Diadema

 

 

O que guardo no coração

isso lá é comigo

Se faço dele um abrigo

O amplo olhar

engole o frio

Pinta o pôr-do-sol antigo

Gaivotas caladas

em sobrevoo

O que guardo comigo

é de ti algum vazio

o desapercebido

o saber esquecido

O que sinto é meu dilema

impróprio e doado

Meu guardado problema

com brilhos de diadema

Frescor silvestre

Deitar anoitecer

Aconteça tudo o que for

Está costurada esta dor

no mato cresce sem permissão

amarela flor

O que guardo no coração

Tem a força de uma mão

cúmplice que semeou

o amor

 

Mara Romaro

23/05/2017 13:49

Música: Madredeus – Haja o que houver

Realejo de Insônia

 

Era para eu subir os degraus

Ler um pouco de Sagarana

Talvez um copo de água

Ruído da fria chuva

Um bala

descascada

Um chinelo de pano

Restos de sonhos

de banho

Chá morno

adocicado de cana

Podia ser amor na cama

Apenas estico os braços

sinto seu morno sono

me perdi nesse estágio de sono

Penso no mar

Busco calma

Apenas a friagem de alma

Quanta coisa indigna

Sem solução de vida

Palavras desobedecem as horas

Encantam – me afloram

Visto um robe, meus óculos

Sentimentos de revoada de mariposas

A dizer

nada que mude a noite

e a falta

Desenho de contornos

Delinear de ilusões

Fantasias de reis momos

Lantejoulas coloridas de morango

Lacrimejando de um gole de água com gás

Retorço o ombro de friagem

Penso nas aves molhadas em seus ninhos

Minhas aflições apago na bituca

Tento esquecer o refrão da música

Vinícius e Milton

Lembro de uma a esquecer d’outra

Sem mérito

Sem fim

Gata que mia

me pede

se fia

Um chá me cairia bem

Quanto que evito dizer a palavra

que ecoa na azia

Sou subjulgada a ela

No entanto, é luz que acaba

uma vela se acende

 

Mara Romaro

19/05/2017 Madrugada

Coisas que eu sinto

como se viessem de bem distante

Essência de Perfume

 

Com suas mãos

a delicadeza se vestia como luvas

Nessas horas da noite

ouço o cair da água

nas águas do telhado de chuva

Os gestos contidos

dobrados em finos lenços de cambraia

arrumados em uma caixa

um resto de perfume antigo

papéis guardados

Uma caixa

Uma caixa que fecha

se tampa

se estanca

Põe-se tranca

Sela e

Lacra

Guarda no fundo

Enterra

Cobre com palmos de terra

Vira-se

Faz-se um mapa

 

O dia que amanhece

com luz mais intensa

com os pés nesta fina água

Terra umectante

o instante das cores vibrantes

dessa ferrugem do solo

Uma cor ocre

Cheiro odre

Natureza morta

O que guarda, transborda

Um feixe de luz

ou uma energia invisível

ou o energizar de elétrons

ou uma fumaça

um mísero fio de fumaça

que esparsa na atmosfera

e me cobre dos seus gestos

dos seus perfumes

como um pousar imperceptível

Um toque leve como uma

borboleta marrom

desenhada em preto

 

Reviro na cama

madrugada esfria

Invernos me aborrecem

Sono que engulo em seco

Olhos meus não se fecham

Buscam saber o que me tocou

O que teria me acordado

O que teria me dito

O que teria me feito

Tudo cerrado na caixa

Trancado

Enterrado

Estranhamente se manifesta

no tempo

na incessante chuva

Em como me sinto agora

despida de adjetivos

e adjacências

somente um resto

de um pequeno gesto

de essência

 

Mara Romaro

19/05/2017 Madrugada, no mezanino em compania de Ártemis – minha gatita.

Águas Profundas

Águas Profundas

 

Sinto em tato frio

Luz fraca

Fossa abissal de plânctons vivos

Cores inexatas

Seres submergidos

que tocam a tez subcutânea

tendão contraído do andar

Eu mergulho em correntes

sanguíneas

em correntes profundas além da inércia

contra gravidade. flutuo

estendo os braços nadando

através das veias e artérias

através da matéria

Transcorro mares perdidos

Transcorro sua vitalidade

ritmada em ventrículos antagônicos

 

Navego vermelho e encontro o ar

branco, nevoeiro

que cortina seu pulmão

Mergulho ar e vento

Vibro em sua corda vocal

Proferida em sua fala

E em azul chego ao seu

mar orbital

uma mente retorcida

de pensamentos e sentimentos

nadando

reclusos nas profundezas do mar

oceânico

Minha presença assusta as

raias e as violetas

Meu tocar invade sua ilha

de percepção

Sua visão se turva

Eu emirjo, minha mão aflora

através do brilho que desabrocha em seus olhos

afora

transborda em um instante de lembranças

A água tremula forte e se acalma

O amor foge, evapora

Ascende ao céu, seu rosto se acomoda

o coração se contrai, acelera

Bate e o sangue se contorce

na crossa arterial

A pele aquece

Ouvido se apaga

Um tremor que passa

num átimo desse meu mergulhar

 

Mara Romaro

01/05/2017 22H. Em casa, mezanino.

Mergulho em águas rasas

Mergulho em águas rasas

 

Nem bem amanhecia

eu tinha algo nas mãos

um retrato que desfazia

um olho d’água

espelho de estranhas imagens

um lago de cachoeira

ladeado de tecido verde

musicado de um cricrilar ininterrupto

 

Eu podia mergulhar nua

uma água fresca e não fria

veste-me como camisas xadrez vermelhas

Nado as ondas da expressão facial

nado um lago de mel pintado em lábios

nado arroios castanhos de seda

O vento sacode em ondas amorfas

alcanço lago branco em leite

piscante em brilho reluzente

Continuo a nadar a pele incandescente

Marcada e tatuada de sol nascente

Nado afastando as folhagens

de costelas de Adão

Nado para o vale sagrado

atravesso o poço umbilical

e chego à margem doce

dominical

Nado do Quadríceps à  Fáscia Lata

Perco-me em Grácil

Afogo-me nos joelhos de Vitórias Régias

Por fim, renasço em meu novo dia

Ao ter chegado à margem oposta

Tocando Tálus e Calcâneo

Passei através

enquanto

a luz do dia nascia

e sua água amainada

ainda dormia

imaterial diante de mim

Envolvendo a íntegra do meu jardim

 

Mara Romaro

26/04/2017 10:10

Carta do Aquém

Carta do Aquém

 

Segue-se tempo e horas,

anos de buscas senhoras,

riso a alimentar a fome

o sol a pino

tudo foi se proibindo

faltava centavos às contas

Tinha que sorrir com aquisições

enquanto o alicate cortava meu fornecimento

Foram acontecimentos

Pessoas tem ojeriza

E não é diferente para os tantos

que vivem submundos

subalternas situações de impropriedade

Pão de ontem

Torrada de anteontem

Cano que vaza e contas impagáveis

Roupas de outrem. Dívidas a quem?

Parcelas, vielas, becos sem saída.

Luzes se apagam ao fim do ato do teatro

Eu, você ou ela? Quem vai comer?

Guarde um pouco para depois

Sonhos com dentes, comprar uma pasta de dente,

Tratar um canal.

Sonho com perseguição, pessoas da inquisição.

Eu trabalho. Todo dia. Muitas vezes à noite.

Sempre devia ser isso. Devia me pagar os pães.

Não paga. Acham-me inútil.

Sigo o que decido, honestamente.

Todos os preços que paguei e sacrifícios foram meus.

Esqueça o que pensa de mim com os seus.

Sonho comprar meus próprios remédios. Eu que fiz tanto.

Deixei as análises no tempo passado,

não permiti esse seu eterno gerúndio de cogitações da minha vida.

Eu honro-me. Eu dignifico o que faço, sem preço, sem paga, sem indenização.

Escolhas são minhas. Escolhas teu caminho.

Aquém de tudo, há um enraizar complexo

como manguezais

com lodo até o talo,

por onde eu posso caminhar.

Tenho ferimentos físicos e ilusórios. Tenho ferimentos aparentes

e profundos.

Sigo aquém do que queria.

Gostaria de não chacoalhar hoje minha dor irradiada sobre o banco da moto resfriada em chuva. Queria esquecer os atoleiros.

Queria esquecer quem nega carona em tais circunstâncias.

Queria só um prato de macarronada ao sugo.

E depois de tanto tempo, as coisas mudam, as pessoas não entendem aquém.

Não permito mais discutir sobre meu trabalho ou questioná-lo.

Para estas pessoas indico o próximo balcão de informações.

Hoje não vai dar para pagar. Quiçá amanhã…

 

Mara Romaro

18/04/2017 14H

 

Aquém: – na parte de cá; neste lado, deste lado.