Não era nada mais do que um tropeço

Não era nada mais do que um tropeço, um soluço, um engasgo. Um passo adiante da poça d’água para continuar, incessantemente, na sua ânsia desesperada de um depois, de uma chance, de novo dia, o reencontrar-se, alguma coisa advinda, um olho a piscar, a flor que nascer, a dor que morrer, um sabor que se adocicasse o desencanto, um espanto, uma surpresa, uma riqueza, uma gestação, a próxima estação, o porvir, insistente e condolente, crianças nascidas e as renascidas, quem sabe o abraço, descanso do cansaço, uma palavra que seja tocante, uma correspondência, descobertas, um novo lugar, o transpor, um copo de água, um beijo, o depois amor, então, na máquina de escrever, o tilintar continua e para o escritor e poeta, pensamento do sentimento itinerante, o ponto final nunca foi nada além. Apenas um suspiro, um prender de respiração, diante da sua própria vida dilacerada. Nem ponto e nem fim de livro são conclusão. E refolheando a gente descobre tantas outras coisas, sentidos de outra cor, vazios preenchidos e senhas para frases ocultas dentro de tudo que achamos ser suficiente ter sido escrito. Ponto final que nada! Tudo ainda pode ser…

Mara Romaro 22/06/2017

 

 

Mãe Natureza

Mãe Natureza

 

Pensei ter me perdido no céu

Buscando conchas do seu silêncio de mar

E nesse amar mãe natureza

Orvalhos e nuvens brancas

semearam tons desse tempo

Montanhas, chão vivo

Você se vestiu de cores vivas

a natureza estava viva

no tecer de teias

no zumbido de zangões

O ar se vestiu de suas roupas verdes

Delas quis recordar um cheiro

Das flores se fizeram cores

vermelhas e amarelas

De girassóis e aquarelas

Cravos vermelhos

Flor de ameixeira

E a natureza estava viva

nesse sangue de mel

Os relinchos, latidos e miados

Seus suores, suas lágrimas

Os campos de mato

veludo de carmim pálido

Despetaladas rosas

Pétalas brancas transparentes

As cores vistas de olhos jabuticabas

Cavalgar vazio

Andarilhos na montanha

O acariciar das folhas de outono

Mãe Natureza viva

Linda em luz e cores

Feita de solo e amores

Permanente em pedra cindida

apontando ao céu

um lugar ermo de cor refletida

Olhar pairado no horizonte

Recorta sol poente em pedaços

para comermos como se fosse

pão sovado assado em fogão de lenha

Cheiro da terra

da chuva batida primeiramente no chão

Mães que se juntam

Mãe Terra Mãe Natureza

Cores vivas

me engolem em seus ventres

Eu me aqueço desses entes

Cores vivas que me tatuam

Um nome indecifrável desse amor que sinto

Tão vasto e tão perdido

 

Mara Romaro

04/06/2017 10:45 Domingo – Mezanino em casa

Parafinas da Claridade dos céus azuis

Parafinas da Claridade dos céus azuis

 

Continuei

Não entendo como

Sem um sorriso distante

Um céu azul claro

Feito de fragmentos madrepérolas

Continuei

navegando em barcos brancos

olhar de uma flecha de alcance

não sei como consigo

perante os abismos

meu coração em sismos

Sonhos invadidos de presença ausente

como um querido ente

a dizer enigmáticas ilusões

Continuei

com solas feridas dos pés em dormência

com a sensação da sua existência

chovendo pólens de frutificações

No ar parado há um morno

acobertar a acordar-me do sonho

de viver você

de amar o quê

um significado soldado triunfante

espírito sobrevivente

ao asfixiar de emoções

Continuei

meu andar dolorido

meu queixo caído

com olhos diluídos

De uma sensação maior

a de voar pelos ares

cuspida por um vulcão

Continuei

ferida e querida

no seu olhar confinado

em condenação

Minha vida respira

pela polinização

nas abelhas

na dor

Continuei

erguida, sentida

dos gestos do golpe de ar

dos gestos da alma incontida

do amor que veste

que me cura

em cada noite dormida

 

Continuei vendo o movimento

o adernar de pássaros

a desenhar nuvens de bordados

rendas brancas tecidas no orvalho

de mãos dançarinas

a me iluminar em lamparinas

Quanta saudade

de suas

Campinas

 

Mara Romaro

29/5/2017 16:04

Música: Ryuichi Sakamoto – Affirming

– Sinto sempre comigo o que é antigo.

Abelha operária

O esvoaçar do cabelo

Parece apenas um grito

Uma liberdade

Somos um galho

na esquiva

dos enroscos

Nas curvas

Na vida

Visto meus casacos

uma folha de arruda

Medalhinha da santa

Lavanda abre-caminho

Ginga

Desvia

Olhos de águia

Pulo do gato

Buraco!

Olha a porta!

Inclina a um lado

Contorno de esquina

uma poça respinga

Carros na fechada

Retrovisor prá nada!

Gente louca desvairada

Celular enfiado na narina

Prestenção!

Não quero cair não

Esgueiramos

Sacolas na mão

Chuva se veste

Ele conduz meu pensar

Golpe de serpente

na viela entre carros

Vivemos nosso corpo fechado

Nossa prontidão

Parece liberdade

o que é ginga

e golpe de capoeira

Reza brava

Vento frio e

cusparada

 

Mara Romaro

23/05/2017

Música: Madredeus

Nossa vida em duas rodas

Altar de flores

Altar de Flores

 

E se eu saísse por aí

correndo os cantos

os canteiros, as floreiras

as abelhas

Colhendo um pouco de ti?

Encontraria um beijo aqui

outro ali

Se eu saísse voando por ali

encontraria tuas pegadas

tuas arcadas

tuas palavras?

Se eu saísse colhendo

através do momento

do voo

do enjoo

do prato vazio

do tilintar de copos

encontraria fragmentos de dentina

de saliva ou fios de cabelo?

O que eu colheria de ti?

Se eu saísse de mim

Se eu me visse oculta

nesse carmim

Colheria horrores de flores

de cravos, espinhos, sépalas

carpelos nessa cesta de palha

Sorrisos que se espalha

 

Se eu andasse as rotas

com roupas amarrotadas

colheria meus estigmas

Androceus

Gineceus

Arranha-céus

Ilha de Bornéu

Eu colheria qualquer parte

Pedra de Marte

Obra de arte perdida

Até a ferida

Deste cálice vazio

Ombro sombrio

Nesse andar saído sem rumo

Desse altar esquecido em musgo

dos sacrifícios tão humanos em si

 

Mara Romaro

03/05/2017 17:33H

Bambuzal


Bambuzal

 

Todo dia isto está assim

Acordo e vivo

por onde ando comigo

sinto o perfume desse Jasmim

Uma calma que me ama

Uma prece que me veste

Está em mim, no meu ar,

no meu gosto, no meu susto,

no meu rosto

Quando olho em brilho negro

Quando sinto a vida verdejar

Quando deito em capim

Quando eu amo o que está em mim

Em uma vida que guardo de cada olhar

 

Estalidos contorcidos que se deitam ao ar

Fitas verdes debruçam arcos

Uma multidão de plantas aquáticas

Se confinam

Se derretem  Se parafinam

Em um brejo invadido de escombros

Escuto as vozes e os bambus com assombro

Verde deposto em palha

Ainda escuto cigarra

A despertar meu pranto

A adentrar meu canto

 

Estalidos do outono

movimento dos pântanos

meu lugar perdido

esse verde antigo

se perde agoniado de mim

 

Seguro um ramo

uma vareta de bambu

Saio entristecida com tudo aquilo

que roubaram do fim

 

Mara Romaro

01/05/2017 22:15 H. Em casa.

 

Pássaros

Pássaros

 

Há um intenso entender no silêncio

Mas não tanto como o som do ar liberto

Chilrear de bicos livres

Voos possíveis e horizontes escancarados

 

Há um perfume imenso no broto

Um sabor picante sem ser insosso

Mas não tanto como as palavras livres

Os encontros permitidos

Os sonhos batalhados

O suor do ofício amado

 

Há uma luz intensa do sol

Curvar das flores à luz

Há madrugadas úmidas e descansos

Mas não tanto como o voar dos gansos

Seu ganido tremeluzente sobre o lago

Seu voar plácido e desapegado

 

Há o saciar da fome

sabor de doces sobremesas

uma golada de café quente

Mas não tanto como os sorrisos livres

o amor renascido

um afago amigo

uma dor repartida

um abraço apertado

 

Há dias e dias, noites e estrelas

Nenhuma luz pode ser medida

Mas não tanto, quanto o amor

a amizade

e a liberdade

e o desengaiolar

desses lindos pássaros sentidos

existidos

no voo engolidor de distâncias

abrandador de diferenças

 

Há pássaros

Mas não tanto como os livres

Solte seus pássaros enternecidos

 

Mara Romaro

24/04/2017 12:23

Era para ser uma frase…

 

Poema Perdido

Tudo ao redor são neblinas

Um correr desmazelado de meninas

Sol abre nuvens como se escolhesse feijão

Peneira que joga o café para cima

Pingos de ouro caem e tecem olhares

O som ritmado dos teares

As mãos chuleiam as colchas

Borras de café atiradas nos canteiros

Aproxima-se um olhar matreiro

De tão longe, com brilhos de lua

Usando um chapéu de abas

nele uma jardineira de azáleas

enquanto eu sacudo a toalha e suas migalhas

Uma fileira de formigas tem um andar interrompido

porque se saúdam

Olhos fumegantes adocicados em xícaras

Biscoitos de polvilho na terrina

Os olhares não dobram esquinas

O senhor de mãos grossas como cordas

Tira o chapéu de ninhos de filhotes

Meus braços apoiam uma moringa de água

Vejo que permanecem poucos tufos do gramado

Ajeito o cabelo despenteado

Para sorrir um convite ao café

Senhor veste um casaco mel

Neste Março libélulas duelam com o céu

Já é caída a folha como

um tacho de doce de leite

Cheiros de vida perfumam o vapor

Mas antes que sentamos à mesa

fazemos um gesto de coração

que bate contra coração

Um velho aperto que nos certifique

que afogamos o tempo passado

como um cardeal cordial presente

Do canto da boca brilha um pequeno escorrido

de salivas que voam dos risos

como um resto de orvalho pinga

da telha emudecida

 

Uma orquídea se emaranhou

por entre os galhos

da amoreira adormecida

Há um cacho amarelo

pendendo e dançando

como um beijo de sol

num morno reencontro

não acontecido

 

Mara Romaro

28/03/2017 11:24H

 

Como a Fruta

Pouso sentimento branco quando   Mordo.

Sinto verter lágrimas, sigo-                       as.

Doces encantos em suas pálpebras macias.

Mastigo palavras                                         que…

ficaram     por                                       sorriem.

Um gosto terno que nunca               Enterro.

Sorridentes sementes entre os          dentes.

Pele escurecida dos pedaços                      de…

si que engoli claro como                      pétalas…

de açúcar que se derrama                             de…

uma maçã vermelha do                          Amor.

 

 

Mara Romaro

14/03/2017 15:50

Chave para mensagem estenográfica: Pontuação.

Dentro do poema, há uma frase poética.

Leia-me

Leia-me

 

 

Teia-me a aranha

Contém-me em suas mordaças

Folheiam-me bolores

Devoram-me traças

 

Leia-me cada letra

Perca-se nas folhas decapitadas

Palavre-se além de cinco

Cílios que se fossilizam em páginas

 

Leia-me Tateia-me

 

Letras em cardumes

Pensamentos em negrumes

Incompreenda-me mal

Saboreie deste sal

Frases varridas do quintal

Salivas gotejadas deste animal

 

Pagine-se no fulgor de imagens

Formule-se mensagens

Dobre-as em aviões de papel

Lance-as nos seus céus

 

Incendeia-me de livros velhos esquecidos

Longos romances interrompidos

Beijos estáticos nas folhas amareladas

Cheira-me papel

Vire pátina

Esqueça-me

Palavras borboleteiam

Desvencilham-se teias

Vagam ideias em veias

Nos olhos que folheiam

 

Leia-me por inteiro

em pedacinhos picados de papel

Leia-me nas folhas amassadas

Leia-me no lixo, no nicho

tocando com seu ouvido

Leia-me em cinzas que espalhe do alto

_                                       da torre Eiffel

 

Leia-me decompondo palavras

em letras por sua saliva

Destila-me venenos em suas salinas

Rasgue-me em páginas passadas

Que o esquecimento vesti-la-á de lembranças

Que as palavras brotarão da cabeça em tranças

 

Mara Romaro

23/02/2017 12:05H

 

O arquivo leia-me, costumava vir em diversos softwares, contendo instruções de instalação e uso.