.

Todos que pudessem tilintar os copos, por saúde, por vitória, pelo neto que nasceu, pelo emprego, pelo livro lançado. Seja cerveja, vinho, carpano, champanhe, uma branquinha.

Para você, aquele cachorrinho branco, no portão, esperando. Você chega, ele pula, abana freneticamente o rabo.

Ou quem sabe, um choro abafado, um grunhido quando sente sua presença materna, que acaba por começar uma outra vida. Um outro alguém para pensar e cuidar. Um outro você para você.

Para você, um peixinho azul, nadando no aquário, e você lhe dá o alimento. Uma cor única e viva que lhe receba.

Para você uma colina verde a se esparramar de um veludo que se forma dos bilhões de lírios acenando com lenços.

Para você, apenas o encontrar e nunca o perder.

Todo tempo para ninar seus filhos, seus netos e bisnetos.

Todas as portas abertas, e família pra dividir a fejuca, uma maçã, uma bala, um naco de chocolate.

Vizinhos que emprestem um punhado de sal, e um sorriso.

Para você, amigos que se encontrem naquela botica, ou churras, contem a piada do ano, dêem um baita tapão nas costas, ou abraços saudosos em alguma rodoviária. Amigos que tirem sarro da sua cara; dêem garupa na bicicleta, um canto do guarda-chuva. Emprestem um livro. Dêem uma bronca, mas peça desculpa se pisou na bola.

Para você a camisa do time, o selo raro, aquela tinteiro, aquela caneca de bichos, um prato de porcelana chinesa, com desenhos de dragão, soltando fogo pelas ventas.

Para você, uma fogueira nesta noite de outono, para rodear de irmãos do mundo inteiro.

Achar aquele brinco que perdeu na praia.

Poder manter a fé nas pessoas que ama.

Para você, o manto para o frio, o céu infinito que Deus costurou especialmente para você.

 

 

Mara Romaro

 

Verso da folha                                        Para Você

29-5-2007 20:06 a 20:45

Beatles – While my guitar

Sonhos Dormidos

Sonhos Dormidos,

pão amanhecido.

Pés doloridos,

chaves perdidas.

Sol, lua e neblina.

 

Sonhos dormidos,

a busca eterna

de encontrar

ou de fugir.

Cor que foge do rosto.

O susto.

O súbito.

De fato, o acaso.

 

Sonhos dormidos,

o café coado;

uma xícara esquecida.

O tempo.

 

Tempo em tempestade.

Intempestuoso.

Monstruoso.

Sonho que te foge,

a verdade que te persegue.

 

Eu, meu Deus, e

Ninguém.

 

Sonhos dormidos,

acalentados com a voz

quase assobiada,

pão molhado no café.

Sono que embriaga,

sonhos que afugentam

eu de mim mesma.

 

Sonhos dormidos,

conversa com o passado,

sapato apertado,

andarilhos na noite.

Estrelas cadentes,

telefones no gancho.

Apatia de perder

o último ônibus.

 

Sonhos dormidos,

que dia após dia,

tento sonhar

ao invés de chorar

a escuridão,

o frio

a fome

o medo

a solidão.

 

 

Sonho dormindo,

acordo esquecendo;

Vivo aprendendo,

tentando achar

o caminho,

a ida ou a volta.

 

Cedo com o sol,

com restinho da madrugada,

lamparadas,

corujas;

vidro molhado,

embebido em sereno.

Bebo o vinho,

um cálice, para esquecer.

 

Sonhos acordados,

quando viajo,

vou, volto,

me revolto.

Sonho para sentir

o gosto do céu,

estando no inferno.

 

Sol que chega,

mesa posta,

roupa no varal.

Café com pressa,

assim mesmo devagar.

 

Sonho, que posso,

que estou,

que vivo,

que vejo,

que amo,

que deito

durmo

e te vejo.

 

Mara Romaro

 

Verso da folha             Sonhos Dormidos

05-07-07 23H

Saudade de minha mãe(s).