Diário de Navegação – Tatuagens na alma e Porvenir [6]

Dia 18 Abril 2018. 13:42.

Quero contar, se me recordar, o dia que amanheceu, foram os tênues dedos de um raio tímido que perpassaram minhas pálpebras, como se houvesse a tal praia alaranjada, com a mãe junto às crianças correndo com elas a tiracolo, fazendo sombras ao percurso úmido de areia, com um espalmar de pés decididos a eclodir chuvas que brotassem do chão. Pela manhã encontrei minha voz em grunhidos de uma memória de dor, e decidia a primeiro me fortalecer, fervi água a dar banho em saquinhos de chá, com minutos delicados, meus dedos tateavam cada movimento bem lentamente a dar riscos gravurados, como banhar um bebê envolto em cueiro, passando mãos ao contorno de sua cabeça, a colar os fios de cabelo com água perfumada.

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Diário de Navegação – Travessia das cordilheiras de chumbo [5]

Enquanto as folhas do caderno adernavam virando páginas feito leque, sem parar, não rapidamente, mas pausadamente, com alguns momentos de um sopro divino vigoroso, tentando dizer em qual momento sua sorte cairia; eu me apoderei de pena de ponta de estanho, ranhurada e chanfrada a dar serifas na fonte de letra caligráfica, para o livro de capa dura, com acabamento de couro nas abas em tom de severidade, escuro e envernizado – o diário de bordo – para transcrever anotações que jamais em vida, me proporia a grafar, para olhos nenhum passarem correndo em leitura silábica. Era uma pena presa em suporte em madeira alongada e torneada, mais bojuda à frente e estreita na ponta traseira, cuja pintura adornada eram misturas de cores de tintas, manchadas à deriva e o tinteiro vidro, era um Waterman Encre Bleu-noir, apropriadamente um tom de azul marinho, em anoitecer. As palavras doces do poema, foram cerradas naquele caderno, amarrado, cujo cordão de couro requeria um nó marinheiro. Mas, anotações que fizera, de verdade ficaram em rascunho, quando ontem, olhava para o cabeçalho e escrevia a data, enquanto acalmava a mente vasculhando o mapa da costa sul argentina, dando vistas para a entrada do estreito, e os solavancos das águas começaram a se fazer ouvir, e fiquei horas, olhando folhas em branco, sem capacidade de cifrar qualquer caráter do alfabeto.

Dia 09 de Abril de 2018.

Transcrevo – Oceano que nublava e anoitecia a cada milha, um enrugar próprio, algoz e Read More

Diário de Navegação – Tempestade perfeita [3]

Dia 2 de abril de 2018. 11:09 H.  Latitude 24° em direção sul.

A ilha não se avistava, apenas sabia pois não identificava mais grunhidos de aves, eu estava mareada, deixei-me entre o chão, os braços no assento em forro impermeável azul branco de um banco, era continuismo, de uma jornada que gerou enormes sacrifícios e cicatrizes, dos setecentos dias entre 2001 e 2003, estava prestes a adormecer no assoalho, com ligeiras poças que venceram as pequenas barreiras da embarcação, em pouco tempo eu dividia o gelatinoso dos olhos com esses pequenos tecidos da água de sal, e me misturava, tentando botar em brilhos pequenos, o início de uma purga, algo que eu vomitasse diferentemente, que as palavras não me salvaram. Escritos me retorciam, a caligrafia arrastada, por vezes recalcada de letras que saíram às avessas, ou reescritas palavras que adivinhava no ilegível rabiscado, e tudo aquilo parecia sombra na minha pele, trechos que sabia, e toda aquela significação ignorada me embriagou em Read More

Diário de navegação – navegar [1]

Diário de navegação – navegar
12 de fevereiro de 2018. 11:45 H. Pç do Retiro | [1]

 

Hoje, cada passo reverberava o som do pisado, em uma dor esquecida, nas nozes do sacro, nas nozes da cabeça do fêmur. Ainda recordava dores lancinantes, do coração
queimado na fogueira da noite, hoje eu teria de recolher pepitas de carvão, quem sabe serviria para marcar meu caminho perdido.

O pica-pau catava coquinho, eu escutei seu piado, era diferente, cada o é.

Os coquinhos caídos, minhas lágrimas sangradas, uma tristeza continuada das mãos Read More

Mensagem na garrafa

11 de janeiro de 2018. 20:55 H.

Fiquei observando o esgotar do incenso, gosto de pensar na presença que ele me concede em amplo frescor, um prolongamento da tarde, gosto de sentir que após os anos idos, ele nutre uma espécie de sabedoria da sutileza, ou a delicadeza para adentrar meu fundo de olho com aroma brando.

Observo, minha própria recordação, da tarde anciã, vestida de casaco de pele de urso polar, com os rostos voltados para mim em perfeito véu, como uma noiva nunca acontecida, que de tempos em tempos, adentra um cômodo e prova seu vestido jamais visto por olhos algum.

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