Diferente

Quando cheguei lá hoje cedo

Algo estava diferente

Não é porque eram outras pessoas

Não era porque uma névoa evaporava do lago

Recordações de inverno

Nem folhas de outono

 

Algo era diferente

Seria porque havia ali uma canoa?

Era o ângulo que eu olhava para o cume da árvore

Via o céu aberto entre as brechas das folhas

Uma fila de formigas carregadeiras frenéticas

Ou o quê?

Eu parecia mais cansada

O ar me raspava

Soava como a mão arrastada dentro da areia

Era assim um ar paralisado

Semblantes tensionados

Os olhos um poucos mais franzidos do que antes

Alguns fios de cabelos libertos a flutuar ao céu

 

O que estava mudado? Era o mundo, as pessoas, os sentimentos

ou eu mesma?

 

Os caminhos estavam tão calados

O sol amornado

O horizonte enevoado

O coração mais apertado.

 

O que estava diferente

A vida, os amores, todos os horrores?

Aquela criança na praia?

Lembrava-me que a nova cruz de mártir

Agora eram naufrágios.

 

E quando eu fumava todo o ar parado

Um homem estava sentado

Seu terno amarfanhado

Seu amor engavetado.

 

O chapéu escapuliu com o vento

Rolou escada abaixo

Uma criança saiu correndo atrás da pipa

Uma senhora de saia inventada

Um chinelo arrebentado

Nossos sentimentos acorrentados

E os amores desbotados.

 

Sem tempo prá quê?

Tanta pressa de morrer?

Esgoto que não dá prá esconder?

 

Onde está você?

 

O que era diferente,

Sua unha, seu cabelo, seu tattoo,

Ou meu papel  machê?

 

Sem mais e sem você.

Com amor de laquê.

O que eu desejava era mais saquê.

 

Mara

29/9/15 13:42

Música: Geboren um zu leben – Live – Unheilig, Maschine – Live – Unheilig do álbum Gipfelstürmer Live

Sensações e sentimentos, as cores dos momentos, percepções e as cores do prisma.

Vidão de meu Deus, mundão de demônios, problemas e contrações.

Dores do mundo em mim que me escalpelam.

Troféu de dor premia quem?

Junto de tudo que te arrasta, ainda tem um barco a remo para te acalmar.

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Prefirolesa de creme de baunilha e doce de laranja

Ainda que seja tarde

A meia-noite ainda não rompeu

A dúvida promete o brilho

Repensar ou verificar as sombras escondidas

É crucial para nos livrar do mal das máscaras

Deste teatro Kabuki

 

Ainda que sejam muitas palavras

Prefiro ao silêncio da morte

Silêncio da omissão e da rejeição

Sinceridades podem ser sempre conferidas no olhar

Pena que desviamos tanto, olhando o nada

que os arredores distraem

 

Ainda que seja sua intenção

tão mal julgada

Prefiro tê-las a passar o tempo enganando com razões vazias

Prefiro apertar as mãos sem gelo

Prefiro um sorriso vadio

 

Ainda que o tempo passe

Sigo com minhas queridas recordações

Certamente a mesma dor nunca pode trazer a mesma compreensão

Nas demais pessoas quando elas se fecham

Mas nem por isso eu esteja tão errada

 

Ainda que minha luz se apague,

Minha prece pode ser ouvida,

Meu sono não desvanece

O novo dia amanhece

Sempre  é possível ver a vida, as coisas, as pessoas

Com novos olhos que se abrem neste dia, com o sentimento que há dentro destas 24 horas.

 

As decisões que não se atrasem quanto adiantem

Muitos sentimentos e pensamentos serão as melhores cores das lâmpadas

Há o tempo certo para pegar a romã

Mas suas folhas brotam a cada nova estação

 

Ainda que o melhor lhe pareça

É sempre bom pensar se este não é o pior de alguém

O melhor caminho é o momento do coração sincero e de paz.

 

Mara Romaro

Verso da Folha:

20/11/15 12:13

Silêncio com barulho

A tristeza do não perene

do Caderno das Nascentes e Vertentes

Glossário

Prefirolesa – neologismo para um doce imaginário de sfogliatelle recheado com creme de baunilha, geleia de laranja e açúcar de confeiteiro para nevar de diálogo, esperança e a humildade permitirem que as pessoas corram o risco de vencer seus obstáculos e se darem mais a mão. Um doce para se servir quente do forno com café da tarde, para sorrir nos olhos e pensar quanto tempo perdido duvidando da verdade e do bom coração…

 

 

 

 

 

Caleidoscópio de Sabores

Sabor de acordar

parece o sabor de amar.

Quando você pensa que já sabe o gosto de tudo

sempre aparecem novos vapores.

Eu gostava de azeitona.

Encontrava tranquilidade em tomates.

Achava que nada poderia ser melhor,

até experimentar…

Mãe sempre conseguia colocar mágica naquilo que fazia.

Eu pensava que amizade parecia com pudim de num sei o quê.

Que os tropeços engraçados de uma amizade se pareciam àquela bala em pó de estralinho,

que um namoro de criança se parecia com guaraná.

Uma brincadeira de roda, amarelinha eram pirulitos de framboesa.

De repente, quando adolescente, pude entender a profundidade de um chocolate.

Esse era o sabor da felicidade. Nada poderia ser melhor.

 

Mas então, quando conheci sorvete, principalmente aqueles sorvetes de morango,

em casquinhas de cinema de matinê…

Um chá era canção de ninar mais predileta que eu tinha. Eu sonhava com anjos.

Enquanto mamãe amassava os ingredientes do pão de minuto,

seu amor diminuto estava em mim, em todo aquele aroma

adocicado da baunilha.

Nada mais sincero que uma baunilha.

Nos dias de infância tinha arroz doce, com a incrível intromissão da canela.

A janela aberta, com o vento sacudindo as abas da cortina,

o aroma do pêssego em calda de mamãe. Era um panelão imenso.

Quando passei um tempo com minhas nêsperas, enquanto eu as despia,

lembrava mamãe descascando os pêssegos.

Nunca pude entender os pêssegos.

E passava gritante a pamonha. Essa eu conheço de perto e de longa molenga data.

Mas, encontrei o amor, sabores mais ácidos, mais amargos, intensos. Sabores vermelhos.

Nem sei qual o descreve melhor.

Então, eu conversei com maçãs, a opinião delas era tenuemente adocicada.

Mas queria mesmo uma entrevista com a pimenta vermelha. Essa passava intensa e efêmera,

ardia e esquecia logo depois. O rocoto relleno era quase, mas não tanto.

Não podia traduzir o beijo.

Que temperatura era aquilo?

Então, conheci a cereja, mas ela era pequena e rápida.

Tive que esperar, sentir todos os aromas e vida se cozinhando em almoços e jantares desencontrados.

Por fim, achei a receita. Sim, aquilo era receita. Com principal e coadjuvante.

Contrastante sabor.

Mal pude esperar o natal de experimentar.

O aroma se levantava como alma dançante sobre o fogão,

A fervura era linda que se fazia esquecer a labuta.

Lá na geladeira o pudim alemão, carinhoso como cetim gelado nos dias de calor.

Mas a cor rubra da pele essa se intensificava na pele destemida de cada pera imersa naquela calda, vermelha intensa, com a consistência de calda antes de se formar uma geleia.

Aquelas peras em vinho sim, aquilo sim podia dizer profunda e verdadeiramente o sabor do beijo de amor.

Eu penso e sinto isso, cada vez me lembro e esse gosto invade minha pele, ela se aquece e se torna asas.

As paredes se abrasam, acendem em pequenos candelabros, inebriantes luzes de vinho tinto diluído em cor de groselha.

 

Mara Romaro

24/9/15 13:50

Quase perdi as palavras por três interrupções.

Nem sei que música. Segurei com unhas de felino atiçado e bravo para não perder esse fio de meada que queria escrever.