Revoada de Arrebol

Revoada de Arrebol

 

 

Voei porque minhas mãos tocaram o céu

Continham brilhos de

arrebol pálido

sorriso morno

Pedrentas nuvens

Anúncio de frio

Caída a tarde em meu joelho

Acarinhava prantos recolhidos

Revoltos com olhos carcomidos

afastavam um rosto de relembrança

Na busca

O céu me trazia a revoada

Ao longe um bando de Egrettas

refletiam minha agonia

refletiam últimos lumiares

Um bando branco tingido

Agrupado dispostos em V

Vitória de transição

Ao poente me vou

Ao poente meu sorriso

Mais bandos

Grunhiam passando sobre mim

em subgrupos aninhados

Aos colos do céu obscurecido

De uma saudade

enternecida em um

simples sorriso

Meu amor se punha em voo

Ar que não se opunha

Só eu me pus a ver

Migração de inúmeros bandos

O nunca visto aqui

no meio da rua sozinha

Eu e baratas de bueiro

Faróis de carros de passeio

Faróis da Barra

Faróis de sóis veraneios

Eu aqui amando

amando o amor

devaneio

 

Mara Romaro

04/08/2017 11:30

Biblioteca Municipal – dia de estudos literários

Música: On the Nature od Daylight – Max Richter

Sobre um grande momento de fim de dia ontem, com a chegada de muitos bandos de garça branca pequenas, não eram verdes, então não eram bandos desordenados de maritacas, não eram patos, não eram gansos, nem garças grandes. Eram brancas, grunhiam discretamente iluminadas com a última luz do dia, já esmaecida em tom purpúreo acinzentado. Uns oito ou dez bandos, grandes, outros com menos, indo em direção ao Jardim Paulista. Nunca havia visto uma migração inteira assim. Egretta Thula – garça branca pequena, aproximadamente 54 cm.

Cântico da Claridade do Céu Azul

Nada Nada

Sem nada eu tentei todo

Folha de rosto

Sem pauta Sem margem

Nada me disse o todo

Capa de livro sem face

Se o dorso acarinhasse

Gestos desviados de mim

Pouco fez sentido jasmim

Desenhos da água do lago

Emanar vago em cálido

Algo que flutuava largo

Ao longe pensei nas folhas arrastadas

Todo tempo o tudo ou nada

Escuto o mudo

Não vejo sombra

Tudo no ombro do Nada

Subo e desço do rumo

Encontro seu sumo

Sob escombros das unhas

Nos vértices de peles e rugas

Nada passa o Tudo

O Todo

O sentido que norteia

O destino desnorteia

O Todo Tudo

Vaga no nada

Tudo do todo

Tudo em tudo

Nada estava

Onde eu ia, iria

Desencontro de rumo

Rumino fumo queimado

Passa Tudo

O todo pulsa mais firme

Mais íngreme

Descida veloz que não acaba

Infinito que voa ao longe

Tudo com Todo amor

Todo momento o pavor

Nada é limonada

Água de beber

Do mar pendurado no varal

Que recolho, mastigo procurando a

Última gota de nada
As mesmas coisas

Integram vazio

Espero na janela

Ninguém vai surgir

O sono não vai me dormir

Não tenho coisa alguma

Era só sentimento bom

Água que não mato sede

Ao que se desconfia

Que sombras são venenos

Água desaguo

Inútil e nada

Tempo errado

Sol me engana o rumo

Tanto faz a que lado ir

Tudo é tudo

Nada é nada

Seu vento não me alcança

Muito fraco

Meu coração

É abalo sísmico

Onde ando

Onde anda

Onde nada

Onde tudo
Mara Romaro

16 jul 2017 11h lago do major Atibaia

Parafinas da Claridade dos céus azuis

Parafinas da Claridade dos céus azuis

 

Continuei

Não entendo como

Sem um sorriso distante

Um céu azul claro

Feito de fragmentos madrepérolas

Continuei

navegando em barcos brancos

olhar de uma flecha de alcance

não sei como consigo

perante os abismos

meu coração em sismos

Sonhos invadidos de presença ausente

como um querido ente

a dizer enigmáticas ilusões

Continuei

com solas feridas dos pés em dormência

com a sensação da sua existência

chovendo pólens de frutificações

No ar parado há um morno

acobertar a acordar-me do sonho

de viver você

de amar o quê

um significado soldado triunfante

espírito sobrevivente

ao asfixiar de emoções

Continuei

meu andar dolorido

meu queixo caído

com olhos diluídos

De uma sensação maior

a de voar pelos ares

cuspida por um vulcão

Continuei

ferida e querida

no seu olhar confinado

em condenação

Minha vida respira

pela polinização

nas abelhas

na dor

Continuei

erguida, sentida

dos gestos do golpe de ar

dos gestos da alma incontida

do amor que veste

que me cura

em cada noite dormida

 

Continuei vendo o movimento

o adernar de pássaros

a desenhar nuvens de bordados

rendas brancas tecidas no orvalho

de mãos dançarinas

a me iluminar em lamparinas

Quanta saudade

de suas

Campinas

 

Mara Romaro

29/5/2017 16:04

Música: Ryuichi Sakamoto – Affirming

– Sinto sempre comigo o que é antigo.

Altar de flores

Altar de Flores

 

E se eu saísse por aí

correndo os cantos

os canteiros, as floreiras

as abelhas

Colhendo um pouco de ti?

Encontraria um beijo aqui

outro ali

Se eu saísse voando por ali

encontraria tuas pegadas

tuas arcadas

tuas palavras?

Se eu saísse colhendo

através do momento

do voo

do enjoo

do prato vazio

do tilintar de copos

encontraria fragmentos de dentina

de saliva ou fios de cabelo?

O que eu colheria de ti?

Se eu saísse de mim

Se eu me visse oculta

nesse carmim

Colheria horrores de flores

de cravos, espinhos, sépalas

carpelos nessa cesta de palha

Sorrisos que se espalha

 

Se eu andasse as rotas

com roupas amarrotadas

colheria meus estigmas

Androceus

Gineceus

Arranha-céus

Ilha de Bornéu

Eu colheria qualquer parte

Pedra de Marte

Obra de arte perdida

Até a ferida

Deste cálice vazio

Ombro sombrio

Nesse andar saído sem rumo

Desse altar esquecido em musgo

dos sacrifícios tão humanos em si

 

Mara Romaro

03/05/2017 17:33H

Poema Perdido

Tudo ao redor são neblinas

Um correr desmazelado de meninas

Sol abre nuvens como se escolhesse feijão

Peneira que joga o café para cima

Pingos de ouro caem e tecem olhares

O som ritmado dos teares

As mãos chuleiam as colchas

Borras de café atiradas nos canteiros

Aproxima-se um olhar matreiro

De tão longe, com brilhos de lua

Usando um chapéu de abas

nele uma jardineira de azáleas

enquanto eu sacudo a toalha e suas migalhas

Uma fileira de formigas tem um andar interrompido

porque se saúdam

Olhos fumegantes adocicados em xícaras

Biscoitos de polvilho na terrina

Os olhares não dobram esquinas

O senhor de mãos grossas como cordas

Tira o chapéu de ninhos de filhotes

Meus braços apoiam uma moringa de água

Vejo que permanecem poucos tufos do gramado

Ajeito o cabelo despenteado

Para sorrir um convite ao café

Senhor veste um casaco mel

Neste Março libélulas duelam com o céu

Já é caída a folha como

um tacho de doce de leite

Cheiros de vida perfumam o vapor

Mas antes que sentamos à mesa

fazemos um gesto de coração

que bate contra coração

Um velho aperto que nos certifique

que afogamos o tempo passado

como um cardeal cordial presente

Do canto da boca brilha um pequeno escorrido

de salivas que voam dos risos

como um resto de orvalho pinga

da telha emudecida

 

Uma orquídea se emaranhou

por entre os galhos

da amoreira adormecida

Há um cacho amarelo

pendendo e dançando

como um beijo de sol

num morno reencontro

não acontecido

 

Mara Romaro

28/03/2017 11:24H

 

Como a Fruta

Pouso sentimento branco quando   Mordo.

Sinto verter lágrimas, sigo-                       as.

Doces encantos em suas pálpebras macias.

Mastigo palavras                                         que…

ficaram     por                                       sorriem.

Um gosto terno que nunca               Enterro.

Sorridentes sementes entre os          dentes.

Pele escurecida dos pedaços                      de…

si que engoli claro como                      pétalas…

de açúcar que se derrama                             de…

uma maçã vermelha do                          Amor.

 

 

Mara Romaro

14/03/2017 15:50

Chave para mensagem estenográfica: Pontuação.

Dentro do poema, há uma frase poética.

Vidraças

Estou exausta

Limpei vidraças

Os batentes

Combatentes

Retirei o pó

de ouro do sol

Gotículas secas

Restos de aranhas

Colmeias

Areias

 

Limpei as vidraças

a expirar meu cansaço

No pano fuligens

Restolhos de nevoeiro

Nuvens

Limpei

Tanto que me deu dó

meus dedos ficaram pelas frestas

Suor desceu pela testa

Unhas foram engolidas nas minhas estranhas

Passei a olhar

sem véu

sem acúmulos

sem cúmulos

nimbus

Sem sinos

Sem sinas

Na árvore, lá estavam

eles sacudindo-se

pavoneando-se

dançando verde

Eu escarrapachada

Exausta

 

Queria verter minhas coisas

Queria clarear o lamacento

Queria comer gelatina de limão

com as mãos

 

Exausta. Ai, me abraça,

me acalma

A luz que entra rasga minha parede

A balançar sozinha, a minha rede

 

Eu lá. Parada. Esperando ainda.

Limpei as vidraças, quem sabe

vens ouvir junto esta música

Voar em dispersão

Esconder dentro de nuvens

Não vens

 

Limpei vidraças, sem graças

 

Estava um calor

Dois calores

Três calores

Quatro amores

Cinco amores

Seis amores

Sete pavores

Eu não sei mais contar

Quantos vidros, vitrais,

cacos deixam de me enevoar

Posso abrir a porta

e deixar o ar entrar

 

Limpei as janelas

vens e tens este momento

a pintar sua retina

sua Iris, seu nervo

seu estar

cristalino

 

Mara Romaro

16/02/2017 tarde

No mezanino, com Ártemis.

Agora me restam os tetos.

 

Rua Brasil

Ao final do dia, o caminho percorre minhas veias

Sinto as palavras se escreverem

por meus braços abertos ao vento

A moto desliza neste repente

de uma coleção de percepções

dos horizontes viajantes

Um jacarandá de esquina

Flamboyant derramando pensamentos nas calçadas

onde uma criança de chinelos

corria de shorts e camiseta de algodão

Primavera prenuncia as cores das paredes

verdes, azuis, tijolinho, amarelas, violetas, vermelhas

Portões com uma mulher debruçada

Um sofá a venda na garagem

Vende-se

Aluga-se

Muda-se

Vive-se

Foda-se

Adiante a viela enrugada da chuva

Uma igreja fechada

Casa de entulhos

Muros arranhados

Um homem com um copo, uma espuma, na mesa do bar

Uma casinha com flores com cara de lar

Terreno que se capina

Aves de rapina

Em dia de chuva, criança que brinca

na sarjeta de água corrida

Pintura esmaecida adentro da porta aberta

Um varal de roupas coloridas na frente das casas

Espadas de São Jorge plantadas nos canteiros

Santos iluminados em um oráculo acima das portas

Cortinas desfraldadas

fugindo às janelas

Subo adiante e vejo sobradinhos

Quintal com pé de mamão

A vista vai se abrindo

Para os terrenos esquecidos

Já chego ao final da rua Brasil,

Adentro a rua Campinas

Com árvores sorridentes na minha chuva

Contornamos o lago,

das garças que fugiram

Transcorrem os lugares, os ares,

as folhas que atapetam o chão

Um respirar

de fim de dia,

para ver uma última vez o sol

me avisar que minha casa está a se aproximar.

Rua Brasil,

rua de todo dia,

de gente suada,

roupa lavada,

cheiro de fritada,

bananeira no quintal

Esperança preguicenta do cachorro vira-latas

Rua Brasil

a moça espreita através da janela

o lugar por onde a rua sumiu

Mara Romaro

Verso da folha:

08/12/2016 13:20

Música: Ein wahres Glück – Unheilig

Muitos e muitos trajetos que as palavras escreveram-se em minha mente, evaporaram, esqueci, reescrevi, diariamente as impressões das ruas do país e seu cotidiano e de seu coitado povo.